na China, o elefante é considerado um animal de altíssimas qualidades morais. dizem que o ato sexual entre elefantes ocorre somente na água, pois os elefantes, assim como os humanos, apreciam a privacidade. o efefante simboliza também a gratidão, a força e a astúcia; andar de elefante (qi-xiang), principalmente se for uma criança sobre o animal, simboliza felicidade (ji-xiang) e boa fortuna.
na Índia, o deus Ganesha possui corpo humano e a cabeça de um elefante, é o símbolo das soluções lógicas, da prosperidade, é considerado mestre do intelecto e da sabedoria; é o Deus da Boa Fortuna que proporciona prosperidade e fortuna e também o Destruidor de Obstáculos, sejam estes de ordem material ou espiritual, e é por este motivo que sua graça é invocada antes de se iniciar qualquer tarefa.
devem existir muitos outros cultos deste animal espalhados pelo mundo, não sei se em todas as mitologias ele é um símbolo positivo como nestas duas, sei que nos EUA ele é o símbolo do Partido Republicano, e talvez isso tenha algo que ver com o filme Elephant, de Gus Van Sant, que vi há tempos atrás e sempre fiquei tecendo considerações sobre, uma delas, talvez a mais recente, era um paralelo deste filme com High School Music, da Disney, que, não tendo nada em comum, têm tudo a ver...
bom, mas o elefantes que pensei hoje vieram de um guardanapo indiano que vi numa loja de artesanato, usado pra enfeitar tampas de caixinhas de madeira, pra guardar cacarecos (eu colocaria várias coisinhas, pedrinhas, sementes, palavras, moedas novas e antigas, achadas e ganhadas)... fiquei horas ali olhando os elefantinhos delicados, as cores das jóias que enfeitavam o animal, pensei o que poderia significar todos aqueles símbolos para esta cultura tão distante da minha... e nada mais... gostei do elefantinho, era só isso...
quinta-feira, 31 de maio de 2007
quarta-feira, 30 de maio de 2007
cenário...
andei procurando destinações... e também cenários pra compor um jogo literário...
eis o primeiro:
cenário: rua São Bento, destino: metrô São Bento,
tempo: cinco da tarde, dia nublado...
personagens: muitos, desde o começo da rua até a entrada do mosteiro...
a primeira, uma mulher jovem, olhos muito verdes debaixo de um cabelo vermelho furioso... distribuindo panfletos a favor da legalização do aborto. olhou pra minha roupa, que nesse dia era preta, como se ela me colocasse necessariamente a favor de seu discurso... peguei o panfleto debaixo da fúria dos seus olhos, sorri e disse "obrigada"...
em meio aos passantes me veio um coro estranho, algo parecido com "olhaotica, olhaotica", que aos poucos se confirmou: um olheiro que dizia a emblemática frase a um outro mais adiante que a transmitia a um próximo, até o café Girondino, (que exala um perfume maravilhoso em meio à correria dos meus dias cinzentos...), atenta ao rumoroso coro, procurando a destinação da frase, uma mulher tropeça em uma grade de cds deixada deitada ali no chão, xinga qualquer coisa que não entendo e o vendedor amavelmente responde que da próxima vez construiria uma passarela cheia de flores pra ela passar sossegadamente...
no fim da rua, em frente ou ao lado do café, muito moços com camisetas vermelhas por cima das roupas multicoloridas me convidavam a fazer um teste grátis de visão...
não sei bem se meus olhos enxergam bem, mas continuo meu caminho sem tropeços...
eis o primeiro:
cenário: rua São Bento, destino: metrô São Bento,
tempo: cinco da tarde, dia nublado...
personagens: muitos, desde o começo da rua até a entrada do mosteiro...
a primeira, uma mulher jovem, olhos muito verdes debaixo de um cabelo vermelho furioso... distribuindo panfletos a favor da legalização do aborto. olhou pra minha roupa, que nesse dia era preta, como se ela me colocasse necessariamente a favor de seu discurso... peguei o panfleto debaixo da fúria dos seus olhos, sorri e disse "obrigada"...
em meio aos passantes me veio um coro estranho, algo parecido com "olhaotica, olhaotica", que aos poucos se confirmou: um olheiro que dizia a emblemática frase a um outro mais adiante que a transmitia a um próximo, até o café Girondino, (que exala um perfume maravilhoso em meio à correria dos meus dias cinzentos...), atenta ao rumoroso coro, procurando a destinação da frase, uma mulher tropeça em uma grade de cds deixada deitada ali no chão, xinga qualquer coisa que não entendo e o vendedor amavelmente responde que da próxima vez construiria uma passarela cheia de flores pra ela passar sossegadamente...
no fim da rua, em frente ou ao lado do café, muito moços com camisetas vermelhas por cima das roupas multicoloridas me convidavam a fazer um teste grátis de visão...
não sei bem se meus olhos enxergam bem, mas continuo meu caminho sem tropeços...
domingo, 27 de maio de 2007
entre as palavras e as pessoas...
estava pensando nas esquisitices que costumo elogiar sempre por meio de palavras...
uma amiga me disse assim que não gosta quando uso palavras esquisitas pra exprimir uma inútil opinião forçosamente intelectualizada sobre uma coisa assim tão banal como um comentário sobre a vitrine de uma loja de noivas... o mesmo se uso palavras demasiadamente literárias pra dizer que gostei de um filme que vi ou uma canção que ouvi...
um outro amigo me tornou sua fã incondicional ao me escrever palavras doces e sedutoras, mágicas e confortáveis num dia de tão inesperada tristeza...
outro dia um moço me disse que as palavras são coisas do diabo, nada de manifestação divina... e sempre trazem consigo um equívoco, qualquer equívoco... e me fez triste com tantas outras palvras, que ainda não entendi...
um amigo poeta sempre usa palavras bonitas, às vezes díficeis, às vezes agressivas, às vezes sangrentas, pra exprimir qualquer doce encanto cotidiano, e quando fala usa todos os palavrões que dispõe no seu vasto vocabulário pra se pronunciar sobre qualquer coisa, por mais culta que seja...
outro dia usei dois palavrões se referindo a uma atitude bestial do meu irmão e e ele me respondeu despejando muitas palavras ofensivas, mas nenhum palavrão...
Manu vive me perguntando sobre palavras, aquelas que ela não sabe, aquelas que eu não sei, aquelas que querem dizer coisas diferentes do que parecem, aquelas que aparentemente não querem dizer nada...
vai entender que ciranda necessária é esta... vai pensar sem palavras pra ver... neste momento não encontro nenhuma palavra pra expressar minha imensa confusão diante das tão (des)necessárias palavras...
uma amiga me disse assim que não gosta quando uso palavras esquisitas pra exprimir uma inútil opinião forçosamente intelectualizada sobre uma coisa assim tão banal como um comentário sobre a vitrine de uma loja de noivas... o mesmo se uso palavras demasiadamente literárias pra dizer que gostei de um filme que vi ou uma canção que ouvi...
um outro amigo me tornou sua fã incondicional ao me escrever palavras doces e sedutoras, mágicas e confortáveis num dia de tão inesperada tristeza...
outro dia um moço me disse que as palavras são coisas do diabo, nada de manifestação divina... e sempre trazem consigo um equívoco, qualquer equívoco... e me fez triste com tantas outras palvras, que ainda não entendi...
um amigo poeta sempre usa palavras bonitas, às vezes díficeis, às vezes agressivas, às vezes sangrentas, pra exprimir qualquer doce encanto cotidiano, e quando fala usa todos os palavrões que dispõe no seu vasto vocabulário pra se pronunciar sobre qualquer coisa, por mais culta que seja...
outro dia usei dois palavrões se referindo a uma atitude bestial do meu irmão e e ele me respondeu despejando muitas palavras ofensivas, mas nenhum palavrão...
Manu vive me perguntando sobre palavras, aquelas que ela não sabe, aquelas que eu não sei, aquelas que querem dizer coisas diferentes do que parecem, aquelas que aparentemente não querem dizer nada...
vai entender que ciranda necessária é esta... vai pensar sem palavras pra ver... neste momento não encontro nenhuma palavra pra expressar minha imensa confusão diante das tão (des)necessárias palavras...
terça-feira, 22 de maio de 2007
primeira resposta à minha busca das coisas simples...
"observando o mar infinito, já me estava a abandonar ao mal-estar que o desengano provoca, quando uma nuvem azul desceu sobre mim e arrebatou-me para um sonho: e sonhei que te escrevia esta carta, e que eu não era o grego que partiu em busca do Ocidente e não voltou mais, mas que estava apenas a sonhá-lo". A. Tabucchi.minha euforia passou. não acabou, mas passou, confesso.
não quero mais estar confinada em mim, por isso, ao menos por hoje, preciso pensar um novo título pra este blog...
quem sabe abrir para as respostas singelas que me vêm bater à porta (quase) todos os dias...
uma delas, numa suave melodia, enquanto estava pensando na mulher de Porto Pim, qualquer localidade (desconhecida por mim) na Ilha dos Açores...
"Bom dia Senhorita, minha Roma a seduzir os Bárbaros.
Se ao invés de batalhas sangrentas esses povos tivessem feito amor, usaríamos a língua para coisas muito mais excitantes e prazerosas, além disso, eu teria menos resfriados.
Na verdade, os meus resfriados já passaram, agora sou um homem grego em formação, saudável como água de chuva no espírito.
Olha, não se engane, não sou confuso, nunca fui confuso, apenas, o modo como comunico minhas certezas é constituído de poesia concentrada, sabor frutas do norte, graviola, cupuaçu, açaí...
Estou tranqüilo, um monge tibetano no alto da montanha a observar o universo e a meditar sobre as possibilidades da carne.
Na quinta, aparentemente, estarei livre, estarei livre todos os dias, pois necessito disso para sobreviver, mas prefiro os fins de semana nos quais há
ócio e minha mente fica mais tranqüila - não a ponto de eu confundir isso
com normalidade.
não quero mais estar confinada em mim, por isso, ao menos por hoje, preciso pensar um novo título pra este blog...
quem sabe abrir para as respostas singelas que me vêm bater à porta (quase) todos os dias...
uma delas, numa suave melodia, enquanto estava pensando na mulher de Porto Pim, qualquer localidade (desconhecida por mim) na Ilha dos Açores...
"Bom dia Senhorita, minha Roma a seduzir os Bárbaros.
Se ao invés de batalhas sangrentas esses povos tivessem feito amor, usaríamos a língua para coisas muito mais excitantes e prazerosas, além disso, eu teria menos resfriados.
Na verdade, os meus resfriados já passaram, agora sou um homem grego em formação, saudável como água de chuva no espírito.
Olha, não se engane, não sou confuso, nunca fui confuso, apenas, o modo como comunico minhas certezas é constituído de poesia concentrada, sabor frutas do norte, graviola, cupuaçu, açaí...
Estou tranqüilo, um monge tibetano no alto da montanha a observar o universo e a meditar sobre as possibilidades da carne.
Na quinta, aparentemente, estarei livre, estarei livre todos os dias, pois necessito disso para sobreviver, mas prefiro os fins de semana nos quais há
ócio e minha mente fica mais tranqüila - não a ponto de eu confundir isso
com normalidade.
Ser normal é a condição básica de uma vida inexpressiva e previsível. Prefiro o novo, perigosamente desconhecido e inadaptável.
Prefiro a linguagem própria e indefinível da inadequação."
Prefiro a linguagem própria e indefinível da inadequação."
sábado, 19 de maio de 2007
trilha sonora...
ouvir seu jorge cantando bowie dentro de um filme do wes andersen... isso faz muito a minha cabeça... queen bitch e life on mars? além de rebel rebel...
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY&mode=related&search==
o primeiro filme que vi do andersen foi os tenenbauns, depois de muitas e muitas exibições pra mim mesma, sempre gostando muito da trilha sonora, vi o steve zissou. dentre as esquisitices e bizarrices em cenário kitsch, gosto mais dos ratinhos do primeiro... embora as versões pro bowie sejam da melhor qualidade possível e toquem a minha imaginação...
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY&mode=related&search==
o primeiro filme que vi do andersen foi os tenenbauns, depois de muitas e muitas exibições pra mim mesma, sempre gostando muito da trilha sonora, vi o steve zissou. dentre as esquisitices e bizarrices em cenário kitsch, gosto mais dos ratinhos do primeiro... embora as versões pro bowie sejam da melhor qualidade possível e toquem a minha imaginação...
sexta-feira, 18 de maio de 2007
beckettianas...
IMPROVISO DE OHIO.
SAMUEL BECKETT
O - Ouvinte
L - Leitor
Tão semelhantes quanto possível.Única parte iluminada, no centro do palco: uma mesa comum de pinho, de dois metros por um, aproximadamente.Duas cadeiras do mesmo tipo,de pinho, sem apoio para os braços.
O: sentado de frente na extremidade do lado comprido da mesa, à direita (com relação à sala). Cabeça inclinada, apoiada na mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.
L: sentado de perfil no meio do lado curto, à direita. Cabeça inclinada apoiada sobre a mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Diante dele, sobre a mesa, um livro aberto nas últimas páginas. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.No centro da mesa, um chapéu grande de feltro negro com abas largas.Aumentar lentamente a iluminação.Dez segundos.L vira a página.
Pausa.L: (lendo). Resta pouco a dizer. Numa última _
O bate com a mão esquerda sobre a mesa (Batida).
Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos por tanto tempo e se instalou num único cômodo, na outra margem. Pela única janela ele avistava rio abaixo a extremidade da Ilha dos Cisnes.
Pausa. Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Pausa. Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Em seus sonhos _
Batida. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Batida. Em seus sonhos ele tinha sido prevenido contra essa mudança. Tinha visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Podia ele _
Batida. Visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Batida. Podia ele agora voltar atrás? Reconhecer seu erro e voltar para onde outrora por tanto tempo eles foram dois a sós? Dois a sós tudo partilharam. Não. O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia nunca ser desfeito. Por ele a sós.
Pausa. Nesse extremo seu velho terror da noite voltou. Tanto tempo depois, como se nunca fora. (Pausa. Ele olha de mais perto.) Sim, tanto tempo depois, como se nunca fora. Redobrados agora os terríveis sintomas descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro. (Ele quer buscar o trecho. Com a mão esquerda, O o detém. Ele retoma a página abandonada.) Noites em claro doravante seu quinhão. Como quando seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do _(Ele vira a página) raiar do dia.
Pausa. Resta pouco a dizer. Uma noite _Batida. Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Uma noite em que estava sentado tremendo com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e lhe disse, Fui mandado por _e nomeou o nome querido_ a fim de te consolar. Depois, do bolso de seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até o raiar do dia. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Algum tempo depois ele reapareceu à mesma hora com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo sentou-se e leu-o até o fim durante toda a longa noite. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Assim de tempo em tempo de improviso ele reaparecia para reler até o fim a triste história e adormecer a longa noite. Depois desaparecia sem uma palavra.
Pausa. Sem jamais trocar uma única palavra eles se tornaram como que um só.
Pausa. Veio enfim a noite em que fechado o livro aos primeiros raios de luz ele não desapareceu mas ficou sentado sem uma palavra.
Pausa. Finalmente ele disse, Fui avisado _e nomeou o nome querido_ de que não voltaria mais. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Assim a triste _
Batida. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Batida. Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos não, não pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar. Nenhum ruído. Assim ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história uma última vez redita.
Pausa. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele quer fechar o livro.Batida. Livro ainda entreaberto. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele fecha o livro.Batida.Silêncio. Cinco segundos.Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham. Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação.
Tradução de LEYLA PERRONE-MOISÉS.
A primeira vez que li este texto tinha 19 anos... de lá pra cá já foram muitas e muitas releituras, mas sempre consigo encontrar algo de novo. Não é só um texto sobre a morte, é um texto sobre todos os fins e todos os começos. Sobre a impossibilidade de esquecer. sobre aquilo que sentimos ir e queremos manter... Acho que não temos muito tempo na vida pra permanecer apegados a algo, porque não permancemos... mas algumas coisão vão sempre estar conosco... e ouso dizer isso nesse tempo efêmero que vivemos, tempo sem um sempre... o meu sempre, o seu, o nosso...
além disso tem os abismos de consciência... e de inconsciência... meu estado permanente, meu ser abismado diante do nada profundo... esta sensação existia em mim antes desta leitura de Beckett, mas esta sempre me pareceu a expressão mais eficaz pra traduzir o meu vago existir...
SAMUEL BECKETT
O - Ouvinte
L - Leitor
Tão semelhantes quanto possível.Única parte iluminada, no centro do palco: uma mesa comum de pinho, de dois metros por um, aproximadamente.Duas cadeiras do mesmo tipo,de pinho, sem apoio para os braços.
O: sentado de frente na extremidade do lado comprido da mesa, à direita (com relação à sala). Cabeça inclinada, apoiada na mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.
L: sentado de perfil no meio do lado curto, à direita. Cabeça inclinada apoiada sobre a mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Diante dele, sobre a mesa, um livro aberto nas últimas páginas. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.No centro da mesa, um chapéu grande de feltro negro com abas largas.Aumentar lentamente a iluminação.Dez segundos.L vira a página.
Pausa.L: (lendo). Resta pouco a dizer. Numa última _
O bate com a mão esquerda sobre a mesa (Batida).
Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos por tanto tempo e se instalou num único cômodo, na outra margem. Pela única janela ele avistava rio abaixo a extremidade da Ilha dos Cisnes.
Pausa. Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Pausa. Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Em seus sonhos _
Batida. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Batida. Em seus sonhos ele tinha sido prevenido contra essa mudança. Tinha visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Podia ele _
Batida. Visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Batida. Podia ele agora voltar atrás? Reconhecer seu erro e voltar para onde outrora por tanto tempo eles foram dois a sós? Dois a sós tudo partilharam. Não. O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia nunca ser desfeito. Por ele a sós.
Pausa. Nesse extremo seu velho terror da noite voltou. Tanto tempo depois, como se nunca fora. (Pausa. Ele olha de mais perto.) Sim, tanto tempo depois, como se nunca fora. Redobrados agora os terríveis sintomas descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro. (Ele quer buscar o trecho. Com a mão esquerda, O o detém. Ele retoma a página abandonada.) Noites em claro doravante seu quinhão. Como quando seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do _(Ele vira a página) raiar do dia.
Pausa. Resta pouco a dizer. Uma noite _Batida. Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Uma noite em que estava sentado tremendo com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e lhe disse, Fui mandado por _e nomeou o nome querido_ a fim de te consolar. Depois, do bolso de seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até o raiar do dia. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Algum tempo depois ele reapareceu à mesma hora com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo sentou-se e leu-o até o fim durante toda a longa noite. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Assim de tempo em tempo de improviso ele reaparecia para reler até o fim a triste história e adormecer a longa noite. Depois desaparecia sem uma palavra.
Pausa. Sem jamais trocar uma única palavra eles se tornaram como que um só.
Pausa. Veio enfim a noite em que fechado o livro aos primeiros raios de luz ele não desapareceu mas ficou sentado sem uma palavra.
Pausa. Finalmente ele disse, Fui avisado _e nomeou o nome querido_ de que não voltaria mais. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Assim a triste _
Batida. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Batida. Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos não, não pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar. Nenhum ruído. Assim ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história uma última vez redita.
Pausa. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele quer fechar o livro.Batida. Livro ainda entreaberto. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele fecha o livro.Batida.Silêncio. Cinco segundos.Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham. Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação.
Tradução de LEYLA PERRONE-MOISÉS.
A primeira vez que li este texto tinha 19 anos... de lá pra cá já foram muitas e muitas releituras, mas sempre consigo encontrar algo de novo. Não é só um texto sobre a morte, é um texto sobre todos os fins e todos os começos. Sobre a impossibilidade de esquecer. sobre aquilo que sentimos ir e queremos manter... Acho que não temos muito tempo na vida pra permanecer apegados a algo, porque não permancemos... mas algumas coisão vão sempre estar conosco... e ouso dizer isso nesse tempo efêmero que vivemos, tempo sem um sempre... o meu sempre, o seu, o nosso...
além disso tem os abismos de consciência... e de inconsciência... meu estado permanente, meu ser abismado diante do nada profundo... esta sensação existia em mim antes desta leitura de Beckett, mas esta sempre me pareceu a expressão mais eficaz pra traduzir o meu vago existir...
terça-feira, 15 de maio de 2007
jogo do reverso...
“O leitor de contos policiais é alguém que lê com incredulidade, com desconfiança, uma desconfiança especial”. J. L. Borges.
Borges afirma, em um estudo sobre o conto policial, que o gênero policial nasce com E. A. Poe, que postulando a idéia de literatura como um fato intelectual, cria uma tradição do conto policial, em que um mistério é desvendado por obra da inteligência, através de uma operação de inteligência.
De acordo com Borges, Poe não queria que o gênero policial fosse algo realista, mas sim que fosse um gênero intelectual associado ao elemento fantástico. Assim o próprio Poe, segundo Borges, deveria ser considerado um escritor de contos fantásticos. O conto policial enquanto gênero intelectual, seria baseado em algo totalmente fictício. Neste tipo de conto, um crime é desvendado por alguém que raciocina de forma totalmente abstrata e não com base em delações, ou em descuidos cometidos pelos criminosos. Há ainda a idéia de se esconder algo de forma visível, de fazer com que algo se torne tão visível que ninguém o encontre, presente, por exemplo, na novela A carta roubada de Poe.
O que mais me atrai no gênero policial é a brincadeira com enigmas. A lógica destes enigmas é sempre a chave para a compreensão de toda a narrativa. É também um exercício do leitor, de adentrar a narrativa tentando achar respostas. Embora esta lógica, para Borges, acabe por destruir mesmo aquilo que o Poe pensou quando "inventou" o gênero, é ela que aprisiona o leitor, que faz com que ele busque saídas, como se a leitura fosse sempre um quebra-cabeça. Talvez nós, leitores contemporâneos, tenhamos mesmo um pouco de dificuldade em abrir mão desta lógica que rege o universo literário. Herança do positivismo. Mas ao mesmo tempo, há quem busque neste tipo de leitura "racionalística", uma descontrução da própria "verossimilhança". Como se fôssemos mais personagens que leitores. Afirmando, por exemplo, aquilo que o Borges diz, na sua idéia meio ao contrário que os leitores dos contos policiais é que são a criação de Poe.
Borges afirma, em um estudo sobre o conto policial, que o gênero policial nasce com E. A. Poe, que postulando a idéia de literatura como um fato intelectual, cria uma tradição do conto policial, em que um mistério é desvendado por obra da inteligência, através de uma operação de inteligência.
De acordo com Borges, Poe não queria que o gênero policial fosse algo realista, mas sim que fosse um gênero intelectual associado ao elemento fantástico. Assim o próprio Poe, segundo Borges, deveria ser considerado um escritor de contos fantásticos. O conto policial enquanto gênero intelectual, seria baseado em algo totalmente fictício. Neste tipo de conto, um crime é desvendado por alguém que raciocina de forma totalmente abstrata e não com base em delações, ou em descuidos cometidos pelos criminosos. Há ainda a idéia de se esconder algo de forma visível, de fazer com que algo se torne tão visível que ninguém o encontre, presente, por exemplo, na novela A carta roubada de Poe.
O que mais me atrai no gênero policial é a brincadeira com enigmas. A lógica destes enigmas é sempre a chave para a compreensão de toda a narrativa. É também um exercício do leitor, de adentrar a narrativa tentando achar respostas. Embora esta lógica, para Borges, acabe por destruir mesmo aquilo que o Poe pensou quando "inventou" o gênero, é ela que aprisiona o leitor, que faz com que ele busque saídas, como se a leitura fosse sempre um quebra-cabeça. Talvez nós, leitores contemporâneos, tenhamos mesmo um pouco de dificuldade em abrir mão desta lógica que rege o universo literário. Herança do positivismo. Mas ao mesmo tempo, há quem busque neste tipo de leitura "racionalística", uma descontrução da própria "verossimilhança". Como se fôssemos mais personagens que leitores. Afirmando, por exemplo, aquilo que o Borges diz, na sua idéia meio ao contrário que os leitores dos contos policiais é que são a criação de Poe.
domingo, 13 de maio de 2007
não tem por onde e nem tem porquê, mas precisa?
desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são... obrigação, convenção. isso me vem sempre a cabeça cada vez que um amigo por qualquer motivo me diz essa palavra: desculpa, penso: é mesmo necessário?...
quanto tempo temos antes de chegarem aquelas ondas...
mas será que a sorte virá? mágico teatro.
qualquer canção... entre as muitas ouvidas e reouvidas nesta última semana. o teatro mágico. realejo. os versos todos com muita doçura, talvez já na simples doçura que evoca a palavra realejo, entre as coisas singelas, entre os acordes melódicos que necessitamos... nenhum medo que possa contar...
ando com dificuldades em não fragmentar todo e qualquer pensamento. toda e qualquer canção. o mundo me chega em muitas partes.
quanto tempo temos antes de chegarem aquelas ondas...
mas será que a sorte virá? mágico teatro.
qualquer canção... entre as muitas ouvidas e reouvidas nesta última semana. o teatro mágico. realejo. os versos todos com muita doçura, talvez já na simples doçura que evoca a palavra realejo, entre as coisas singelas, entre os acordes melódicos que necessitamos... nenhum medo que possa contar...
ando com dificuldades em não fragmentar todo e qualquer pensamento. toda e qualquer canção. o mundo me chega em muitas partes.
domingo, 6 de maio de 2007
entre linhas...
meu amigo poeta me escreveu estes versos delicados... resolvi colocar na minha coleção de pensamentos singelos... é a vida toda.
uma
gota d'agua
caída no alçar da rede de um pescador...
é toda a vida.
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