domingo, 25 de outubro de 2009

só mais um filme...

duas entre dez canções que perpassam minha mente agora:

Se um dia a gente se encontrar
e eu confessar que vi tantas vezes um filme
pra desvendar os olhos teus...
e se a gente se falar,
contar as coisas que viveu,
o que esperamos do amanhã
será que pode acontecer?
Milton Nascimento.

só pra matar um pouco a saudade.
querendo que você não ouça
meu grito, minha dor, meu alento.

só mais um lamento entre tantos já feito.
Céu.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

on the way home

um mês decididamente não é um ano...
ou talvez um ano não seja só um mês...
a duração do tempo, todo mundo já sabe, é psicológica
tem dias que não vão acabar nunca e outros que quando a gente viu, já passou.

o meu aqui e agora as vezes me parece uma prisão,
mas a prisão, diz algum hexagrama do I Ching, deve ser um lugar em que as pessoas sejam recolhidas só temporariamente, não deve se converter em moradia.

não sei bem onde é minha morada, algum lugar dever ser, só gostaria que não fosse uma prisão.

e também não quero um posto de passagem... um lugar só pra dormir uma noite, mesmo que, de algum modo, sejamos todos um pouco viajantes, procurando o caminho de volta pra casa e precisando de um abrigo.

e por isso talvez precisamos que o tempo passe, porque, passando, ele nos diz quando é hora de partir, quando é hora de ficar e quando, de voltar pra casa...

sábado, 3 de outubro de 2009

sábado, spleen e saudades...

pedras rolantes não criam musgo
a variedade não é uma inconsistência

o acaso me mete em crise

acho que sou confusa por dentro porque por fora sou a pessoa mais normal do mundo
acho que sou confuso por fora porque por dentro sou a pessoa mais normal do mundo

notívago, é assim que se escreve?
você gosta de caminhar pelas ruas da cidade?
a complexidade exige passos pela cidade
caminhar na multidão, como fazia Baudelaire
notívago, é assim que se é.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

na rua, no ônibus, nas redes sociais...

vida de cidade grande:
parece que o mundo todo agora é uma cidade grande...
ninguém se conhece mais, ningém sabe nada de ninguém...
será?


basta pegar um ônibus de manhã: que mal humor que nada, todo mundo ali, comentando tudo com todo mundo, fulano viu sicrano, beltrano falou com sei lá quem...
é uma maravilha! quem tenta dormir o restinho do sono passa mal, nada de silêncio, todo mundo a mil, nem importa se são apenas 7 horas da manhã...
(como alguém consegue ter assunto a esta hora, penso, mal humor habitual!!!)

conhecer pessoas agora tem outro roteiro em sampa: no ônibus, no trem, no metrô.
na balada, só pra dançar mesmo, beber, estas coisas, amigos mesmo a gente faz e (re)encontra no ônibus:
o vizinho de bairro que vc nunca visita, vc encontra ali, conversa, reclama, dá risada, precisa só de bom humor.
se tiver preisando de uma sessão de terapia, experimente o companheiro de banco, ele tem mil conselhos e opiniões pra dar e melhor, de graça!!
ás vezes a gente também encontra o vizinho chato que aborrece, mas no ônibus ele é sempre mais legal: afinal o percurso é longo, o trânsito não acaba nunca mesmo...

nas ruas de sampa então, é impressionante: sabe aquele amigo de infância que a gente não via há tempos? então, ele está logo ali, na avenida mais movimentada de São Paulo, como a vida dá voltas, e como São Paulo é pequena, cheia de acasos, coincidências...

depois tem a modernidade das redes sociais: gente que você nunca viu ou talvez nunca vá ver, mas tem toda uma vida em comum, mesmos gostos, experiências em comum, mesmo que a quilômetros de distância...

acho que alguns dias fico chateada porque é dificil encontrar alguém pra tomar um café e bater um bom papo, mas em geral esta experiência da conteporaneidade, da "nova" amizade, é algo que me fascina...

um a zero pro acaso!! é só arriscar... acho eu!!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

dois ou três filmes...

ontem fui ver UP com a Manu.
rimos muito e encontrei muita poesia nos balões coloridos subindo por cima das montanhas.
e no velhinho que pensava ter chegado ao fim da estrada.

depois fui ver Amantes sozinha e senti vertigens.
me lembrei de A fronteira da Alvorada, quando o Garrel faz justamente a opção pelo inverso.
ter uma vida é melhor que não ter nenhuma? bela pergunta pra um começo de semana.

lembro de A história sem fim, embora hoje não seja um belo dia para morrer.
acho que, como o Garfield, odeio segunda-feira, principalmente estas de chuva.

de repente me dei conta de que ainda não cheguei ao fim da minha estrada... como o velhinho da animação.
tem dias que a gente acredita que chegou realmente ao fim
pra isso basta fechar os olhos e depois abri-los uma outra vez
pra percebemos que não, não chegamos ainda, que tudo continua aqui, inclusive a gente...
porque os olhos ainda se abriram mais uma vez...
ou então colocar os pés descalços no chão
pra passar a sensação de irrealidade...
conselhos de amigos.

UP me fez pensar se é possível fazer algo para ajudar a alguém que não ajuda a si mesmo...
talvez alguém que tenha fé, como a Rose, se perguntasse:
é possível ajudar alguém que não obedece a vontade dos céus?

costumo responder a estas perguntas de segunda-feira atribuindo sentidos pras coisas que aparentemente não tem nenhum,
acho que aprendi isso com o I Ching ou com os amigos.

by Thaís.

Hoje foi um dia extremamente chuvoso.
Como se o céu sentisse raiva.
como se despejasse todo o seu sofrimento em lagrimas grossas choro gritado, esbravejado, com seus trovões e relâmpagos
minha alma atormentada fedia a cachorro molhado.
fui trabalhar para ver se a deixava mais limpa.
como as nuvens, nebulosa. pensamentos sombrios iam e vinham.
e eis que uma certa paz, como a estiagem no dia anuncia, retorna ao corpo imóvel.
e ele caminha em busca de descanso, de um lugar pra apoiar sua cabeça.
Desperto.
Pensamentos cuspidos sobre um passado artificial pululam como uma ferida aberta.
esquecida.
o dedo afunda e todo o pûs sai com a dor provocada.
como remediar o problema esquecido, já passado? aberto a resvalões trôpegos e desvisados de um humor impulsivo, cansado e arrogante como a própria dor?

a ferida aberta lateja..

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

lendorelendolendorelendo...

Tarde aprendi bom mesmo é dar a alma como lavada. Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Que significa isso? Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Discursos detonam. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir. No entanto também escrevi coisas assim, para pessoas que nem sei mais quem são, de uma doçura venenosa de tão funda.
Ana Crsitina César.
(poema que o ctrl+c transformou em prosa!)

sábado, 29 de agosto de 2009

by Manu


a palavra equívoco...

preciso me convencer todos os dias de que as palavras são um mundo a parte, um mundo de equivocos, talvez, e não expressam minha vida...
são, talvez, um modo que uso para representá-la,
a vida, na verdade, é muito maior,
a vida de qualquer ser humano é muito maior,
as palavras são muitas, mas não apreendem tudo,
as palavras são um meio e não um fim,
são uma jaula, nos fixam, nos determinam, nos perturbarm...

tenho que me convencer todos os dias que devo fazer tudo ao contrário do que leio ou escrevo, porque as palavras não podem me encaixar, me aprisionar, me fazer supor que são a derradeira e única verdade possível...

preciso acreditar que escrever é ser um pouco como o poeta fingidor do Pessoa, aliás o único modo de escrever é este, fingindo a dor que de verdade sentimos,
seria ilusão supor que qualquer palavra escrita traga em si a completude do que é uma vida...

tenho que manifestar todos os dias o meu profundo desalento quando uma palavra decide se soprepor a todo e qualquer gesto, a todo e qualquer sentimento, a toda e qualquer vontade...

preciso repetir cem mil vezes que nehuma palavra há de decidir por mim o meu caminho, determinar a minha escolha, gravar sua força em mim e me direcionar conforme os seus caprichos...

preciso acreditar que no labirinto que elas me constroem todos os momentos, há sempre um ponto de fuga, que me leva pra fora deste mundo enclausurado,
que existem túneis que me levam pra fora deste universo sombrio e compacto que é a palavra...

e quando o silêncio não puder me falar por si mesmo,
ou eu não puder restar em silêncio para então ouvi-lo,
que eu aprenda a usar uma única palavra, aquela que me salva de mim,
talvez a palavra perfeita não exista e por isso nenhuma outra deve ser encunciada como perfeição, mas que exista uma palavra que nos salve do abismo,
porque se dizer uma palavra é fazer acontecer,
e se existe algo que não deva acontecer, que não seja, portanto, dito.

domingo, 23 de agosto de 2009

o vendedor de flores, a filha do vento e o mundo desencantado...

revi Closer hoje e me lembrei porque tinha gostado tanto...
por causa das cenas inicial e final com a Natalie Portman
tudo começa e termina do mesmo jeito?
não, entre o inicío e o fim existe uma mudança de perspectiva que determina todo o caráter da personagem, toda a aprendizagem, inclusive o jeito dela caminhar é já diferente, linda nas duas cenas, filha do vento na cena final...
o mundo é desencanto nos dois relacionamentos: naquele que não se consolida tanto quanto naquele que se consolida... a cena de Julia Roberts aconchegada nos braços do marido lendo é poética, embora o casal seja menos consistente...
quando o personagem de Jude Law reencontra o de Natalie Portman parece que para ele ainda nada mudou e ela não pode aceitá-lo... é aí que se rompe o ciclo que a levará de volta pra casa...
a aprendizagem dos prazeres passa pela aprendizagem da dor...
por isso gosto tanto da Natalie caminhando...
me lembra que o tempo, embora pareça uma linha reta, é cíclico...
que o tempo do desencontro é equivalente ao do encontro...
que a roda do tempo não pára de girar...

também me lembrei de São Paulo, dos meus encontros e desencontros...
continuo buscando a poesia da metrópole que me esmaga a cada momento...
e procurando os vendedores de flores nas esquinas,
sei que existem muitos, basta eu olhar com atenção.
espero ter serenidade no meu olhar.

por fim a última coisa de que gosto é a canção do Damien Rice, principalmente pela ironia do verso final , depois de confessar todo o amor, ele pensa no "até que dure', até que venha outro, no próximo encontro, daí a ciranda volta pro Bauman, sobre quem não vou escrever de novo...

And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off you...

And so it's
The colder water
The blower's daughter...
I can't take my mind off you...

Until I find somebody new.

sábado, 22 de agosto de 2009

um vendedor de flores...

É isso ai
Há quem acredita em milagres
Há quem cometa maldade
Há quem não saiba dizer a verdade

É isso ai
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
(Ana Carolina e Seu Jorge)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

paulistanas...

gosto muito da cultura paulistana, que é uma mistura deste país inteiro, sou adepta dos urbanóides de plantão, gosto da velocidade, do caos, das máquinas de espresso em todos os cafés, gosto dos cinemas alternativos, do público cult, da gente que sai falando "bobeira filosófica " depois das mostras, gosto de tudo isso, não tem jeito, por isso aindo vivo aqui, cada dia mais e cada dia menos...
hoje saindo do cinesesc, da mostra de curtas com um casal de amigos, falando dos curtas, claro, chegamos a algumas conclusões inevitáveis: uma delas é que é chato ir ao cinema e não ter com quem falar do filme, embora tenha muita gente solitária nos cinemas, sobretudo no circuito alternativo...

sobre a mostra: vimos uns curtas brasileiros e tecemos opiniões sobre três, dois deles sobre paulistanos, jovens e talentosos: Thiago Mendonça, que falou sobre a boca do lixo, metacinema, que pra mim valeu a sessão, e Caetano Gotardo, que falou sobre a impossibilidade da comunicação em sampa, tema em voga, mas que o fez por dentro de São Paulo mesmo, ruas prédios, de uma maneira poética, principalmente quando falou sobre o agora, o que a gente gosta agora de uma forma, e que não sabe se vai gostar amanhã, mas sabemos que este "agora" vai se inscrever na nossa história... o curta se chama O menino japonês...

sobre paulistanos que vão ao cinema: o terceiro filme é com atores "globais" e o diretor não é estreante, escolheu falar sobre a literatura de João do Rio, até que tinha achado interessante, até um paulistano que saía sozinho da sala se "meter na conversa", de um modo muito bem vindo, deixo muito bem dito, e dizer que sentiu vergonha deste aí: paramos meio abismados: a gente não gostou muito (eu até que gostei pelo resgate da literatura que um cara desconhecido do começo do século!), vergonha porque o cara já fez outros filmes e fez uma coisa super anacrônica, sem novidades, todo mundo já fez... é o velho e o novo convivendo... gostei da opinião do paulistano, que escreve sobre cinema em algum canto da net, ele virou a esquina e não tive tempo de perguntar...

acho que paulistano em geral é tímido, assombrado, de modo que abordam, vão embora, não dão endereço e nem telefone, na maioria das vezes não pedem desculpa, nem licença, por favor, obrigado... mas não me importo com estas formalidades... existe uma formalidade no olhar que diz muita coisa... também tem um trejeito simpático e distante... não sei bem, só paulistano "de convivência" mesmo pra entender.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

nenhuma historia.

o bater das asas de uma borboleta em Nova York pode provocar um furacão em Pequim?

a gente escolhe às vezes é sem querer...

por querer a gente olha e vê o que não devia...

nenhuma história.

só o silêncio nutriz.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sobre a escrita e a não escrita...

sempre que leio algo que realmente mexe comigo, entro numa espécie de transe, tudo acontece ao meu redor, e nada me alcança, só a escrita... o texto... paranóia de leitor...
posso dizer que desde que comecei a ler Enrique Vila-Matas, sexta passada, estou em transe.

o texto é sobre escritores do Não, escritores que resolveram não escrever... ou então tematizaram a não escirta... se chama Bartleby e companhia.

o primeiro escritor do Não é Robert Walser a quem o narrador atribui a frase: escrever que não se pode escrever também é escrever.

uma outra frase, não atribuída a nenhum escritor mas que é título de um livro de Tabucchi: a escrita é um pequeno equívoco sem importância.
sempre pensei nos equívocos do Tabucchi como sendo os temas, as circunstancias narradas, e eis que agora, me vem esta outra ideia, a de que escrever é que é um equivoco.

de quebra encontrei um escrito do Tabucchi sobre a escrita em Vila-Matas: "Perseguir con pasión vidas ajenas que son la nuestra, interiorizar a los muertos y hacerlos revivir: la escritura revela sus extraños y ocultos poderes, se convierte en práctica mágica. Escribir, ¿qué significa escribir?

¿Cuántas son las razones del silencio? Tantas como las de la vida. O de la muerte. O del suicidio. Porque el silencio es también un suicidio, razona el silencioso protagonista que escribe el diario escrito por Vila-Matas. Pero al suicidio le hace falta una cantidad de valor más reducida: basta una vez. Para el silencio el valor es obstinado, es necesario reunir valor para callar cada mañana, durante todos los días que nos quedan por vivir. El silencio es un suicidio renovado día a día."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

e pra toda dor o seu prelúdio...

Prelúdio é a palavra que define o ato preliminar, o primeiro passo pra alguma coisa.
Na música é o que se canta ou se toca pra experimentar a voz ou um instrumento, a composição que serve como introdução pra outra mais consistente, ou ainda a peça musical escrita ou improvisada, tocada antes da execução de uma obra...

achei tão bonita esta explicação que postei aqui.
também me fez pensar que minha vida é feita de prelúdios...
e que gosto deles, talvez a obra mais consistente seja feita um dia...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

a permanência da transitoriedade e a durabilidade do transitório...

diz o senhor Bauman:

a líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de aço.
nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante.
essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais ou temporais.
eles não tem necessidade ou uso que possam ser justificados pela líquida racionalidade moderna dos consumidores.
vínculos e liames tornam "impuras" as relações humanas - como o fariam com qualquer ato de consumo que presuma a satisfação instantânea e, de modo semelhante, a instantânea obsolescência do objeto consumido.

diz algúem que entendeu o senhor B.:

O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes.

digo eu, buscando um contraponto entre o peso e a leveza:

não acredito que a culpa deva ser predominante nas relações, mas a ausência de fardos, torna o ser humano insustentavelmente leve, faz com que ele voe e se distancie da terra.
por outro lado, é o despudor que faz com que ele avance, sabe-se lá pra onde, pro mistério, pro descaminho, pro progresso (da própria desilusão?), pro novo, pro belo...
ainda: questão de escolha.
não é de graça, mas cada um paga no caixa o amor que escolheu.
(esta última é do Ligabue).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

labirintos sonoros...

nos meus labirintos sonoros, ouço uma canção que fala de uma mulher,
como a imagino? é uma espécie de psicótica, tem um distúrbio de personalidade,
pensa constantemente na morte, e às vezes tem surtos de felicidade...
nasceu em Praga, mora em qualquer lugar do mundo, se chama ELLE, que é o nome da canção de um grupo de nu-jazz de Praga.... Alvik...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

labirinto de sonhos...

Boderline:
sonhei esta noite que você era meu vizinho,
só que era ainda um menino, parecia meu irmão, mas sabia que era você,
que brincava com a sua irmã e com os cachorros, que eram dóceis e bonitos,
eu tentava atravessar o seu muro que era alto, mas não conseguia e desistia
e então me escondia e te olhava lá de baixo, sua casa era grande e lá em cima,
da minha dava pra ver o seu quintal que era um morro e perto do muro tinha uma espécie de caída pra água da chuva ...
me lembro de ter vivido qualquer coisa assim, acho que era um sonho misturado com lembranças... mas não sei quem é você... no entanto, parece que eu te conheci a vida toda...

Analista:
não costumo interfirir no andamento das coisas a não ser casualmente
e é sempre casualmente que espero encontrar de novo pessoas que se foram
e provavelmente elas vão estar no mesmo lugar em que sempre estiveram
e vou convidá-las pra tomar um café, como sempre faço...

Boderline:
acho que o passado não passa nunca,
mas vem constantemente te despertar nos sonhos,
e o futuro não vai chegar nunca, porque o tempo é ciclíco, a vida é circular,
um dia ela leva e outro dia ela traz, como diz a canção, buscando sua expressão mais simples,
mas não costumamos ficar esperando ela trazer de volta o que levou,
porque temos a impressão que ela está se acabando a cada dia...
até porque pra tudo ser o que era teria que nunca ter deixado de ser e continuar sendo exatamente igual, e isso é impossivel...
porque eu já mudei... e tudo já mudou... e muda sempre e não muda nada... ou talvez pareça que tudo que vivemos é sempre um pouco do mesmo...

shakespereanas...

do Hamlet:

Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer, dormir...
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá ventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

tradução de Milor Fernandes.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

a gente esquece pra ter passado... e mente pra ter futuro...

com alguma variação, o título é do Mia Couto...
e o que vem depois, já escrevi em algum canto, então é uma reescritura...
sobre a necessidade que temos de não ser esquecidos e ser importante pra alguém...
pois é, todos temos um pouco disso, e quando escrevo é só mais uma tentativa de não sucumbir à morte, que virà...
ler, por sua vez, é sempre uma forma de ser solidária com um outro alguém que escreve e que também quer ser lembrado,
pra mim é uma comunhão com o mundo, é uma forma de encostar a cabeça de um outro no meu ombro, como acontece comigo quando leio, sinto que por um tempo breve, o da leitura, posso me tranquilizar, porque encosto a cabeça no ombro de um outro alguém e me deixo estar...
a leitura pra mim é um lugar de repouso, às vezes dolorido e catártico, às vezes tranquilizador, porque sinto que alguém sente algo parecido e nesse minuto parece que a vida não vai passar, que não vou morrer ou ser esquecida...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

ainda o arame farpado...

um amigo me disse este fim de semama que o segredo da vida não é escolher entre o bom e o melhor, porque isso é bastante fácil, mas sim entre o ruim e o péssimo... isso sim seria uma árdua tarefa...

fiquei pensando, na verdade, nas agulhas que ele teve que enfiar embaixo das unhas pra pensar desta forma... o sofrimento, diz a sabedoria popular, ensina a viver, ou pelo menos deveria ensinar a escolher...

I ching de hoje: 15 A Modéstia
o símbolo é o do receptivo feminino colocado em cima e em baixo a montanha, o progresso interrompido...
A modéstia cria o sucesso. O homem superior conduz as coisas à conclusão.

aqui um problema de compreensão e interpretação: o homem superior termina as coisas que começa, seja o que for, ou faz com que as coisas terminem, conduzindo-as ao seu final...
pra mim não é obvio, ou então estou criando pra mim mesma problemas à toa... não sei...

nada mal, por enquanto, dois a zero para o pragmatismo!! va lá...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

do arame farpado...

O Tabucchi tem um conto sobre o arame farpado, na verdade sobre a dificuldade se liberar do arame farpado
reli recentemente, lá ele diz que alguns cientistas tentaram estabelecer o ponto exato no cérebro onde se encontra o ponto mais central e íntimo da consciencia, ou seja, a alma, então tece a sua "teoria" de que a alma não está no cérebro, mas no sangue, na verdade em um único glóbulo, entre milhões de outros glóbulos, misturado, e é nos impossível, claro, precisar em qual...

fiquei pensando não no glóbulo que contém a minha alma, não teria nenhum sentido,
pensei no arame farpado, até porque ele não faz nenhuma referência ao arame farpado além daquela do título.

também pensei no Cem anos de solidão, do Garcia Marquez, dos ciclos intermináveis, que se repetem por todo o sempre, e lembrei de um amigo que sempre me disse que temos que romper o ciclo, sair pela tangente, para começar um novo ciclo? perguntei, incrédula como sempre...

o Kundera começa seu livro sobre a insustentável leveza do ser com a ideia do eterno etorno, do peso que este retorno porta em si, e do quando a nossa experiência moderna linha reta do tempo é insustentável, e propõe uma pergunta impossível de se responder (ao menos pra mim!): o que escolher, a leveza ou o peso?

tempos atrás, quando li o livro pela primeira vez, com 19 anos, acho que optei pela leveza, o leve é positivo, claro, passados exatos dez anos, depois de experiências insustentáveis, do retorno de saturno, escolhi o peso, e agora, em crise com este peso escolhido, desejado, talvez deva esperar esgotar os dez anos pra escolher de novo: mas o fato é que não me encontro nem como leveza e nem mesmo como peso.

duas amigas minhas escolheram o peso, e resolveram questões que não resolvi (será que vou resolver um dia?), fiquei tendendo a escolher o peso, mas ainda preciso pensar, porque gosto do etéreo.

quanto ao arame farpado, gosto dos versos do Cordel do fogo encantado que dizem assim:

vou saquear a sua feira
rasgar a capa do seu peito
cercar de arame a sa boca
botar garrancho no seu pé.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

respostam que me chegam assim transitoriamente...

gosto de uma canção que começa assim, mas não sei quem canta, não é dificil descobrir, mas agora não quero saber muito, prefiro que ela continue começando assim:

oh, meu amor não fique triste, saudade existe pra quem sabe ter...

que fim criei em minha mente?

"o fim não precisa ser inventado - ele é o inexorável. Ele virá, do mesmo modo como vem a noite, e findo o seu devido tempo, o dia.Vamos nos confundindo nestes ciclos, acreditando ilusoriamente numa arbitrariedade que não é tão livre assim. Talvez seja nossa vaidade achar que podemos inventar a noite, ludibriar o dia, mas eles virão. Assim, cessa o silêncio, necessário à noite. Já as palavras, talvez essas não se assemelhem ao cantigo dos pássaros, mas sinalizam um novo começo, para aqueles que estão dispostos a começar".

quero sim deixar de sonhar com fim e acreditar em começos.

I ching de hoje:
55 Feng A Abundância.
Não fique triste. Seja como o sol ao meio-dia.

Nove na terceira posição significa: O arbusto é tão denso que se vêem pequenas estrelas ao meio-dia. Ele quebra seu braço direito. Nenhuma culpa.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

literatura e matemática

lendo Gabriele Romagnoli ( http://www.naviinbottiglia.it/ ), escritor italiano bastante contemporâneo, descobri um texto muito interessante sobre matemáticos... sempre gosto de textos literários que me despertam pra algum campo do saber diverso daquele que estou habituada...

gosto dos textos curtos do Romagnoli porque na sua síntese apontam sempre pra um final desconcertante ou inesperado, ou as vezes tão previsível que se tornam incongruentes....

gostei do texto que traduzi abaixo porque tenho dois amigos matemáticos, que gosto muito e que aliás pouco falam sobre a sua área, falam muito mais sobre literatura pra dizer a verdade...
dedico então esta conto a eles não só porque eles são ótimos amigos, mas porque são ótimas pessoas, leitores melhores e talvez um dia grandes matemáticos...

quando o Leo ler o texto, provavelmente vai dizer dizer que o Romagnoli não entende nada de matemática, que a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180º, mas nem é preciso dizer que, para o Leo não é preciso nunca lembrar que uma pessoa inteligente e interessante, nem sempre é um matemático... ele mesmo é quem me diz.



Euclides e seus alunos


Esta é a história de uma obsessão, de duas retas paralelas que não se encontram nunca, dos dez (supostos) modos de demonstrá-los, mas sobretudo dos dez anos e das quinze horas por dia que um homem dedicou para conseguir esta demonstração.Talvez digam que conseguindo isso, ele terá um lugar na história e terá salvo, afirma ele, o edifício da geometria euclidiana, a base da filosofia kantiana e o princípio de uma verdade que, inexorável como uma reta, leva a Deus. Talvez digam que os seus estudos não provam nada, e então ele queimará dez mil cadernos e recomeçará do inicio, porque, disso é certo, sem uma geometria lógica o universo é caos, o céu é vazio e a existência não tem nenhum sentido.
O ponto a partir do qual tudo começa está fixado em torno dos 300 a.C., época em que viveu o matemático Euclides. A sua geometria se funda sobre alguns postulados; asserções que, diferentes dos teoremas, não tem necessidade de serem demonstradas. Nos bancos escolares, a enunciação de um postulado suscita o mal-estar dos espíritos livres que, mesmo observando sua evidência, intuem um parentesco com os dogmas que existem na política, no direito e na fé. O quinto postulado de Euclides afirma:

Em um plano, por um ponto externo a uma reta,
é possível traçar uma e somente uma paralela à reta dada,
e as duas retas não se encontrarão jamais.

A imagem que evoca é aquela dos trilhos que vão em direção a uma estação que não existe. Nada nos diz tanto, usando uma linguagem diversa, de inevitabilidade e de eternidade, como as “retas paralelas destinadas a nunca se encontrarem”.
O plano é o nosso espaço de existência, o ponto externo à reta, é tudo aquilo que não somos e não seremos no infinito, porque a paralela, a outra possibilidade, corre sempre se mantendo e nos mantendo à devida distância.
É necessário demonstrá-lo? Muitos tentaram em vão: Ptolomeu e o persa El Tussi, o jesuíta Saccheri (que tentou por absurdo, abrindo as portas a geometrias paralelas) e John Wallis (por semelhança). Carl Friedrich Gauss o declarou não demonstrável. Perdidos em um jogo de caixas chinesas, Beltrami e Houel pretendiam demonstrar a sua não demonstrabilidade. Nenhum conseguiu demonstrar nada. Enquanto isso, Lobachewsky e Riemann criavam a geometria hiperbólica e a elíptica, alternativa à euclidiana, e o pensamento kantiano perdia o próprio fundamento de verdade.
Depois, em 1939, em uma aldeia libanesa chamada Ehmej, não distante de Byblos, nascia Rachid Matta, auto proclamado herdeiro da tradição de Tales e Pitágoras. Seu pai era um proprietário de terras e tinha a característica de adivinhar as medidas exatas de um terreno agrícola com um único olhar. Aos sete anos, Rachid ouvia falar pela primeira vez em Euclides. Aos nove, no quinto postulado. Aos vinte e um se graduava em matemática. Tirava também a carta de motorista, mas deixaria de guiar no primeiro incidente, provocado pelo fato de que, na direção, se distraía calculando os ângulos das curvas e extraindo delas problemas posteriores. Se transferia a Paris, onde conseguiria duas especializações: em engenharia e em estatística. Projetava construções e ensinava números. Na sua cabeça não tinha e não tem quase mais nada além disso. Me diria, por fim, que “Deus brinca geometricamente” e que “a Trindade funciona”.
O lugar em que nos encontramos é a armaria da irmã, em Jouneh, no mar, a poucos quilômetros de Beirute. A mulher May o leva. Tem um filho que foi decisivo para o segundo método de demonstração do ex-quinto postulado, agora talvez teorema, de Euclides. Antes de me explicar a sua obsessão, o professor Matta joga seis números na loteria para a irmã. Nisso, calcula que o único método seguro para vencer requer apostar com quarenta e duas cartelas, apostando dez milhões de liras libanesas. “Infelizmente – acrescenta- o prêmio é de só um milhão e não posso provar que tenho razão”.
Alcança uma mesa, estende por cima folhas cobertas de desenhos e números, as palavras são em francês. Depois dos anos em Paris, enquanto no Líbano ocorria a guerra civil, emigrou para os Emirados, projetou pontes e edifícios para Abu Dhabi. Foi um trabalho muito bem pago, permitiu-lhe de se retirar precocemente: decidiu se reproduzir e se dedicar à sua paixão.
Doze anos atrás teve um filho, e há dez não faz mais que estudar as retas paralelas que não se encontram nunca. Coloca o despertador para as quatro da manhã. Calcula e escreve (dez mil cadernos em dez anos, todos conservados no terceiro andar de uma mansão nas montanhas) até as sete. Dali até o final da tarde lê (álgebra, geometria, filosofia, alguma poesia “porque é igual a solução de um problema”). No pôr-do-sol recomeça a escrever. Se assiste um filme, mantém um bloco de notas ao alcance das mãos: tudo é geometria. Se dorme, acontece de acordar três minutos depois pela urgência de traçar uma bissetriz.
Pergunto-lhe onde estava no 11 de setembro de 2001. Responde que estava estudando e não se deixou distrair porque “nesse longo tempo, o seu problema era relevante demais”. Mas, como muitos notáveis anteriores a ele, não sabia resolvê-lo. No 3 de outubro seguinte morreu sua mãe. Ele se manteve na sua escrivaninha e justamente naquela noite chegou ao primeiro método de demonstração: aquele que utiliza a coincidência de dois ângulos quaisquer. Trabalhou nisso por dois meses e depois teve que admitir: funcionava. Trancou os desenhos num cofre. Deu as chaves para a mulher e disse-lhe: “se me acontecer alguma coisa, leve-os para a Universidade”.
Alguns meses mais tarde, nos cinqüenta minutos do percurso de carro de Byblos à mansão nas montanhas, enquanto a mulher guiava e o filho Jawad brincava puxando-lhe os cabelos, teve a segunda intuição, que batizou justamente de “método de Jawad”. Seguiram a esta, outras oito (mais um considerável apêndice). Diz que as soluções continuam a desabrochar-lhe diante de si, e não queria deixá-las aos outros. Pensa que a Ptolomeu e até mesmo ao jesuíta Saccheri tenha faltado a guia do Espirito Santo. Afirma ter checado, por três anos, em centenas de livros, o seu primeiro método e de considerá-lo infalível. Enviou o êxito de sues estudos à Academia de Ciências da França, a Heidelberg na Alemanha, está pronto para enviar um fax à Normal de Pisa.
Quando fala de geometria não euclidiana, todo o rosto se descompõe pelo desgosto de uma visão infecta, anárquica e ateia. O Universo, sustenta, tem necessidade de uma lógica, de um fundamento do pensamento, de uma linguagem eterna que ligue o homem a Deus, e este vínculo é a geometria demonstrada, em que a soma dos ângulos de um triângulo é inferior a 180º e duas retas paralelas, por razões não só imagináveis, mas também explicáveis, vão cada uma pela própria estrada. Aguarda com fé o veredicto das universidades européias sobre os seus estudos.

Da sua validade, não posso julgar. Se tiver razão, deseja não tanto que seu nome entre nos manuais, mas que surjam a partir disso, geometrias heréticas inspiradoras do caos. Depois, é necessário também perguntar-lhe: professor e se nestes dez anos e dez mil cadernos tivesse feito rabiscos sem valor?
Não hesita nem mesmo por um segundo. Responde: “sou um homem de honra. Vou na televisão e digo que errei. Depois recomeço. Porque aquela reta paralela é o caminho em direção a Deus e à eternidade: se não existe uma razão para sustentá-la, caímos no vazio”.

G. Romagnoli

sexta-feira, 19 de junho de 2009

a um amigo muito muito distante...

Kundera disse algum dia em algum lugar, melhor, escreveu:

entendi qual é o unico significado que a amizade pode ter nos dias de hoje: ela é indispensavel ao bom funcionamento da memória. Recordar-se do próprio passado, trazê-lo sempre atrás de si é, talvez, a condição necessaria para se salvaguardar o proprio eu...

espero que você se lembre algum dia disso...

pergunta de ultimissima hora:

daqui a dez anos, onde você quer estar? e fazendo o quê?
do passado ao futuro, não é possível se passar a não ser através do presente...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Existe algum fim que seja transitório?

Por que pensar no fim?
Existe algum motivo que perdure,
alguma volta para se percorrer para sempre,
algum diálogo que nunca vai se acabar,
algum personagem que vai nascer e nunca se deixar contar,
se deixar fixar numa história?
Alguma história que não seja breve?
Algum afeto que permaneça?

Por algum motivo algumas pessoas acreditam que sim,
que suas histórias de amor jamais vão se acabar.
E se irritam quando eu digo que se acabam, por menos que se deseje...
Nenhum amor que não se acabe assim, eu digo.
Enquanto alguns apostam no presente, no que sempre se constrói todos os dias.

Gostaria de acreditar que existe um pra sempre,
de costruir o meu pra sempre,
mas o que leio, o que vejo no cinema,
é que todas as histórias tem um fim,
e me delicio em saber que após o fim de uma história,
confortavelmente vou abrir um novo livro e ler um novo enredo, conhecer um novo personagem...

na vida isso é mais complicado, talvez triste,
por isso prefiro a literatura e o cinema.

domingo, 7 de junho de 2009

sobre a leitura

“ler significa despojar-se de toda intenção e todo preconceito para estar pronta a captar uma voz que se faz ouvir quando menos se espera, uma voz que não se sabe de onde, de algum lugar além do livro, além do autor, além das convenções da escrita: do não-dito, daquilo que o mundo ainda não disse sobre si e ainda não tem as palavras pra dizer”...

Calvino, Se um viajante numa noite de inverno...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

aos amigos... por quem vê diferente de mim quando olha na mesma direção.

Rosângela tem o sorriso tímido que teria uma deusa caso se disfarçasse de mulher.
Ser normal é o melhor refúgio de uma divindade.
Não é nada fácil ser normal, ainda mais para alguém que nasce do sonho e resolve freqüentar a terra.
Rosângela gosta do silêncio;
de andar olhando o chão como se procurasse moedas antigas;
de curvar os ombros como se fosse natural e de repetir que precisa da companhia de pessoas normais, embora se aconchegue no calor imprevisível dos loucos.
Entretanto, é quase impossível compreender Rosângela, sua estratégia de insistir que é apenas uma mulher normal, mas com o desejo íntimo de ser reconhecida como deusa, confunde o olhar menos atento.
Não devemos procurar capturar sua essência, sua anima, nem pintar quadros ou escrever contos sobre sua história.
O melhor a fazer é fixar os olhos e um pedaço grande da alma, sem medo, na sua principal característica: Rosangela vive sob a crença de que o amor queima!

por Hernandes.
a partir de uma noite de chuva em companhia ouvindo:
Babylon, Zeca Baleiro.

Não tenho dinheiroPra pagar a minha yogaNão tenho dinheiroPra bancar a minha drogaEu não tenho rendaPra descolar a merendaCansei de ser duroVou botar minh'alma à venda...
Eu não tenho granaPra sair com o meu brotoEu não compro roupaPor isso que eu ando rotoNada vem de graçaNem o pão, nem a cachaçaQuero ser o caçadorAndo cansado de ser caça...

terça-feira, 12 de maio de 2009

aos amigos...

nunca conheci ninguém que fosse totalmente previsível.
ainda bem.

e a Rosangela era do interior.
às vezes ainda é um pouco.
transitoriamente.

Rosangela nunca usa internet
não manda email e não lê blogs
é a única pessoa que conheço que acredita que é normal
acredita que existem pessoas prevísiveis
na verdade, acredita fielmente na normalidade
tem medo de gente doida
agora acha que estou envelhecendo e que não vou mais poder sair pras baladas.

Rosangela mora em São Paulo agora.
ela não acredita que mudou.
às vezes ainda se sente no interior...
às vezes anda pelas ruas da cidade como se ainda pudesse andar tranquilamente pelas ruas de sua cidadezinha.
agora vai em reuniões do budismo.
acredita que tem que ser livre e deixar os outros livres.
e sempre diz que algumas pessoas poderiam ser mais felizes se dessem mais valor aquilo que tem.

não acredito em nada não,
nem na mudança e nem na permanência,
mas na Rosangela acredito.

sobre blog de amigos:
Do Pedro, as histórias do Pedro, as crianças do Pedro:
http://www.olhandopardais.blogspot.com/
Da Camilinha, seus descaminhos, seus aluninhos:
http://www.brincardeliberdade.blogspot.com/
De pessoas que não conheço (inclusive eu mesma!) mas escrevem bem, me fazem pensar:
http://coletaneartesanal.wordpress.com/

segunda-feira, 11 de maio de 2009

vida vadia...

é meio assim que anda minha vida vadia ultimamente
trabalho, trabalho, trabalho,
sem tempo pra vadiar,
sem ver amigos...
ontem sonhei com amigos que me levavam pra algum lugar, sei lá pra onde, mas eu ia...
ontem disse que poucas pessoas ainda me desviam do meu caminho,
ainda bem que elas existem pra me desviar da minha monotonia.

de um amigo não-suicida, que um dia vai ter seu próprio blog:
"Reflexão, aprendizado e descoberta geram desconforto. É dificil decidir ser feliz e agir nesse sentido. Quando a gente toma essa decisão nem tudo são flores. A felicidade exige um caminho, as vezes, tortuoso, mas a recompensa é uma noite confortável com cobertor limpinho, estrelas no céu e a companhia de uma pessoa amiga, vale mãe, vale vó, vale primo, vale amiga da faculdade, vale a solidão saudável de quem se ama.
Mesmo que eu fosse infeliz e quisesse morrer, eu não poderia. Porque sentiria falta das pessoas, das coisas e do texto. Principalmente deste, que é a minha conexão com deus e com o universo. Escrever minhas coisinhas é respirar o ar mais mais puro que existe e que consigo extrair mesmo que seja do ar pesado de São Paulo".

é preciso dizer e reafirmar sempre que: nunca conheci ninguém que fosse totalmente previsível...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

josefina, uma nota intrdutória...

Desta vez Josefina andava pelo cenário decomposto do parque de diversões. As últimas cenas ali gravadas vieram-lhe à mente junto com o verso da canção usada na trilha sonora.

“Why does my heart feel so bad?”

Quando tudo acabaria? Estava tão cansada. Mentia para si mesma que era uma personagem importante, que seria reconhecida, se tornaria famosa. Mas era só uma figurante que passava como sombra... talvez em muitas cenas... um fantasma desconhecido que recitava um verso estranho. Numa noite estranha. Um mercado estranho. E as luzes florescentes, coloridas e embriagantes a deixavam desnorteada. Charles talvez tivesse razão, faria sempre essa parte em todos os textos em todos os filmes se tornaria cantora de um bar noturno sujo que ninguém se importa não teria glória nome ou dinheiro. Repetia-se isso todos os dias antes de todos os ensaios inacabáveis inacabados.

“Why does my soon feel so bad?”

A música e o verso acompanhavam seus passos onde quer que ela caminhasse. A sensação era de desconsolo solo sol... um estrondo. Um gato saltava sobre um latão de lixo. Máscaras e perucas coloridas de palhaços surgiam de dentro de um saco preto rasgado, posto ao lado do latão. Apanhou uma delas. Verde clara. Vestiu. A alma cada vez mais triste.