a pergunta sobre o que é um leitor me surgiu a partir de Ricardo Piglia. lendo Piglia comecei a pensar em que tipo de leitor eu era...
talvez um leitor viciado, insone, que não consegue parar de ler, que encara a leitura como uma forma mesmo de vida... vivo neste mundo paralelo que às vezes toma conta da minha realidade...
alguns dias atrás, vivendo minha realidade, me deparei com uma lembrança de infância insistente, de quando eu tinha talvez cinco ou seis anos, me lembrei que pedia sempre à minha mãe pra enrolar minhas bonecas como se fossem bebês... não sei o que tinha de especial neste modo de enrolar as bonecas, sei que só minha mãe sabia fazer, e me veio um carinho singelo por este momento vivido...
revivendo nesta lembrança, perdida em qualquer abismo espaço-temporal, encontrei uma colega de trabalho, e ela me dizia realisticamente qualquer coisa sobre alguém e ainda de dentro da minha lembrança eu não conseguia precisar quem era a moça, nem saber sobre que realidade ela me dizia... não sabia a quanto tempo ela estava ali e nunca havia experimentado essa sensação de alheamento...
não sei se posso explicar esta sensação, mas a idéia do Piglia (que é talvez borgeana) de que não existe tensão entre o real e o imaginário, ou melhor, de que tudo é real é que me fez pensar no sentido desta interposição de realidades... nem tudo é ficção, mas tudo pode ser lido como ficção, diz ainda o Piglia, não lemos a ficção como mais real do que o real, mas o real é que se deixa perturbar e contaminar pela ficção...
em mim então está tudo tão perpassado pela ficção que nem sei qual parte de qual citação faço parte... em qual leitura me perdi e em qual delas me posso achar...