sexta-feira, 29 de junho de 2007

aos pedaços...

uma canção:

Ah... Felicità
su quale treno della notte viaggerai
lo so che passerai
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai...
Lucio Dalla.

um sonho:
caminhando ao lado de alguém que muito amei, de repente pergunto se ele sabia que eu era a mulher de sua vida, ele me responde que sim, e quando chegamos em sua casa, sua cama preparada, com muitas flores ao redor, como se assim posto, esperasse sua morte, que em breve viria...

um leitor:
aquele viciado, insone, que procura sem fim citações e referências, de livro em livro, não se cansa nunca..
Mas o que é mesmo um leitor?

quinta-feira, 14 de junho de 2007

metropolitanas...

lendo o Borges estes dias, acreditei estar lendo o Tabucchi... jardins que se bifurcam: o Borges dizia que o livro é uma extensão da memória e da imaginação, e se perguntava "que é o nosso passado, se não uma série de sonhos? que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado?", Tabucchi me responderia a estas questões dizendo que a memória é uma falsária, que engana a todos, misturando às certezas do vivido, as incertezas do imaginado, do sonhado...

ouvindo quase sem querer a conversa de duas moças jovens e bonitas, no metrô, e tentando jogar um jogo tabucchiano, escrevi o que vem logo abaixo, tomando o cuidado, claro, de situar minhas palavras entre a realidade, a imaginação e o sonho.

Vingança. Coisa de mulher. Mulher é que pensa nos detalhes. Sabe como ela imaginou? De tarde. No café que sempre frequentavam juntos. Porque sabia que ele viria. Ela estava certa. Era uma questão de contrato. Acordo feito e selado. Quando não se cumprem as regras, então, tudo acaba. Estaria então tudo acabado? Quem não cumprira as regras? Ele? Ela chegou atrasada. Havia uma manifestação no caminho. Na Libero Badaró. O centro congestionado. Os olhares sindicais. Sempre vermelhos. Alguns olhos amarelos também. O café esfriara, de tanto esperar. Muita gente entrava e saía àquela hora do dia. O café cheirava longe. A vida é assim, dizia uma jovem, um dia da caça... o outro é da caça também, completava a primeira, eu chorei, por que ele não pode chorar?...
Refrão. Repetidas vezes aquela conversa no ouvido. A loira jovem aconselhava, e a morena, um pouco mais velha, ouvia, contrariamente. As duas com roupas coloridas, conforme o calor da estação. As cores exalavam seus perfumes. Ela olhou para outras mulheres, sempre jovens. Desejou estar usando óculos escuros, pr'os olhos nublados. Desejou ser homem. Pra amar sem pesar. E prender e soltar. E partir e ficar, se quisesse.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar, mas eu vivo, vivo, muito, vivo...
Fizera de novo. Modificara o refrão. Repetidas vezes. A idéia vaga, ilógica, de que alguma coisa deviria retornar e recomeçar o ciclo, com ligeiras modificações. Ou quantas vezes deveria morrer? e em quantos sonhos? No passado, nos sonhos, não poderia dizer onde estava. Teria vivido mesmo tudo aquilo que agora pensava ter vivido? Fazia um esforço para lembrar onde se haviam conhecido. Teriam mesmo se conhecido um dia? Ela afirmara categoricamente que sim, todos os dias. Talvez ele não gostasse de certezas, vivia no condicional. Ela acreditava imperfeitamente que ele precisava de certezas. Muitas vezes as mulheres acreditam no imperativo, no contrato, no chão em que pisam, na força de não se abismar. Seriam os homens o abismo sem fim? e assim sendo, é tudo o que uma mulher poderia desejar?, abismar-se? cair indefinidamente?, é possível cair por todo o sempre? e caindo, não se morre? não se recomeça? o que significa a repetição infindável do fim? tem algum sentido pra você?
eu busco pouco por sentidos assim definidos. Ele havia dito a sentença serena, serenante. Viver as paixões sem palavras, deixar que os sentidos signifiquem sem palavras.
Ela olhou para a própria bolsa sobre a mesa, deixada ali aberta, exposta. Um livro, um casaco, chaves.
Agora não saberia dizer como a história terminaria, nem mesmo se teria um dia começado. Pensou na inútil vingança enquanto bebia o último gole do frio café. Talvez, ele dissera. Ela sempre apostara na sua certeza, que agora, neste exato momento, era a mais incerta possível.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar...

sexta-feira, 8 de junho de 2007

notas italianas...

in bilico
tra santi e falsi dei
sorretto da un’insensata voglia di equilibrio

Negramaro.


Sou um poeta,
sou um ator,
mas de manhã desperto, me visto,
enfio os sapatos,
saio para a rua e sou como todos,
e na rua passam os passantes,
e eu os olho, e sorrio porque passam,
e também eu passo e ninguém me nota.

O senhor Pirandello é esperado ao telefone.
A. Tabucchi.

domingo, 3 de junho de 2007

entre línguas...

na tentativa de ler um pequeno poema em prosa de Baudelaire, do Spleen de Paris, me deparei com um grande problema: não leio francês, talvez algumas poucas palavras eu entenda; achei na net uma versão do texto em inglês, mas meus inglês é precário, me ajuda com algumas estruturas; por fim uma em espanhol, e pra compreensão do espanhol me faltam apenas algumas conjunções e alguns verbos... nada que um dicionário online de italiano/francês/inglês não resolva... ao fim das leituras, consegui (acho) entender o texto e ainda arrisquei uma tradução, embora eu saiba que com certeza temos uma tradução respeitável em português, em algum lugar deste país...

Anywhere Out of the World
(Não importa onde, fora do mundo)

A vida é um hospital onde cada paciente é possuído pelo desejo de mudar de leito. Um quer padecer em frente a uma estufa e outro acredita que ficará bem, próximo da janela.
Parece-me que eu estarei sempre bem onde não estou, e esta mudança é uma questão que discuto incansavelmente com minha alma.
“Diga-me, alma minha, minha pobre e fria alma, o que achas de morar em Lisboa? Deve ser quente lá, e tu serias capaz de absorver o sol como um lagarto. Aquela cidade é próxima do litoral; dizem que ela é feita de mármore, e que as pessoas de lá têm ódio dos vegetais e arrancam todas as árvores. Esta é uma paisagem que te agradarias, feita de luz e mineral, e água para refleti-los”.
Minha alma não respondeu.
“Já que gostas tanto do repouso, somado ao espetáculo do movimento, queres ir para a Holanda, aquela terra bendita? Talvez te divirtas nesse país cuja imagem admiraste tantas vezes nos museus. Que tal Rotterdam, te agradas os bosques de mastros e os navios ancorados aos pés das casas?”.
Minha alma segue calada.
“Talvez te agradasses mais Batavia? Encontraríamos nela, desde já, o espírito da Europa enlaçado à beleza tropical”.
Nenhuma palavra. Teria morrido minha alma?
"A que ponto de entorpecimento chegaste que somente com teu próprio mal te rejubilas? Se é assim, vamos fugir para países que são a analogia da Morte. Já tenho o que nos convém, pobre alma! Vamos fazer as malas para Bornéo. Vamos ainda mais além, até o último extremo do Báltico, mais longe ainda da vida, se é possível; vamos nos instalar no Pólo. Ali onde o sol não toca mais que obliquamente a terra, e as lentas alternações entre luz e escuridão suprimem a variação e aumentam a monotonia, que é a metade do nada. Ali poderemos tomar longos banhos de trevas, contanto que, para nos divertir, as auroras boreais nos enviem, de tempos em tempos, seus feixes de luz rosados e brilhantes, como reflexos de um fogo artificial do inferno”.
Finalmente minha alma explode e sabiamente me grita: “Não importa para onde! Não importa para onde! Contanto que seja para fora deste mundo!”.