A vida escapa, você a atravessa e ela escapa.
A morte escapa, te agarra e foge.
As cidades escapam, você as atravessa e elas escapam.
E você também escapa, não pode narrar-se, porque também você escapa.
A mão, ao invés, corre sobre o papel, guia a caneta ou o pincel, a vida é fugidia, mas lhes resta a sua imagem.
A música é tocada, as notas desaparecem no ar. Mas resta a partitura. Está aqui, diante de vocês. Vocês a veem? Está traçada com linhas precisas, legíveis, decifráveis: aguarda ser interpretada.
Toquem-na. Cada um que a toque com os seus instrumentos.
Vocês tem um violoncelo que trazem atrás de si como uma querida esposa?
Tem uma flauta que seja o seu companheiro de escola?
Ou uma gaita de fole para colocar sobre as costas, como se carregasse uma criança?
Toquem esta partitura do jeito que quiserem, interpretem a música do jeito que gostam.
Não tem nenhum instrumento? Tentem assobiar. Não sabem assobiar?
Tentem cantarolar pra vocês mesmos, saiam na grande praça desta cidade levando nos olhos a partitura que viram, transformem estas imagens em um som que seja só de vocês, interpretem-no com a sua música, voltando para casa, mesmo que estejam sem voz, façam-no, pelos intímos dons que não elenco, pela música, misteriosa forma do tempo.
O dia entra na noite. Não foi embora.
De Racconto dell'uomo di carta, de Antonio Tabucchi.
é só um fragmento, o último, de um dos 'contos" que mais gostei até agora, e que traduzo, assim de brincadeira, porque este trecho me tocou profundamente.
O livro se chama Racconti con figure, e quem me mandou lá de longe foi um outro Antonio, que não está aqui agora, mas que sempre penso com carinho.
Um dos dons que eu elencaria, se preciso fosse, seria a poesia que permanece, onde quer que a gente vá, e que nos alcança, por mais que a gente também escape.
