segunda-feira, 20 de setembro de 2010

arte combinatória...

"Toda a literatura está contida na linguagem, ela é só permutação de um conjunto finito de elementos e de funções. Mas a literatura não é sempre subtendida pelo esforço de sair deste número finito? Não procura talvez dizer o que não sabe dizer, o que não pode dizer, o que não sabe, o que não se pode saber? Uma coisa não pode ser conhecida enquanto as palavras e os conceitos para dizê-la e pensá-la não foram usadas ainda naquela posição, não foram dispostas ainda naquela ordem, naquele sentido. A batalha da literatura é justamente um esforço para sair fora dos limites da linguagem; é da margem extrema do dizível que ela se projeta; é o chamado daquilo que está fora do vocabulário que move a literatura.

O narrador agrupa frases, imagens: a fábula estende-se sinuosamente de frase em frase, para aonde se dirige? Para o ponto no qual qualquer coisa ainda não dita, qualquer coisa só obscuramente pressentida, revela-se e nos prende e dilacera como a mordida de uma feiticeira antropófaga. Na floresta das fábulas, passa como um estremecimento de vento a vibração do mito

O mito é a parte escondida de cada história, a parte subterrânea, a zona ainda não explorada, porque ainda faltam as palavras para chegar até lá... O mito vive de silêncio mais do que de palavras. Um mito calado faz sentir sua presença na narrativa profana, nas palavras cotidianas, é um vazio de linguagem que aspira as palavras para um vórtice e dá à fábula uma forma.

Mas o que é um vazio de linguagem senão os rastros de um tabu, da proibição de falar alguma coisa, de pronunciar certos nomes, de uma interdição atual ou antiga? A literatura segue itinerários que margeiam e ultrapassam as barreiras das interdições, que permitem dizer aquilo que não podia ser dito, a um inventar que é sempre re-inventar de palavras e histórias que haviam sido removidas da memória coletiva e individual. Por este motivo, o mito age sobre a fábula como uma força repetitiva, obriga-a a voltar seus passos mesmo quando ela se perde por caminhos que parecem conduzi-la para regiões inteiramente diversas.

O inconsciente é o mar do indizível, do que foi expulso da linguagem, abandonado por causa de antigas proibições. O inconsciente fala – nos sonhos, nos lapsos, nas associações instantâneas – por meio de palavras emprestadas, símbolos roubados, contrabandos lingüisticos, enquanto a literatura não recupera estes territórios e os anexa à linguagem da vigília.

A linha de força da literatura moderna está na consciência de dar a palavra para tudo isto que no inconsciente social ou individual permaneceu não-dito: este é o desafio que ela renova continuamente".

Italo Calvino.

labirintos...

"Toda orientação pressupõe desorientação. Só quem experimentou o desaparecimento pode libertar-se dele. Mas estes jogos de orientação são, por sua vez, jogos de desorientação. Nisto está o seu fascínio e o seu risco. O labirinto é feito para aquele que nele entrar se perder e errar. Mas o labirinto constitui-se sim em um desafio para o visitante, para que nele reconstrua-se o plano e dissolva-se o seu poder. Se ele chegar a isto, terá destruído o labirinto, pois não existe labirinto para quem o atravessou".

Hans Magnus Enzenberger

domingo, 19 de setembro de 2010

esquerda direita...

Hoje eu também não o esperava. Outra vez invadiu meu quarto, fico impressionada com a capacidade dele de invadir, entrar sem pedir licença, e porque não fico com raiva? Ele atravessou a casa toda sem notar a bagunça, foi direto para o meu quarto e se deitou na minha cama, jovial, brincalhão, homem-menino. Quantas vezes já esteve ali? Perco a conta. Ainda continua? Foi embora e voltou? Não consigo precisar, sei apenas que ele trouxe seu gatinho amuleto, uma espécie de chaveiro que piscava os olhos quando eu o olhava. Na minha cama, esparramado, instalou seu programa de joguinhos no meu computador e criou um jogo de perseguição. Acho que gosto da sua invasão, mas me angustiam seus jogos de perseguição, ele me conforta, sentimentos complexos, não consigo explicar, uma confusão de desejos que só se resolvem quando me aproximo dele, me deito ao seu lado, espero suas caricias, ele continua a jogar, me ignora, depois me acaricia as pernas suavemente e me ensina um percurso dentro do jogo pra escapar. Não consigo escapar. É um homem que toma conta da minha cama com seu corpo imenso, um homem grande e bonito e intruso, que invade meus sentidos. E tem uma mania de menino. Sinto prazer em estar ao seu lado. Sinto que ele sempre esteve aqui, em mim. Mas não o conheço nem menos. Não sei seu nome, não sei quantos anos tem, é menino algumas vezes, e outras, é tão senhor de mim.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

bibliotecas...


achei este trecho por aí, em algum canto deste vasto mundo virtual...
lá estava escrito que era do Italo Calvino, talvez seja...
de qualquer modo, só veio se juntar ao meu pensamento de hoje: será que gostar muito de literatura é algo muito muito estranho?

"Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis."

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

poema terapia, para as horas de desencontro...

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros.

sem rancor...

E então hoje de manhã encontro as amigas da infância, estamos de volta a nossa cidadezinha do interior, útero, mãe feliz pelo nosso retorno, caminhamos pela avenida única, pra chegar à escola da nossa adolescência, e ele me encontra, de alguma forma, sempre esteve ali, e é então nosso quarto encontro. Eu já sabia que ele viria. Já o esperava. Ele me persegue pelos vãos da minha memória, torna-se eterna lembrança, se disfarça. E então se machuca. O pé, imagino. Mas talvez o braço. Ou quem sabe ainda a boca. Preciso levá-lo ao hospital. Entramos no carro, não sei dirigir, minha amiga nos guia tranqüila, conversamos, estamos alegres, apesar da vontade de querer chegar logo no hospital, socorrê-lo, livrá-lo desta angústia que sangra.

Quando descemos do carro, sou a professorinha e ele meu aluno-menino, um menino lindo, de cabelo escuro, olhos escuros, o nariz sangra, não estamos no hospital, mas na escola de banheiros sujos, os banheiros das escolas são tão sujos, meus pés estão descalços, me angustia percorrer aquele espaço de sujeira, mas o levo ao banheiro, de muitos chuveiros, de água gelada. Dou banho frio no menino, lavo seu nariz com o chuveirinho, não o toco, deixo só a água correr pelo seu corpinho. Sento-o num muro frio, tudo tão frio nesta manhã de reencontro com a escola, envolvo o menino com uma toalha quentinha, ele está limpo agora, pego-o nos braços, e levo-o comigo: ele me pertence...