terça-feira, 22 de junho de 2010

causalidade x sincronicidade

Diz Jung no prefácio ao I Ching:
" a causalidade enquanto uma verdade meramente estática não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros enquanto que para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência dos eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psiquicos) do observador ou observadores".

a casa da atriz...

"Às vezes uma solução parece plausível apenas deste modo: sonhando. Talvez porque a razão seja tímida, não consiga preencher os vazios entre as coisas, estabelecer a plenitude, que é uma forma de simplicidade, e prefira uma complicação cheia de buracos e, então, a vontade deixa a solução ao sonho".
Tabucchi.

desta vez eu era uma atriz,
e estava presa no quinto andar de um edifício todo fechado,
queria sair, nenhuma possibilidade, nenhuma janela, nenhuma passagem de ar, nenhuma tranca
eu, atriz, sufocando
eis que o elevador chega, abarrotado de gente, nenhum espaço pra dor, todo lotado, quanto afeto, meu deus,
e uma figura desfigurada, sem rosto, entra junto comigo,
no andar da solidão, ameaçada de gente,
e então me encontrou, e era o meu amor que eu não sabia e vamos pra casa, nossa casa
o elevador-trem nos deixa em casa
uma casa escura, uma porta iluminada, uma cama-penumbra, um banheiro concreto
na porta, a professora vestida de branco, vinha me contar do lado de fora, eu querendo entrar,
o amor já no banheiro, o banho já no ponto e a professora não que não me deixava passar,
respondo à entrevista, dou todas as notícias e digo que me espere, senhorita professora, pode esperar aí sentada na porta da penumbra
vou ao banho que interessa, a água fria, o desaconchego, os fios elétricos descascados,
menino desce daí que vai levar um choque
então o chuveiro esquenta, e a água vem quente, acolhente, escorre pelo corpo gelado do meu amor
ele me beija e toco sua pele, e toda a vida re-passando em três segundos, dois, um...
ah, quanto tempo, quanta saudade!
e o amor se consome, me consuma.
a alma suja lavada.