terça-feira, 9 de dezembro de 2008

inferno possível...

a saudade
o medo
a tristeza
a dor
o prazer
e o medo, de novo.

a memória, meu maior inferno possível,
prisão e liberdade, o meu sempre, o meu mesmo e o meu nunca.

hoje sonhei que o passado vinha docemente me beijar,
me abraçou ternamente e de novo foi embora.
será que ele ainda há de voltar?

"Noites de Almirante" do Machado, mas sem ironia:
quando eu jurei era verdade.
a verdade do tempo, a verdade do presente.
o passado ou o futuro não existem.

"Existem duas formas de não sofrer. A primeira é facil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preserva-lo, e abrir espaço".
Italo Calvino, As cidades invisíveis.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

pode sim ser sim?

me pergunto isso todas as manhãs quando o sol nasce,
só por força de querer viver,
só por força de querer amar,
querendo lutar contra todas as forças que teimam por nos destruir...
então tentamos escapar e viver,
é só isso que há pra se fazer...
dizer sim para que este sim se torne verdadeiramente um sim...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

se me fue...

é o lento escorrer das horas o que mais me incomoda agora,
como se cada segundo vivido fosse uma parte agonizante do meu suicidio diário...
e voltar às lembranças de um tempo ido parece uma prisão assustadora,
quanto mais me volto para o passado mais me dou conta de que o presente me escapa...
e de que nenhum futuro pode me alcançar...
e me perco em mim, e não sei o que fazer...
para me deixar escorrer como o tempo...
existe uma doce ilusão,
"é a ilusão de que me volte o que me faça feliz, me faça viver"
mas não pode me sustentar mais que algumas vezes repetidas da canção...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

não vá se perder por aí...

um poema do Borges, que algum dia alguém me mandou e que agora mando pra outros pra fazer circular...
a minha sensação é que o tempo está me engolindo a cada dia... e cada dia mais e mais...
qualquer combinação que não entendo me fez rever amigos que não via há tempos...
acho que é tempo de rever coisas...
ah, o poema:

Aprendiendo.

Después de un tiempo, uno aprende la sutil diferencia entre sostener una mano y encadenar un alma, y uno aprende que el amor no significa acostarse y una compañía no significa seguridad, y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos y los regalos no son promesas, y uno empieza a aceptar sus derrotas con la cabeza alta y los ojos abiertos, y uno aprende a construir todos sus caminos en el hoy, porque el terreno de mañana es demasiado inseguro para planes... y los futuros tienen una forma de caerse en la mitad.

Y después de un tiempo uno aprende que si es demasiado, hasta el calor del sol quema. Así que uno planta su propio jardín y decora su propia alma, en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.

Y uno aprende que realmente puede aguantar, que uno realmente es fuerte, que uno realmente vale, y uno aprende y aprende... y con cada día uno aprende.

Con el tiempo aprendes que estar con alguien porque te ofrece un buen futuro significa que tarde o temprano querrás volver a tu pasado.

Con el tiempo comprendes que sólo quien es capaz de amarte con tus defectos, sin pretender cambiarte, puede brindarte toda la felicidad que deseas.

Con el tiempo te das cuenta de que si estás al lado de esa persona sólo por acompañar tu soledad, irremediablemente acabarás no deseando volver a verla.

Con el tiempo entiendes que los verdaderos amigos son contados, y que el que no lucha por ellos tarde o temprano se verá rodeado sólo de amistades falsas.

Con el tiempo aprendes que las palabras dichas en un momento de ira pueden seguir lastimando a quien heriste, durante toda la vida.

Con el tiempo aprendes que disculpar cualquiera lo hace, pero perdonar es sólo de almas grandes.

Con el tiempo comprendes que si has herido a un amigo duramente, muy probablemente la amistad jamás volverá a ser igual.

Con el tiempo te das cuenta que aunque seas feliz con tus amigos, algún día llorarás por aquellos que dejaste ir.

Con el tiempo te das cuenta de que cada experiencia vivida con cada persona es irrepetible.
Con el tiempo te das cuenta de que el que humilla o desprecia a un ser humano, tarde o temprano sufrirá las mismas humillaciones o desprecios multiplicados al cuadrado.

Con el tiempo aprendes a construir todos tus caminos en el hoy, porque el terreno del mañana es demasiado incierto para hacer planes.

Con el tiempo comprendes que apresurar las cosas o forzarlas a que pasen ocasionará que al final no sean como esperabas.

Con el tiempo te das cuenta de que en realidad lo mejor no era el futuro, sino el momento que estabas viviendo justo en ese instante.

Con el tiempo verás que aunque seas feliz con los que están a tu lado, añorarás terriblemente a los que ayer estaban contigo y ahora se han marchado.

Con el tiempo aprenderás que intentar perdonar o pedir perdón, decir que amas, decir que extrañas, decir que necesitas, decir que quieres ser amigo, ante una tumba, ya no tiene ningún sentido.

Pero desafortunadamente, solo con el tiempo...

Jorge Luis Borges.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

9 entre 10 canções de amor...

me fazem pensar, viver, sentir...
confesso que estou ouvindo mais uma vez a linda canção da mexicana Julieta Venegas com a participação de Marisa Monte...
engraçado que as lá grimas me rolem rosto abaixo sem que eu perceba, e no metrô, as pessoas olham sem entender...
gente que chora em lugar público é sempre mal visto,
neste caso, nada de grave, era só uma cena que figurava na cabeça... e me fazia pensar
"por que a deixei, por que a deixei?"

em seguida veio uma outra canção, não era de amor, e nem sei quem canta, sei só estes versos, que dizem sobre mim algo, agora, entre uma estação e outra:
"um dia encontro a minha paz na praia ou na cachoeira
agora tenho que trabalhar na roça pra vender na feira"
as duas se misturaram e ficaram assim, confundidas...
imagens e sons.

dias de chuva a vista.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

o esquecível e o cancelável...

muitas convesas com amigos ultimamente me fizeram pensar num estranho hábito das pessoas de hoje: cancelar emails e telefones...
diga-se de passagem que ninguém em sampa costuma muito dar endereço e telefone de casa, quase ninguém, digamos, meus amigos mais intimos sabem onde moro, meus vizinhos também sabem, mas nem se dão ao trabalho de me comprimentar pela praça quando me vêem, salvo algumas senhoras gentis...
mas o hábito de trocar número do celular e depois cancelar este mesmo número quando já não nos interessamos mais por este telefone é recente, me parece...
talvez as agendas do celular sejam pequenas e como ninguém mais quer carregar agenda de papel...
enfim, ou então realmente chegamos ao nível dos relacionamentos dispensáveis e canceláveis...
tem muita gente no mundo, a gente tem que ser seletiva, eu sei, mas não gosto de cancelar e ser cancelada...

resta pensar agora no tempo em que cada um leva pra esquecer e cancelar um número... eu demoro um pouco, cancelar do celular ás vezes não ajuda muito...
de novo estou pensando em brilho eterno de uma mente sem lembranças...
queria dizer a um amigo que tudo vai passar, mas enquanto não passa, não sei se ajuda muito cancelar o número do telefone, apagar do orkut, jogar fora as recordações...
depois, a memória faz parte da gente, é ela quem nos ajuda a esquecer e a lembrar quando isso é parte vital de nós mesmos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

sobre pessoas que saem na chuva mas não se molham...

me lembrei de um estudo de Antonio Candido que dizia que é impossível sair imune depois de entrar em contato com a literatura...
mas me lembrei também de pessoas que me diziam na faculdade de letras que não gostavam de literatura e eu não conseguia saber como...
tem gente que consegue a proeza de sair na chuva e não se molhar...
não há do que se lamentar... nem todo mundo gosta do azul, é só isso...

dividindo o blog e as emoções...

um amigo me escreveu depois de assistir nome próprio, bom tem outros detalhes mas isso é o essencial:

Não fique triste amiga, pelo menos não pense que o motivo de sua tristeza deva ser sua dificuldade de encontrar uma pessoa, a tristeza vem embutida no primeiro choro e se instala definitivamente. A multidão de solteiros, solitários e envelhecidos pelo sofrimento convive em nossa metrópole a procura de alguém do mesmo modo que você e eu. São muitas solidões desencontradas. Também estou mais velho e me sinto só. Um dia desses, eu estava em casa e fiquei muito triste, não era a falta de alguém, de dinheiro ou poder – era solidão em estado puro. Peguei minha faixa preta de karatê e a enrolei no pescoço. Por alguns segundos, pensei em morrer, depois transformei o laço em uma espécie de manto e abracei a faixa. Continuei chorando e vi um sentido naquilo que abraçava; nos anos de treinamento; nas lutas que não cheguei a fazer contra inimigos que não conheci, mas que os teria vencido se os tivesse enfrentado. Amanhã, beberemos. Um brinde à vida!

prefiro histórias que se vivem...

certas coisas na nossa vida vão adquirindo aos poucos um estatuto de não existência... tem a ver com a nossa memória seletiva... selecionamos aquilo que queremos e o resto vai desaparecendo, como se não tivesse existido e, depois de algum tempo, como num passe de mágica, reaparecem, retornam à memória, voltam a existir... mas nem sei se podemos controlar...
me lembro de ter lido em algum lugar que as coisas que mais relembramos são aquelas que mais desconstruímos e desgastamos pela força de querer lembrar...
as mais vivas lembranças são aquelas que esquecemos...
é por isso que agora penso em me esquecer totalmente de coisas boas e singelas, pra um dia ser surpreendida pela vivacidade de uma lembrança não lembrada...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

não era só uma pergunta...

is she weird
is she weird,
is she white
is she promised to the night
and her head has no room
and her head has no room
Pixies

a que hora é o fim do mundo?

it's the end of the world as we know it (i feel fine)
REM

terça-feira, 2 de setembro de 2008

amor inventado....

o nosso amor a gente inventa pra se distrair e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu...
do sábio louco Cazuza.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

epílogo

Primeiro foram os olhos azuis arregalados.
Depois vieram as mãos grandes assustadas.
E por último o abraço que durou pouco e se foi.
Uma outra vez voltaram os olhos lacrimejantes brilhosos sorridentes.
E as mãos cresceram e apertaram com força até estrangular.
E o abraço desta vez foi arrebatador longo até quebrar todos os mínimos ossos.
E a cidade desencontro com suas ruas circulares que trazem de volta sempre o mesmo ponto onde tudo recomeça ainda uma outra vez.
Mas então os olhos já não vêem e as mãos não podem apertar, e o abraço é para sempre interrompido pela hora de partir.
Tem-se talvez o tempo de um café, cinco minutos em que se conta a história de toda uma vida.
E os olhos já não se podem olhar.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

cor, cheiro e som...

Tem dias na vida da gente que a melhor coisa a fazer é deitar na grama e olhar o sol se pôr, mesmo que o céu desta cidade tenha uma cor avermelhada desta imensa poluição urbana, esta hora ainda sim é mágica... com as cores e os cheiros e os sons...
o som pode ser de uma canção bem brasileira como "anjo de guarda noturno", que é um baião bonito, me faz lembrar um lugar distante de tudo, que eu nunca vi, nem sei qual é, mas que me traz muita paz... como se existisse mesmo qualquer coisa de sagrada entre este sol e esta terra...
e o cheiro é aquele de grama e terra meio úmida, já que o sol estes dias tem sido mais brando...

Meu anjo de guarda noturno
Você é quem sabe de tudo
E quando eu peço proteção
Não é pra fugir do ladrão
Nem pra me esconder na igreja
Eu quero que Deus nos proteja
Das dores do coração
Meu anjo de luz que ilumina
compositor da minha sina
não deixe que espinhos me ceguem
Guarde meus caminhos que seguem
Aos carinhos dessa menina
Meu anjo de luz guardião
Condutor da minha emoção
Ensine um atalho pra ela
que evoque o anjo dela
No toque sutil da canção
Miltinho Edilbrto

quinta-feira, 24 de abril de 2008

as minhas lágrimas não secam sozinhas...

He walks awaythe sun goes down,
He takes the day but I’m grown
And in your grey
In this blue shade
My tears dry on their own.

Amy Winehouse.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

pieguices...

O último tango em Paris sempre representou para mim o ápice da crítica de Bernado Bertolucci à moral pequeno burguesa, cristã e católica. Era de dentro da "imoralidade" e da degradação que a personagem de Marlon Brando falava e cuspia em todos os valores e preconceitos de classe com os quais ele bem tinha convivido, os quais ele bem sabia de cor e para os quais se lixava. Mas então aparecia uma mocinha aparentemente querendo fugir destes valores, e na sua virilidade ofensiva, a personagem de Marlon Brando a apresentava à transgressão. Transgressão que a mocinha vivencia e se delicia por um período de tempo, até quando se dá conta de que pode se sujar muito e então resolve voltar para o seio de sua classe “limpinha”, e se casa com o noivo parisiense arrumadinho e de futuro promissor. E a personagem heróica e suja de Brando se entrega à comiseração, volta à ofensa, à solidão, à degradação, mas desta vez mais ofendido ainda porque ousara acreditar que podia ter se limpado de sua sujeira.
Bertolucci neste filme, como em muitos outros, mostra sua lógica marxista, revolucionaria, anti-burguesa. É estranho, até mesmo por este motivo, assistir aos Sonhadores, de 2004. Me lembro que quando vi este filme, apesar da temática ser parecida com a do primeiro, um filme da década de 70, se não me engano, se pensamos que a transgressão nunca é realmente consumada (os jovens sonhadores parisienses não levam a cabo o incesto insinuado e desejado, o que poderia ser a destruição de toda moral que aparentemente rejeitavam), acabamos por acreditar que Bertolucci se manteve fiel a sua lógica de desnudar a classe burguesa, mostrar suas esquizofrenias e culpas e sobretudo sua capacidade de esconder a própria doença. Mesmo assim quando vi Os sonhadores senti como se algo no bom e velho Bertolucci tivesse irremediavelmente mudado: a crítica ferrenha de O ultimo tango não é mais tão cruel em Os sonhadores e parece que hoje em dia ser contra valores de classe é o equivalente a ser “cult”. Até mesmo porque quem ataca a moral e os bons costumes parece sempre vir de dentro das classes feridas. Até mesmo porque o vocabulário marxista caiu em desuso e dizer “pequeno burguês” é anacronismo demais. Além de um pouco piegas.
Como exemplo da vida pragmática, me lembro dos primeiros anos de faculdade, dos muitos e muitos amigos que fiz na “calourada”, muitos e muitos marxistas, socialistas, revolucionários, filhos das classes médias que participavam de passeatas do MST, sem pensar que se realmente a reforma agrária tivesse acontecido, muito de seu capital teria sido entregue às massas proletárias, nem que fosse indiretamente. Acho que um destes personagens “reais” mais ilustrativos foi um colega militante que foi pra Cuba estudar e voltou antes do tempo programado porque a falta de água lá quase o impedia de tomar banho, ou melhor, ele tinha sempre que optar entre tomar banho e pegar água pras tarefas domésticas, e como não podia abrir mão de manter-se “limpo”, tomava banho.
Até minha mãe que não participa nunca do âmbito da discussão política me disse que discurso qualquer um faz. E que de boas intenções, como sabemos, o inferno está mais que lotado.
Conto esse “causo” mesmo que qualquer um me diga quais são os imensos problemas que Cuba vive hoje. Acho que não especifiquei nenhum conceito por trás dos vocábulos que usei e nem me baseei em nenhuma teoria pra afirmar e tornar lícito o que contei.
Talvez hoje tenha acordado um pouco cruel demais, mas não era isso que queria parecer. Há muito tempo estava pensando nestas questões e até pensei em reler Cem anos de solidão pra falar do rolo compressor que é a História para os ofendidos. Sem conhecer direito muitos ofendidos. Sem medo de parecer piegas. Talvez o Pedro risse deste meu pensamento imaturo. É isso que me importa, na verdade.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

da brevidade da leitura...

ainda não li o Raduan Nassar, a não ser a primeira página de um Copo de coléra numa livraria... ia comprando quando me dei conta de uma coleção de bolso, mais barata e acabei lendo Amós Oz, um livro curioso, A caixa -preta... feito de cartas, gosto da estranha composição mosaico do romance... gosto de autores que me façam rir e chorar ao mesmo tempo... na minha crise de abstinencia de leituras (há dois meses não lia nada!!!), comecei a ler este romance abruptamente e já quase acabando, tenho a dizer que as paixões que se consumam assim brevemente deixando muitas marcas e nenhum sentido são as melhores... longas paixões, ademais, nem sei se existem... se existirem devem ser uma especie de tortura lenta e agonizante...
A caixa-preta ainda não sei bem sobre o que é, talvez sobre a tortura que impomos a nós mesmos...

"já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio _ definitivamente fora de foco _ cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes "
"Um copo de cólera", de Raduan Nassar.

eu ainda prefiro as paixões, ao menos estas de que tratam os romances...

segunda-feira, 17 de março de 2008

prefiro histórias que se contam...

uma aluna me perguntou outro dia o que eu andava lendo de bom,
como não estou lendo nada de bom, tenho lido pouco e em geral coisas ligeiras,
resolvi sugerir um livro que li já faz mais de um mês, talvez dois... um livro muito bom, dos melhores que li nestes últimos meses...
"dois irmãos" do Milton Hatoum, um escritor que ainda não está nos manuais escolares de literatura... (coisas de aluno!)
disse pra ela que era um livro fascinante porque tinha um encadeamento na história que prendia o leitor, toda vez que era obrigada a parar a leitura sofria um pouco porque queria saber qual era a próxima percipecia dos jovens protagonistas... não só as aventuras e conflitos são perturbadores, também a linguagem, muito simples e ao mesmo tempo muito trabalhada, cheia de palavras que designam coisas, um vocabulario muito concreto, regional, que traz em si uma força expressiva e caracterizadora da literatura do Hatoum...
foi o primeiro livro que li deste escritor e soube que ele tem mais outros dois se não me engano, e que já ganhou prêmios importantes pra literatura nacional...
a minha aluna está se preparando pro vestibular e leituras extra agora não ajudam muito, então ela me perguntou também o que eu achava de escritores como Machado, Guimarães Rosa, Clarice... bom, disse quais eram os meus preferidos dentre os romances destes, mas ressaltei que tenho lido ultimamente nada de muito canônico como Rubem Fonseca, Daniel Galera, e que o Hatoum foi uma grande descoberta, principalmente porque tenho veementemente me recusado a ler livros que sejam mais reflexão, estruturas, que historia propriamente dita...
isso porque tenho evitado algumas reflexões árduas e penosas... embora a saga dos dois irmãos seja motivo pra reflexão, acho que o mais importante é a questão do exemplo, é uma historia mítica e exemplar, e com uma perspectiva de inconclusão, como se a historia dos irmãos fosse só uma parte de uma historia maior, como se tudo continuasse andando, caminhando pra um ponto qualquer no horizonte, sem um final previsto ou mesmo pensável... mesmo quando o livro acaba.
acho que foi por isso que gostei.

segunda-feira, 3 de março de 2008

men senãrá a reconocer que hay daños que te enseñam a crecer...

Alguns anos atrás, li um pequeno tratado sobre a felicidade, de um filósofo francês chamado André Comte-Sponville. O tratado se chama A felicidade, desesperadamente. O título talvez lembre um livro de auto-ajuda, mas a grande questão do texto é esta vírgula. O tratado retoma a doutrina epicurista sobre o bem viver, a filosofia como instrumento para uma vida melhor. O texto nos faz pensar sobre o “des-esperar” uma idéia interessante pra se alcançar a felicidade ( a felicidade em ato, ou seja, uma felicidade que não espera nada). É um resumo grosseiro, mas o filósofo diz que só des-esperando podemos atingir a felicidade porque “só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes”. Ou, trocando em miúdos, buscamos a tal da felicidade sempre onde ela não está. Isso me faz lembrar dos desenhos animados que via antigamente, sempre tinha um personagem que ia de um lugar a outro buscando alguma coisa inalcançável, mas nunca encontrava, o objeto mágico estava sempre num outro lugar, para o qual ele se dirigia e enfim continuava a busca. Lembro de sempre esperar pelo último episódio quando ele por fim encontraria o tal objeto. De alguns desenhos nunca soube se fizeram ou não o último episódio. Às vezes acho que nossa vida se parece com estes desenhos animados de antes. E não sabemos mesmo quando vai passar o último episódio e se neste vamos encontrar o nosso objeto mágico que faz parte da nossa busca incessante pela felicidade.
Recentemente reencontrei dois amigos que não via há um bom tempo. Os dois casados, com filhos, trabalhando, com problemas, com alegrias, com tristeza, vivendo. Não sei bem se vivendo desesperadamente, mas vivendo. Cada pessoa constrói seus sonhos ou então deixa de sonhar conforme bem entende. Tenho amigos que estão longe, que não sei se vou ver qualquer dia destes, nem sei também se quero ver, se eles querem me ver. Alguns perdi deliberadamente, outros me perderam deliberadamente. Alguns partiram, outros vão partir em breve. É a dinâmica da amizade, da vida também. Não se pode deter o tempo. Sei que cada pessoa que passa pela minha vida me deixa algo, um presente, um carinho, uma alegria, uma tristeza, uma lembrança. Talvez eu também deixe algo de mim neles, mas isso não posso saber. O que sei é que sempre pensei na amizade como troca. Só agora pensei numa outra condição pra amizade. Troca é uma idéia muito utilitária da qual quero me desapegar, cada dia mais e mais. Talvez porque a gente se canse de dar e de esperar receber. E a vida passa. E como me disse alguém algum dia tudo que a gente resolve dar é porque quis, algumas vezes as pessoas pedem, é certo, mas algumas vezes é gratuito. Deveria ser sempre.
Acho que tem razão o tal filósofo epicurista quando diz que o desesperar tem mais sentido de ser na busca pela tal felicidade, que em filosofia, tem a ver com a busca da verdade, da sabedoria. Só que é tão humanamente difícil não criar expectativas, não pedir nada, se desapegar, ser gratuito. Sempre criei muitas expectativas e só depois dos 29, com o retorno de saturno, decidi tentar não criar mais nenhuma. Tenho feito exercícios de paciência, tenho pensado na morte, tenho ouvido mais as pessoas, tenho me esforçado mais pra ser mais amiga gratuitamente. Acho que tenho aprendido com as pessoas que não somos assim tão indispensáveis e especiais a ponto de achar que a nossa morte desestruturaria o universo. E que a perda é parte intrínseca ao nosso processo de crescimento e amadurecimento...
Agora chega. Quero escrever sobre coisas mais alegres.

Ps. Estou relendo o tratado, tem pontos que ainda não entendi muito bem...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

faraway, so close (ainda)

Da janela do meu quarto dá pra ver o pé de romã do jardim. Às vezes acordo e ouço os passarinhos que vêm bicar as romãs da árvore. Quando me vem assim esse não pensar em nada, penso que os passarinhos são os que mais se beneficiam do pé de romã da minha casa. Mal nasce e cresce uma fruta, lá vêm eles, ficam bicando a fruta até romper a casca pra poderem bicar os caroços, ou sementes, não sei bem. Penso assim que a romã é uma fruta estranha, tem muita casca e umas sementes rosadas dentro. Agrupadas. Não tem polpa e nem quase nada, só as sementes rosadas. E muita casca. Pra mim as sementes não têm muito sabor. Talvez para os passarinhos tenham, eles parecem gostar muito das sementinhas. Já a casca é poderosa medicina pra curar dor de garganta. Sempre passa muita gente em frente de casa e sempre que tem romã, pedem pra gente uma fruta. Pra fazer chá. É “tiro e queda”, dizem. Da casca é que se faz o chá. Casca seca. É um chá bem amargo, mas bastante bom, muito bom mesmo pra acabar com a dor de garganta, não precisa nem engolir, basta fazer gargarejo (palavrinha feia, eita!!!), as sementes só comi em dia de ano novo. Dizem que tem que comer sete, pra trazer sorte, o número acho que varia de acordo com a tradição, sei não. Estes são os usos da romã que conheço. Que a gente diz. De qualquer modo não conheço ainda ninguém que goste muito da fruta. Só os pássaros mesmo. Uns sabiás bem grandes que aparecem de vez em quando lá no pé. E também um beija-flor, este é mais raro, embora o pé tenha muitas flores. Só que são umas flores fechadinhas, alaranjadas, bonitinhas, nada de muito especial, sempre penso que o beija-flor é um pássaro muito exigente, gosta de flor bem vistosa. Quem sabe eu esteja enganada. Acho que fiquei pensando na utilidade do pé de romã porque não acho que ele seja bonito, não é como um ipê roxo ou amarelo que são minhas árvores preferidas. Daí pensei que se uma árvore não é assim bonita, de graça, tem que ter uma função. Mas não gosto deste pensamento utilitário. Porque as árvores podem simplesmente ser, sem ter ou dever ter uma coisa qualquer pra oferecer. Talvez eu esteja enganada. Mas são pensamentos que vêm e vão, quando fico assim, sem pensar em nada.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

far away, so close...

não vi o filme do wim wenders este ano, mas sonhei com ele, em especial com a parte do anjo que cuidava de alguém, ferido pela vida...
um anjo que aninhava no braço alguém alheado de fim, que é uma expressão linda linda do guimarães rosa, da qual gosto muito mesmo...
engraçado sonhar com filmes e literatura?, também sonho com personagens de novela, pessoas que vejo no metrô, gente que conheço que não conheço que pensei conhecer...

começar o ano e vir esta sensação de alheamento de fim me parece algo contraditório, mas é que não fiz planos ainda, não pensei em mudar nada, algumas coisas continuam da mesma forma que no ano passado... na verdade nem sei se precisamos mudar coisas todos os anos, fazer planos, não gosto de fazer planos, mas queria às vezes ter uma linha, como me disse alguém, pra depois poder sair dela...

vou então procurando minha linha, e sobretudo formas de se desviar dela...
não é a melhor forma de se começar um ano, mas me parece uma perspectiva, até porque é sempre proveitoso se ter perspectiva(s)...

sensação provisória para um post provisório prum começo provisório...