andando pela avenida paulista com um amigo e falando sobre coisas amenas ele me diz assim num susto que eu era arrogante, mas que entendia afinal a inteligência me autorizava... me senti muito ofendida e um pouco triste, afinal faço todo dia exercícios pra me desapegar de mim, e me torno cada dia mais "eu"?!
um moço que escreve muito bem e é muito inteligente escreveu assim que ser interessante autoriza certas escolhas...por exemplo, a exclusão da mediocridade...
ao final das contas pensei então que a arrogância é a mediocridade da inteligência, principalmente dessa nossa inteligência social e artificialmente construída... um pensamento ruim pra um começo de domingo outonal...
domingo, 29 de abril de 2007
quinta-feira, 26 de abril de 2007
duas aprendizagens...entre idas e vindas...
duas aprendizagens: a dos prazeres violentos e a dos prazeres singelos.
dois estilos masculinos de escrita: o primeiro violento, cruel, sanguinário, irônico, malandro, homem; a escolha tem a ver com o fato de que eu estava tentando entender o que é um homem, passei o ano todo lendo Rubem Fonseca, não descobri o que era um homem, mas ri muito, e sentia que odiava e amava todos os homens de Fonseca ao mesmo tempo...
depois descobri um certo Antonio, o Tabucchi: sutil, irônico, às vezes; violento, às vezes; homem, inconfundível; me faz chorar muito, me faz rir com certa ternura no coração.
a busca da expressão mais simples: depois do turbilhão sem cura Rubem Fonseca, gosto quando o Antonio, o Tabucchi, me mostra o caos, e aponta para uma portinha.
Antonio della Rosa: sempre quis saber se você tinha olhos para ouvir...me diga...e sempre quis saber se você tinha ouvidos para ver...sente? não durmo não como não toco não sinto e não pego... o que foi que você fez? e por que fez isso? por que foi passar por ali, naquele beco sem rua, naquela noite sem gato?
"o mundo é um moinho, vai triturar os teus sonhos tão mesquinhos".
dois estilos masculinos de escrita: o primeiro violento, cruel, sanguinário, irônico, malandro, homem; a escolha tem a ver com o fato de que eu estava tentando entender o que é um homem, passei o ano todo lendo Rubem Fonseca, não descobri o que era um homem, mas ri muito, e sentia que odiava e amava todos os homens de Fonseca ao mesmo tempo...
depois descobri um certo Antonio, o Tabucchi: sutil, irônico, às vezes; violento, às vezes; homem, inconfundível; me faz chorar muito, me faz rir com certa ternura no coração.
a busca da expressão mais simples: depois do turbilhão sem cura Rubem Fonseca, gosto quando o Antonio, o Tabucchi, me mostra o caos, e aponta para uma portinha.
Antonio della Rosa: sempre quis saber se você tinha olhos para ouvir...me diga...e sempre quis saber se você tinha ouvidos para ver...sente? não durmo não como não toco não sinto e não pego... o que foi que você fez? e por que fez isso? por que foi passar por ali, naquele beco sem rua, naquela noite sem gato?
"o mundo é um moinho, vai triturar os teus sonhos tão mesquinhos".
domingo, 22 de abril de 2007
fim de domingo...
fim de domingo é bom pra ir ao cinema, ao teatro, pra ver os amigos... domingo passado quando voltava do teatro com um amigo, ele me contava dos motivos porque havia terminado com fulana, que era tão doce e meiga, e pegava na mão dele assim, sem querer cruzar os dedos, isso era muito obsceno... ele dizia que terminara com a ex-mulher por uma série x de motivos, uma certa atitude que, com o passar de anos, tornaram-se neuras de casal, então, porque vira nessa moça meiga certo gesto e a mesma fala, terminou, assim, de uma maneira meio abjeta...triste, por isso briguei com ele, me senti agredida, lembrei de um ex que terminara do mesmo jeito comigo... cumplicidade feminina, e disse pior, que ele agia como um daqueles homens que aos cinquenta começam a procurar meninas de vinte. então o furioso foi ele: por que precisamos nós dar nomes aos bois?, rotular, encaixar uma pessoa num perfil genérico?, ele, como eu, daí concordamos, odeia as pessoas que têm certeza de tudo que dizem ou fazem... e me disse que essa era uma das atitudes que o levaram a deixar a mulher... estive lendo em algum lugar, certo menino que escreveu assim que a inteligência dá o direito de se exigir mais, de se esperar mais do outro e de se escolher melhor, a mediocridade, ao invés, conforma.
acho que não entendo de homens e nem de mulheres, só que no meu desejo de simplificação, no ano do meu desejo de simplificação, gostaria que a palavra arrogância fosse superada, e que a minha inteligência me ajudasse a encontrar palavras mais simples, um querer mais simples, um viver mais simples... e que a minha simplificação da coisas não soasse nunca como mediocridade, mas como o primeiro passo para se ter uma vida melhor vivida, porque não quero viver de erros, de equivocos, mas eles estão em mim por toda parte, e ao redor de mim, me perguntam sem fim se eu fosse inteligente, se eu fosse mulher, se eu fosse forte, se eu fosse... acho que eu quero, como naquela canção, ter sorte na vida, e aprender com cada partida, cada despedida, e cada chegada... ter vinte e nove amigos outra vez...
acho que não entendo de homens e nem de mulheres, só que no meu desejo de simplificação, no ano do meu desejo de simplificação, gostaria que a palavra arrogância fosse superada, e que a minha inteligência me ajudasse a encontrar palavras mais simples, um querer mais simples, um viver mais simples... e que a minha simplificação da coisas não soasse nunca como mediocridade, mas como o primeiro passo para se ter uma vida melhor vivida, porque não quero viver de erros, de equivocos, mas eles estão em mim por toda parte, e ao redor de mim, me perguntam sem fim se eu fosse inteligente, se eu fosse mulher, se eu fosse forte, se eu fosse... acho que eu quero, como naquela canção, ter sorte na vida, e aprender com cada partida, cada despedida, e cada chegada... ter vinte e nove amigos outra vez...
quarta-feira, 18 de abril de 2007
brincadeira de roda...
se eu fosse um escritor agora queria ser Antonio Tabucchi, pra dizer com todas as suas letras que meu maior desejo agora é aquele de Simplificação, um pouco mais abaixo... é que minha vida ainda está tentando encontrar uma expressão mais simples, como diz, não o escritor, mas o professor-compositor. Acontece que também queria ser Beckett, e dizer em meio ao des-espero de suas-minhas personagens, que algo ou alguém há de vir, vai chegar e que juntos, poderão visitar algumas das cidades invisíveis de Calvino, e que diante da imprecisão das curvas e modos estranhos de se olhar e se viver, poderão sentir-se um pouco como as personagens pirandellianas, abismadas e sem saber onde como quando e porquê, mas que sim, que existem, fixadas ali, imunes ao tempo. O tempo é o sempre da Simplificação. Acontece que se eu escrevesse poesia, isso seria bem menos provável, queria ser também um leitor, paradoxalmente, para escrever, como Pessoa, que não tenho certeza de nada, sendo talvez menos certo ou mais errado, ou mais certo e menos errado, ou nem certo nem errado, e me ler, inadivertidamente. Então preferiria ser uma personagem, como aquela de Tabucchi que é um ator que interpreta dentro de um hospício Pessoa esperando uma ligação de Pirandello. Que não vem... porque Pirandello está procurando no universo calviniano um ponto seguro, não infernal, porque os infernos, ele bem sabe, estão por toda parte, e ele, como qualquer escritor, leitor, ou personagem, precisa descobrir, em meio ao caos, sendo dele filho, o que não é inferno... e então é o fim, o ator é sempre um fingidor, finge que é um poeta que finge que espera uma ligação que não vem... como numa brincadeira de roda... em que giram leitores, escritores, personagens, vida, ficção, ficção vida...
segunda-feira, 16 de abril de 2007
sobre um poema que não entendi...
"Passei horas pensando um verso que a pena não quer escrever..." C.D. Andrade.
mas não é esse o poema que não entendi... este é um daqueles que se imortalizaram no meu repertório de leitor... o poema que não entendi ainda não foi inteiramente escrito... está em processo, diz alguma coisa sobre nunca perder em si mesmo a "qualidade do afago", e o poeta ainda não se fez, está se fazendo...mas cada dia se faz melhor, entre durezas e afagos... mescla de dor à moda de Plínio Marcos e segredos especulares borgianos, alguma coisa assim, cada poeta é um leitor e traz naquilo que escreve marcas daquilo que leu, bem lido, mas só se as leituras, sejam de livros, sejam de vida, tenham ficado arraigadas na pele e na alma...assim é o meu poeta, ainda cambaleante, ainda fugindo, ainda dizendo eu sou, pra depois não ser, ou ser mais ainda...
mas não perdendo nunca, em meio a dureza das pedras que rolam, a qualidade doce do afago...
"o verso está cá vivo"
há de sair, eu sei...
eu hei de entender um dia...
mas não é esse o poema que não entendi... este é um daqueles que se imortalizaram no meu repertório de leitor... o poema que não entendi ainda não foi inteiramente escrito... está em processo, diz alguma coisa sobre nunca perder em si mesmo a "qualidade do afago", e o poeta ainda não se fez, está se fazendo...mas cada dia se faz melhor, entre durezas e afagos... mescla de dor à moda de Plínio Marcos e segredos especulares borgianos, alguma coisa assim, cada poeta é um leitor e traz naquilo que escreve marcas daquilo que leu, bem lido, mas só se as leituras, sejam de livros, sejam de vida, tenham ficado arraigadas na pele e na alma...assim é o meu poeta, ainda cambaleante, ainda fugindo, ainda dizendo eu sou, pra depois não ser, ou ser mais ainda...
mas não perdendo nunca, em meio a dureza das pedras que rolam, a qualidade doce do afago...
"o verso está cá vivo"
há de sair, eu sei...
eu hei de entender um dia...
sexta-feira, 6 de abril de 2007
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Schiele por Rubem Fonseca

As imagens de Schiele me foram apresentadas por Rubem Fonseca. Lendo A Santa de Schöneberg, um de meus contos preferidos, deparei com a descrição da figura de Edith: "Na parede uma enorme reprodução de uma pintura a óleo de uma mulher de pernas abertas e meias grossas escuras e blusa escura. Reconheci o quadro. Sitzende Frau mit hochgezogen Knie."
depois vi as pinturas em sites da net, e a paixão de Schiele me dominou também. Foi um pintor ousado e sua vida bastante instigante e insólita.
Suas figuras me tocam profundamente mas a primeira e a preferida ,esta que li em Fonseca, se fixou em mim e me vem quase como se fosse a própria face do pintor.
depois vi as pinturas em sites da net, e a paixão de Schiele me dominou também. Foi um pintor ousado e sua vida bastante instigante e insólita.
Suas figuras me tocam profundamente mas a primeira e a preferida ,esta que li em Fonseca, se fixou em mim e me vem quase como se fosse a própria face do pintor.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
leituras tabucchianas - pra começo de conversa...
"Più che un rammarico per quanto ho scritto è un rimpianto per ciò che non potrò mai leggere". A. Tabuchi.
Mais do que um lamento por aquilo que escrevi é uma nostalgia por aquilo que não poderei nunca ler...
saudade do que nunca vivi? Tabucchi conhece bem o significado da palavra saudade, disse em algum lugar que sente como realidade aquilo que escreve, viver não é o importante, o importante é o que escreve, porque, de certa forma também é vida...
engraçado como um autor entra na nossa vida e se instala e a muda completamente....Tabucchi entrou na minha faz uns três ou quatro meses... entrou como se fosse um pequeno engano sem importância...
"Mas o que poderia dizer-lhes, que se tratava de um pequeno engano sem remédio? porque enquanto pensava nisso, pensei também que tudo era realmente un enorme pequeno engano sem remédio que a vida estava levando embora, agora as partes estavam decididas e era impossível não recitá-las; e eu também, que tinha vindo com meu bloquinho de notas e também o meu simples olhar voltado àqueles que recitavam suas partes, também a minha era uma parte, e nisso consistia a minha culpa, no estar no jogo, porque não se pode subtrair-se a nada e se tem culpa de tudo, cada um a seu modo. E então me veio um grande cansaço e uma espécie de vergonha, e junto me veio uma idéia que tomou posse de mim e que eu não soube decifrar; algo que poderia chamar o desejo de Simplificação. Em um segundo, seguindo um novelo que estava se desenrolando com a velocidade de uma vertigem, entendi que estávamos ali devido a uma coisa que se chama Complicação, e que por séculos, por milênios, per milhões de anos ela condensou, camada sobre camada, circuitos sempre mais complexos, sistemas sempre mais complexos, até formar isto que agora somos e isto que estamos vivendo. E me veio a nostalgia da Simplificação, como se os milhões de anos que produziram os seres... estes milhões de anos por sortilégio se dissolvessem em um cisco de tempo feito de nada..."
de: "Piccoli equivoci senza importanza" (tradução minha).
é o jogo das partes, que cada um recita ao seu modo... pirandelliano, não? é também a busca da expressão mais simples... é também o mito de eterno retorno... são as fagulhas de pensamento que me vêm quando leio e escrevo...
há dias que tenho pensado no título de um filme que gosto muito: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e há dias que tenho pensado que minha memória das coisas é que me faz sentir que vivo... não sei porque, não é o presente que me angustia ou a incerteza de um futuro, mas é o desprender-se sem fim da vida a cada segundo, a impossibilidade de reter um segundo que acabou de passar... novamente a possibilidade da perda, que me assalta, me faz refém, não me deixa viver o que tenho... seja lá o que for...
Mais do que um lamento por aquilo que escrevi é uma nostalgia por aquilo que não poderei nunca ler...
saudade do que nunca vivi? Tabucchi conhece bem o significado da palavra saudade, disse em algum lugar que sente como realidade aquilo que escreve, viver não é o importante, o importante é o que escreve, porque, de certa forma também é vida...
engraçado como um autor entra na nossa vida e se instala e a muda completamente....Tabucchi entrou na minha faz uns três ou quatro meses... entrou como se fosse um pequeno engano sem importância...
"Mas o que poderia dizer-lhes, que se tratava de um pequeno engano sem remédio? porque enquanto pensava nisso, pensei também que tudo era realmente un enorme pequeno engano sem remédio que a vida estava levando embora, agora as partes estavam decididas e era impossível não recitá-las; e eu também, que tinha vindo com meu bloquinho de notas e também o meu simples olhar voltado àqueles que recitavam suas partes, também a minha era uma parte, e nisso consistia a minha culpa, no estar no jogo, porque não se pode subtrair-se a nada e se tem culpa de tudo, cada um a seu modo. E então me veio um grande cansaço e uma espécie de vergonha, e junto me veio uma idéia que tomou posse de mim e que eu não soube decifrar; algo que poderia chamar o desejo de Simplificação. Em um segundo, seguindo um novelo que estava se desenrolando com a velocidade de uma vertigem, entendi que estávamos ali devido a uma coisa que se chama Complicação, e que por séculos, por milênios, per milhões de anos ela condensou, camada sobre camada, circuitos sempre mais complexos, sistemas sempre mais complexos, até formar isto que agora somos e isto que estamos vivendo. E me veio a nostalgia da Simplificação, como se os milhões de anos que produziram os seres... estes milhões de anos por sortilégio se dissolvessem em um cisco de tempo feito de nada..."
de: "Piccoli equivoci senza importanza" (tradução minha).
é o jogo das partes, que cada um recita ao seu modo... pirandelliano, não? é também a busca da expressão mais simples... é também o mito de eterno retorno... são as fagulhas de pensamento que me vêm quando leio e escrevo...
há dias que tenho pensado no título de um filme que gosto muito: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e há dias que tenho pensado que minha memória das coisas é que me faz sentir que vivo... não sei porque, não é o presente que me angustia ou a incerteza de um futuro, mas é o desprender-se sem fim da vida a cada segundo, a impossibilidade de reter um segundo que acabou de passar... novamente a possibilidade da perda, que me assalta, me faz refém, não me deixa viver o que tenho... seja lá o que for...
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