"Toda a literatura está contida na linguagem, ela é só permutação de um conjunto finito de elementos e de funções. Mas a literatura não é sempre subtendida pelo esforço de sair deste número finito? Não procura talvez dizer o que não sabe dizer, o que não pode dizer, o que não sabe, o que não se pode saber? Uma coisa não pode ser conhecida enquanto as palavras e os conceitos para dizê-la e pensá-la não foram usadas ainda naquela posição, não foram dispostas ainda naquela ordem, naquele sentido. A batalha da literatura é justamente um esforço para sair fora dos limites da linguagem; é da margem extrema do dizível que ela se projeta; é o chamado daquilo que está fora do vocabulário que move a literatura.
O narrador agrupa frases, imagens: a fábula estende-se sinuosamente de frase em frase, para aonde se dirige? Para o ponto no qual qualquer coisa ainda não dita, qualquer coisa só obscuramente pressentida, revela-se e nos prende e dilacera como a mordida de uma feiticeira antropófaga. Na floresta das fábulas, passa como um estremecimento de vento a vibração do mito
O mito é a parte escondida de cada história, a parte subterrânea, a zona ainda não explorada, porque ainda faltam as palavras para chegar até lá... O mito vive de silêncio mais do que de palavras. Um mito calado faz sentir sua presença na narrativa profana, nas palavras cotidianas, é um vazio de linguagem que aspira as palavras para um vórtice e dá à fábula uma forma.
Mas o que é um vazio de linguagem senão os rastros de um tabu, da proibição de falar alguma coisa, de pronunciar certos nomes, de uma interdição atual ou antiga? A literatura segue itinerários que margeiam e ultrapassam as barreiras das interdições, que permitem dizer aquilo que não podia ser dito, a um inventar que é sempre re-inventar de palavras e histórias que haviam sido removidas da memória coletiva e individual. Por este motivo, o mito age sobre a fábula como uma força repetitiva, obriga-a a voltar seus passos mesmo quando ela se perde por caminhos que parecem conduzi-la para regiões inteiramente diversas.
O inconsciente é o mar do indizível, do que foi expulso da linguagem, abandonado por causa de antigas proibições. O inconsciente fala – nos sonhos, nos lapsos, nas associações instantâneas – por meio de palavras emprestadas, símbolos roubados, contrabandos lingüisticos, enquanto a literatura não recupera estes territórios e os anexa à linguagem da vigília.
A linha de força da literatura moderna está na consciência de dar a palavra para tudo isto que no inconsciente social ou individual permaneceu não-dito: este é o desafio que ela renova continuamente".
Italo Calvino.
