segunda-feira, 1 de novembro de 2010

a partida de xadrez


E começamos a jogar a partida, era uma partida começada há séculos atrás quando todos os homens ainda começavam a existir e ser animus e todas as mulheres ainda nem sonhavam com seus arquétipos, e por todos os séculos passando jogamos a partida nas trevas das cavernas, no monte de todos os Olimpos, nos seios de todas as igrejas, nas guerras de todos os povos, no mistério de todos os renascimentos, na luz de todas as trevas, na vida de todos os realismos, na merda de todas as quedas, nas poções de todos os magos, no medo de todos os horrores, no sorriso de todas as propagandas, e os séculos passavam e eu te vencia e você me vencia e a partida nunca enfim acabava e eu tremia e o céu tremia e o mundo era gemido e o torpor se aproxima da minha anima, e me possui e não nunca se desfaz e não nunca que me alcança e é só isso, por todos os séculos e séculos é só isso.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

pequenas porções de ilusões...

1. Cão que ladra não morde. Todo dia desvio meu caminho por causa dele, hoje não desviei: ele latiu latiu mas fui em frente, continuou latindo e não me fez nada!


‎2. Mentiras sinceras me interessam. Tinha uma aluno que nunca fazia lição de casa. Quando eu perguntava o motivo, sempre me contava uma história fantástica. Passei a dar lição de casa todo dia só pra ouvir suas histórias maravilhosas.


3. Decifra-me ou te devoro. Sonhei que o cachorro era meu aluno e me propunha uma partida de xadrez, se eu perdesse, levava uma mordida. Foi a partida de xadrez mais interessante que já joguei na minha vida.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

arte combinatória...

"Toda a literatura está contida na linguagem, ela é só permutação de um conjunto finito de elementos e de funções. Mas a literatura não é sempre subtendida pelo esforço de sair deste número finito? Não procura talvez dizer o que não sabe dizer, o que não pode dizer, o que não sabe, o que não se pode saber? Uma coisa não pode ser conhecida enquanto as palavras e os conceitos para dizê-la e pensá-la não foram usadas ainda naquela posição, não foram dispostas ainda naquela ordem, naquele sentido. A batalha da literatura é justamente um esforço para sair fora dos limites da linguagem; é da margem extrema do dizível que ela se projeta; é o chamado daquilo que está fora do vocabulário que move a literatura.

O narrador agrupa frases, imagens: a fábula estende-se sinuosamente de frase em frase, para aonde se dirige? Para o ponto no qual qualquer coisa ainda não dita, qualquer coisa só obscuramente pressentida, revela-se e nos prende e dilacera como a mordida de uma feiticeira antropófaga. Na floresta das fábulas, passa como um estremecimento de vento a vibração do mito

O mito é a parte escondida de cada história, a parte subterrânea, a zona ainda não explorada, porque ainda faltam as palavras para chegar até lá... O mito vive de silêncio mais do que de palavras. Um mito calado faz sentir sua presença na narrativa profana, nas palavras cotidianas, é um vazio de linguagem que aspira as palavras para um vórtice e dá à fábula uma forma.

Mas o que é um vazio de linguagem senão os rastros de um tabu, da proibição de falar alguma coisa, de pronunciar certos nomes, de uma interdição atual ou antiga? A literatura segue itinerários que margeiam e ultrapassam as barreiras das interdições, que permitem dizer aquilo que não podia ser dito, a um inventar que é sempre re-inventar de palavras e histórias que haviam sido removidas da memória coletiva e individual. Por este motivo, o mito age sobre a fábula como uma força repetitiva, obriga-a a voltar seus passos mesmo quando ela se perde por caminhos que parecem conduzi-la para regiões inteiramente diversas.

O inconsciente é o mar do indizível, do que foi expulso da linguagem, abandonado por causa de antigas proibições. O inconsciente fala – nos sonhos, nos lapsos, nas associações instantâneas – por meio de palavras emprestadas, símbolos roubados, contrabandos lingüisticos, enquanto a literatura não recupera estes territórios e os anexa à linguagem da vigília.

A linha de força da literatura moderna está na consciência de dar a palavra para tudo isto que no inconsciente social ou individual permaneceu não-dito: este é o desafio que ela renova continuamente".

Italo Calvino.

labirintos...

"Toda orientação pressupõe desorientação. Só quem experimentou o desaparecimento pode libertar-se dele. Mas estes jogos de orientação são, por sua vez, jogos de desorientação. Nisto está o seu fascínio e o seu risco. O labirinto é feito para aquele que nele entrar se perder e errar. Mas o labirinto constitui-se sim em um desafio para o visitante, para que nele reconstrua-se o plano e dissolva-se o seu poder. Se ele chegar a isto, terá destruído o labirinto, pois não existe labirinto para quem o atravessou".

Hans Magnus Enzenberger

domingo, 19 de setembro de 2010

esquerda direita...

Hoje eu também não o esperava. Outra vez invadiu meu quarto, fico impressionada com a capacidade dele de invadir, entrar sem pedir licença, e porque não fico com raiva? Ele atravessou a casa toda sem notar a bagunça, foi direto para o meu quarto e se deitou na minha cama, jovial, brincalhão, homem-menino. Quantas vezes já esteve ali? Perco a conta. Ainda continua? Foi embora e voltou? Não consigo precisar, sei apenas que ele trouxe seu gatinho amuleto, uma espécie de chaveiro que piscava os olhos quando eu o olhava. Na minha cama, esparramado, instalou seu programa de joguinhos no meu computador e criou um jogo de perseguição. Acho que gosto da sua invasão, mas me angustiam seus jogos de perseguição, ele me conforta, sentimentos complexos, não consigo explicar, uma confusão de desejos que só se resolvem quando me aproximo dele, me deito ao seu lado, espero suas caricias, ele continua a jogar, me ignora, depois me acaricia as pernas suavemente e me ensina um percurso dentro do jogo pra escapar. Não consigo escapar. É um homem que toma conta da minha cama com seu corpo imenso, um homem grande e bonito e intruso, que invade meus sentidos. E tem uma mania de menino. Sinto prazer em estar ao seu lado. Sinto que ele sempre esteve aqui, em mim. Mas não o conheço nem menos. Não sei seu nome, não sei quantos anos tem, é menino algumas vezes, e outras, é tão senhor de mim.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

bibliotecas...


achei este trecho por aí, em algum canto deste vasto mundo virtual...
lá estava escrito que era do Italo Calvino, talvez seja...
de qualquer modo, só veio se juntar ao meu pensamento de hoje: será que gostar muito de literatura é algo muito muito estranho?

"Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis."

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

poema terapia, para as horas de desencontro...

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros.

sem rancor...

E então hoje de manhã encontro as amigas da infância, estamos de volta a nossa cidadezinha do interior, útero, mãe feliz pelo nosso retorno, caminhamos pela avenida única, pra chegar à escola da nossa adolescência, e ele me encontra, de alguma forma, sempre esteve ali, e é então nosso quarto encontro. Eu já sabia que ele viria. Já o esperava. Ele me persegue pelos vãos da minha memória, torna-se eterna lembrança, se disfarça. E então se machuca. O pé, imagino. Mas talvez o braço. Ou quem sabe ainda a boca. Preciso levá-lo ao hospital. Entramos no carro, não sei dirigir, minha amiga nos guia tranqüila, conversamos, estamos alegres, apesar da vontade de querer chegar logo no hospital, socorrê-lo, livrá-lo desta angústia que sangra.

Quando descemos do carro, sou a professorinha e ele meu aluno-menino, um menino lindo, de cabelo escuro, olhos escuros, o nariz sangra, não estamos no hospital, mas na escola de banheiros sujos, os banheiros das escolas são tão sujos, meus pés estão descalços, me angustia percorrer aquele espaço de sujeira, mas o levo ao banheiro, de muitos chuveiros, de água gelada. Dou banho frio no menino, lavo seu nariz com o chuveirinho, não o toco, deixo só a água correr pelo seu corpinho. Sento-o num muro frio, tudo tão frio nesta manhã de reencontro com a escola, envolvo o menino com uma toalha quentinha, ele está limpo agora, pego-o nos braços, e levo-o comigo: ele me pertence...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

circular...

Quando ele voltou, pela segunda vez, eu já morava naquela casa estranha, cômodo único e estranho, um grande salão circular, com uma escada que dava para um corredor, também circular, em torno do salão, com janelas altas, de onde jorrava toda a luz...
De lá de cima avistei sua chegada, de novo entrou sem cerimônia, sentou-se à mesa e esperou que eu preparasse o jantar. Coloquei na mesa o cesto com as hortaliças e os tomates, dei por falta de alguns ingredientes, fiquei imaginando se eu teria queijo na geladeira, e enquanto me movia de um lado para o outro, buscando tudo pra preparar a salada, eis que quando noto, ele estava comendo já os tomates. Diante do meu olhar de reprovação, ficou meio sem jeito e deu aquele sorriso deslavado, com o qual eu já me familiarizara...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

divergentes...

Da primeira vez, ele chegou assim sem ser convidado, deitou-se na minha cama e dormiu um longo sono reconfortado. Nesta época nem pensava em esperá-lo, mas lá fiquei, ouvindo seu respiro frágil. Não pedi que ele se fosse, nem tampouco quis que ele ficasse. Só de manhãzinha, quando abriu os olhos, deu um sorriso deslavado e disse naquela desfaçatez toda que minha cama era muito mole, é que me dei conta que o melhor era querer que ele partisse. E então me veio aquela vontade imensa de compartilhar meu sono, que foi ruindo diante do som daquelas palavras irônicas. Num ímpeto me levantei e preparei o café e esperei que ele fosse embora logo em seguida. E me vi começando uma história que era de espera de retorno de algo que nunca tive. E assim tornei-me divergência de mim comigo mesma.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

estranha função da arte...

é aquela de levar o acaso às pessoas por acaso, porque no mundo tudo é acaso.
Tabucchi

o não dito...

esta noite você chegou e queria me dizer algo,
trouxe sua mulher também,
você a trouxe para me dizer que a deixava, como se ela nunca tivesse sido sua...
e a deixava assim sentada à minha mesa, toda despenteada, esperando que você preparasse o jantar...
eu não estava mais com raiva, tanto tempo passou, não existe mais raiva, nem em mim, nem em você, nem mesmo nela...
agora nos queríamos bem, éramos irmãs agora,
as duas abandonadas, sentadas à mesa, esperando o jantar, sem nenhuma raiva para enraivecer...
a figura dela agora me parecia cômica, uma comicidade ligeira, um pouco lúdica talvez.
era meu espelho.
e você sério queria me dizer algo,
de onde vem esta seriedade?
era aquilo que sempre esperei ouvir você dizer,
e não dizia, eu queria ouvir, esperava que você dissesse,
e continuava sem dizer, sugeria apenas...
seu corpo me dizia algo, seu silêncio me dizia algo, seu riso frouxo me dizia algo.
sua seriedade adquirida dizia algo.
você não dizia nada.
aos poucos eu me serenava e esperava.

agora não estava mais casado, estava deixando a mulher, ou era ela quem deixava você,
agora você podia ficar aqui comigo, estávamos desimpedidos, livres,
agora você poderia ficar, poderia dizer tudo o que quisesse.
me sentia alegre pela sua presença tão esperada
e esperava ouvir suas palavras, suas histórias, suas idas e vindas
palavras que você sempre poderia dizer, poderia ter dito,
não fosse o não dito.


terça-feira, 22 de junho de 2010

causalidade x sincronicidade

Diz Jung no prefácio ao I Ching:
" a causalidade enquanto uma verdade meramente estática não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros enquanto que para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência dos eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psiquicos) do observador ou observadores".

a casa da atriz...

"Às vezes uma solução parece plausível apenas deste modo: sonhando. Talvez porque a razão seja tímida, não consiga preencher os vazios entre as coisas, estabelecer a plenitude, que é uma forma de simplicidade, e prefira uma complicação cheia de buracos e, então, a vontade deixa a solução ao sonho".
Tabucchi.

desta vez eu era uma atriz,
e estava presa no quinto andar de um edifício todo fechado,
queria sair, nenhuma possibilidade, nenhuma janela, nenhuma passagem de ar, nenhuma tranca
eu, atriz, sufocando
eis que o elevador chega, abarrotado de gente, nenhum espaço pra dor, todo lotado, quanto afeto, meu deus,
e uma figura desfigurada, sem rosto, entra junto comigo,
no andar da solidão, ameaçada de gente,
e então me encontrou, e era o meu amor que eu não sabia e vamos pra casa, nossa casa
o elevador-trem nos deixa em casa
uma casa escura, uma porta iluminada, uma cama-penumbra, um banheiro concreto
na porta, a professora vestida de branco, vinha me contar do lado de fora, eu querendo entrar,
o amor já no banheiro, o banho já no ponto e a professora não que não me deixava passar,
respondo à entrevista, dou todas as notícias e digo que me espere, senhorita professora, pode esperar aí sentada na porta da penumbra
vou ao banho que interessa, a água fria, o desaconchego, os fios elétricos descascados,
menino desce daí que vai levar um choque
então o chuveiro esquenta, e a água vem quente, acolhente, escorre pelo corpo gelado do meu amor
ele me beija e toco sua pele, e toda a vida re-passando em três segundos, dois, um...
ah, quanto tempo, quanta saudade!
e o amor se consome, me consuma.
a alma suja lavada.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

o episódio do livro...

Versão dele: sem perceber ela passou por mim. Ela nunca percebia nada, apressada que era. Deixou cair um livro de contos do Fonseca. Peguei. Tinha uns contos sublinhados. “A santa de Schöneberg”. Dentro um recorte com a figura da Edith, de Schiele. Estávamos fazendo literatura brasileira juntos, pensei, e eu estava pensando em analisar as referências à Schiele neste conto. Quando nos encontramos, alguns minutos depois, no intervalo, ela se mostrou muito feliz por eu ter devolvido o livro e perguntou se eu não queria fazer o trabalho em grupo, já que estávamos pensando em fazer sobre o mesmo conto.

Versão dela: eu esqueci meu livro do Fonseca com anotações pro trabalho final na sala de literatura. Quando voltei pra buscar, dei de cara com aquele cretino lendo minhas notas. Essa gente da Letras nunca tem idéias próprias vive de citações alheias. Quando cheguei perto, tomei o livro das mãos dele dizendo, isso tem dono. Ele disse que eu era uma grossa e que ia me devolver na aula seguinte, estava buscando alguma identificação.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

desfechos...

Terceira possibilidade: (nenhuma recomendação).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, dos encontros e dos cafés, eles acharam toda a situação uma coincidência, uma mensagem do acaso, carregada de significados e sentidos, que só muito depois descobririam, eram arbitrários, e resolveram se conhecer um pouco mais. Ela, dizia, acreditava pouco no acaso, mas ele descobriria depois, que ela só saía de casa pensando que tudo, de repente, pode acontecer fora dos padrões de conduta do dia original. Ele nunca fora pragmático, embora fosse homem, deixava se conduzir às vezes por caminhos desconhecidos. Ela gostava de ler o horóscopo, embora quando alguém a visse lendo, disfarçava e comentava algo sobre o clima indecifrável da cidade. Ele ria da desfaçatez dela, achava encantador que as mulheres fossem mais místicas e incoerentes. E então apostaram na durabilidade do transitório. Existem finais que podem sim ser felizes, na contramão das circunstâncias, mentiras que podem permanecer e ser constantemente reinventadas. Mesmo na adversidade metropolitana, cosmopolita, mesmo com todos os desencontros, com todo o tráfego, enfim. Afinal a história ainda está por terminar, de modo que todas as escolhas ainda estão por se fazer.

desfechos...

Segunda possibilidade: (recomendável, porém, possui implicações sombrias, já que a vida funciona aqui como um supermercado, cada um paga no caixa pelo produto que escolhe, e depois joga fora a mercadoria que não traz mais benefícios).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, eles se sentiram infantis por brigarem por um trabalho de faculdade, resolveram fazer um seminário juntos, o professor gostou da idéia, marcou conversas depois das aulas, incentivou os alunos, já que gostava do tema, e eles se encontraram algumas vezes, descobriram outros interesses comuns, eram parecidos, leituras parecidas, histórias afins, e tomaram cafés, e se visitaram nos fins de semana, porque ela trabalhava muito, e surgiu algum afeto, insistiram numa aproximação, num encontro, numa história, que foi breve, muito breve, no semestre seguinte, já nem se olhavam, entediados de tanta conversa sobre literatura...

desfechos...

Primeira possibilidade: (altamente recomendável).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, eles disputaram por uma nota, e quando o professor devolveu os trabalhos, ficaram enciumados e nunca mais se falaram. Sempre se viram pelos corredores durante os anos de faculdade, mas fingiam que não se viam, voltavam os rostos pra outra direção, mas nos desejos intermitentes, por algumas vezes, sonharam um com o outro, e idealizaram um ao outro, e se sentiram sós, e começaram a escrever um ao outro, mas logo depois apagaram, desesperançosos e desesperançados. Na alma, só uma vaga tristeza que vinha da des-esperança...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

se um viajante...

"Escrever é sempre ocultar uma coisa de modo que depois seja descoberta"
escreveu Italo Calvino em Se um viajante numa noite de inverno
(que é um dos títulos que melhor traduz, na minha opinião, o que é um leitor)
Escrever, para mim, é minha única salvação.
Sei lá se esta frase não é da Clarice, Bem que me parece.
Sei lá também se existe algum caminho entre a descoberta e a salvação.
Ou quem sabe se não é a própria escrita o caminho do meio... vai saber...

terça-feira, 4 de maio de 2010

desvãos

desvãos, assim no plural,
sonhei com essa palavra hoje,
sonhei que estava morrendo enquanto dormia e que meu coração batia tão forte que ia estourar, e minha mão tremia, e eu acordava e dizia, não, não é hora ainda de partir, entrava em vãos, desvãos...
uma menina muito bonita vinha ao meu encontro, mas não sei quem era ela, talvez alguém que conheci um dia,
e uma corrente de vento me puxava pra cima, me desintegrava aos poucos e ela permanecia lá embaixo e se vestia de preto, junto com outra, e as duas tinham cabelos castanhos longos, e eu subia, mas não queria me desintegrar, e uma areia escorria de mim, ficava uma fumaça escura e acordei, o coração batia forte...
era uma vertigem dolorosa.

domingo, 2 de maio de 2010

o rancor e as nuvens...

Posso começar este post dizendo que tenho sim um amigo "eremita". Me parece que ele sai pouco de casa, em geral fica lá cercado de livros, lê muita ficção, usa um moleton folgado e uma blusa de lã preta, deixou a barba crescer e agora fuma cachimbo. Nos seus quase trinta anos, às vezes me parece um velhinho.
Sempre que o visito penso que ele é uma espécie de oráculo, pois ele sempre me dá um enigma pra levar pra casa e pensar. Ontem me falou de duas palavras quase contraditórias: do rancor e das nuvens.
Levei a noite toda pensando na relação entre elas. Ainda não sei se decifrei...
Descobri que o rancor é uma mágoa profunda, que permanece, a gente perde muito tempo da vida pensando na dor que sofremos e deixamos de viver coisas melhores.
Talvez porque as nuvens passem, sejam assim o oposto do rancor...
nuvem-esquecimento,
nuvem-alívio...
Acho que ainda não sei, mas prefiro as nuvens...

Nesse tempo sem medida, de coisas que permanecem e outras que se vão, meu amigo eremita me disse que sempre tentou depender pouco das pessoas, mas isso é bastante difícil. Disso entendi também que ele julga pouco as atitudes e os sentimentos de casa um. É difícil ouvir dele um qualificativo pra qualquer pessoa que seja. Enquanto nós, meros mortais, nos desfazemos em julgamentos... acho que passamos um bom tempo pensando sobre nossas próprias razões e esquecemos de tentar compreender a razão dos outros...

Enfim, acho que as duas palavras do meu amigo se multiplicaram e me deram mais duas pra tentar decifrar e aprender para os próximos 10 anos: compreender e perdoar.

"De que coisa se formam os nossos poemas? onde?
Qual sonho envenenado responde a eles,
se o poeta é um ressentido, e o resto são nuvens?"
Antonio Tabucchi.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

dos dragões não conhecem o paraíso...

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Caio F.

domingo, 18 de abril de 2010

esquecer lembrar esquecer

O esquecimento é condição inalienável para se viver. Pensar em alguém é trazer este alguém para o âmbito de um discurso, mas o pensamento é sempre vazio: o quanto se pensa é a exata proporção do quanto se esquece.

de algum canto dos Fragmentos de um discurso amoroso, do Barthes.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

dois mandamentos literários...

Não me permita Deus julgar ou falar aquilo que não sei e que não entendo.
Confio no tempo, que cura tudo.

dos 99 conselhos de escrita de Tchékhov.

domingo, 21 de março de 2010

do livro do desassossego...

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem
importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."
Bernados Soares.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

outro sonho...

desta vez você vinha vestido como um guerreiro de um filme de Zhang Yimou, com lenços verdes esvoaçantes, uma longa trança e ficava voando em torno da sala em que eu estava dando aula...
cantava uma canção, acho que era aquela do trem que passou, tudo já passou...
eu perdia minha concentração, não conseguia terminar a aula, então saía e ficava olhando você voar
de repente, conseguia pegar sua trança e a puxava com força, você caía no chão e eu a cortava, e nesse instante você se transformava num pequeno pássaro verde...
então eu te colocava na gaiola e você nunca mais fugia,
ficava ali me olhando com aqueles olhos grandes e vazios,
e nunca mais cantava....

"o tempo, senhor dos enganos, apaga os momentos sofridos e aqui te traz vez por outra, a passar umas horas comigo..."
enquanto o amor dorme....

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

quem contar um sonho...

sonhei que estava dando aula para a primeira série de novo, e estava usando meu colar de ímã, as crianças adoraram este colar, então pegavam o colar e saíam correndo, eu ficava procurando, procurando, mas não achava, então entrava no refeitorio e ficava sentada num banco meio desolada, vinha uma japonesinha da segunda e me dizia pra não ficar triste porque você tinha achado meu colar e então ela me entregava, e eu perguntava onde você estava e ela me dizia que você estava lá fora, eu corria pra te alcançar, mas por causa do intervalo das crianças, quando chegava lá fora, você entrava no carro das suas amigas e eu te chamava e você nem ouvia...
então, voltava pra casa, desolada de novo, e quando abria a porta do meu quarto, você estava dormindo na minha cama, encolhido, abraçado num dos meus livros...
"por que as coisas são assim? estamos perto um do outro, mas você está longe de mim,
é tão fácil, mas é impossível dizer"...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Bem vindo 2010!!

só quero começar o ano zen!!