sexta-feira, 30 de julho de 2010

estranha função da arte...

é aquela de levar o acaso às pessoas por acaso, porque no mundo tudo é acaso.
Tabucchi

o não dito...

esta noite você chegou e queria me dizer algo,
trouxe sua mulher também,
você a trouxe para me dizer que a deixava, como se ela nunca tivesse sido sua...
e a deixava assim sentada à minha mesa, toda despenteada, esperando que você preparasse o jantar...
eu não estava mais com raiva, tanto tempo passou, não existe mais raiva, nem em mim, nem em você, nem mesmo nela...
agora nos queríamos bem, éramos irmãs agora,
as duas abandonadas, sentadas à mesa, esperando o jantar, sem nenhuma raiva para enraivecer...
a figura dela agora me parecia cômica, uma comicidade ligeira, um pouco lúdica talvez.
era meu espelho.
e você sério queria me dizer algo,
de onde vem esta seriedade?
era aquilo que sempre esperei ouvir você dizer,
e não dizia, eu queria ouvir, esperava que você dissesse,
e continuava sem dizer, sugeria apenas...
seu corpo me dizia algo, seu silêncio me dizia algo, seu riso frouxo me dizia algo.
sua seriedade adquirida dizia algo.
você não dizia nada.
aos poucos eu me serenava e esperava.

agora não estava mais casado, estava deixando a mulher, ou era ela quem deixava você,
agora você podia ficar aqui comigo, estávamos desimpedidos, livres,
agora você poderia ficar, poderia dizer tudo o que quisesse.
me sentia alegre pela sua presença tão esperada
e esperava ouvir suas palavras, suas histórias, suas idas e vindas
palavras que você sempre poderia dizer, poderia ter dito,
não fosse o não dito.