sexta-feira, 21 de maio de 2010

o episódio do livro...

Versão dele: sem perceber ela passou por mim. Ela nunca percebia nada, apressada que era. Deixou cair um livro de contos do Fonseca. Peguei. Tinha uns contos sublinhados. “A santa de Schöneberg”. Dentro um recorte com a figura da Edith, de Schiele. Estávamos fazendo literatura brasileira juntos, pensei, e eu estava pensando em analisar as referências à Schiele neste conto. Quando nos encontramos, alguns minutos depois, no intervalo, ela se mostrou muito feliz por eu ter devolvido o livro e perguntou se eu não queria fazer o trabalho em grupo, já que estávamos pensando em fazer sobre o mesmo conto.

Versão dela: eu esqueci meu livro do Fonseca com anotações pro trabalho final na sala de literatura. Quando voltei pra buscar, dei de cara com aquele cretino lendo minhas notas. Essa gente da Letras nunca tem idéias próprias vive de citações alheias. Quando cheguei perto, tomei o livro das mãos dele dizendo, isso tem dono. Ele disse que eu era uma grossa e que ia me devolver na aula seguinte, estava buscando alguma identificação.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

desfechos...

Terceira possibilidade: (nenhuma recomendação).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, dos encontros e dos cafés, eles acharam toda a situação uma coincidência, uma mensagem do acaso, carregada de significados e sentidos, que só muito depois descobririam, eram arbitrários, e resolveram se conhecer um pouco mais. Ela, dizia, acreditava pouco no acaso, mas ele descobriria depois, que ela só saía de casa pensando que tudo, de repente, pode acontecer fora dos padrões de conduta do dia original. Ele nunca fora pragmático, embora fosse homem, deixava se conduzir às vezes por caminhos desconhecidos. Ela gostava de ler o horóscopo, embora quando alguém a visse lendo, disfarçava e comentava algo sobre o clima indecifrável da cidade. Ele ria da desfaçatez dela, achava encantador que as mulheres fossem mais místicas e incoerentes. E então apostaram na durabilidade do transitório. Existem finais que podem sim ser felizes, na contramão das circunstâncias, mentiras que podem permanecer e ser constantemente reinventadas. Mesmo na adversidade metropolitana, cosmopolita, mesmo com todos os desencontros, com todo o tráfego, enfim. Afinal a história ainda está por terminar, de modo que todas as escolhas ainda estão por se fazer.

desfechos...

Segunda possibilidade: (recomendável, porém, possui implicações sombrias, já que a vida funciona aqui como um supermercado, cada um paga no caixa pelo produto que escolhe, e depois joga fora a mercadoria que não traz mais benefícios).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, eles se sentiram infantis por brigarem por um trabalho de faculdade, resolveram fazer um seminário juntos, o professor gostou da idéia, marcou conversas depois das aulas, incentivou os alunos, já que gostava do tema, e eles se encontraram algumas vezes, descobriram outros interesses comuns, eram parecidos, leituras parecidas, histórias afins, e tomaram cafés, e se visitaram nos fins de semana, porque ela trabalhava muito, e surgiu algum afeto, insistiram numa aproximação, num encontro, numa história, que foi breve, muito breve, no semestre seguinte, já nem se olhavam, entediados de tanta conversa sobre literatura...

desfechos...

Primeira possibilidade: (altamente recomendável).

Depois do episódio do livro, do enfrentamento, eles disputaram por uma nota, e quando o professor devolveu os trabalhos, ficaram enciumados e nunca mais se falaram. Sempre se viram pelos corredores durante os anos de faculdade, mas fingiam que não se viam, voltavam os rostos pra outra direção, mas nos desejos intermitentes, por algumas vezes, sonharam um com o outro, e idealizaram um ao outro, e se sentiram sós, e começaram a escrever um ao outro, mas logo depois apagaram, desesperançosos e desesperançados. Na alma, só uma vaga tristeza que vinha da des-esperança...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

se um viajante...

"Escrever é sempre ocultar uma coisa de modo que depois seja descoberta"
escreveu Italo Calvino em Se um viajante numa noite de inverno
(que é um dos títulos que melhor traduz, na minha opinião, o que é um leitor)
Escrever, para mim, é minha única salvação.
Sei lá se esta frase não é da Clarice, Bem que me parece.
Sei lá também se existe algum caminho entre a descoberta e a salvação.
Ou quem sabe se não é a própria escrita o caminho do meio... vai saber...

terça-feira, 4 de maio de 2010

desvãos

desvãos, assim no plural,
sonhei com essa palavra hoje,
sonhei que estava morrendo enquanto dormia e que meu coração batia tão forte que ia estourar, e minha mão tremia, e eu acordava e dizia, não, não é hora ainda de partir, entrava em vãos, desvãos...
uma menina muito bonita vinha ao meu encontro, mas não sei quem era ela, talvez alguém que conheci um dia,
e uma corrente de vento me puxava pra cima, me desintegrava aos poucos e ela permanecia lá embaixo e se vestia de preto, junto com outra, e as duas tinham cabelos castanhos longos, e eu subia, mas não queria me desintegrar, e uma areia escorria de mim, ficava uma fumaça escura e acordei, o coração batia forte...
era uma vertigem dolorosa.

domingo, 2 de maio de 2010

o rancor e as nuvens...

Posso começar este post dizendo que tenho sim um amigo "eremita". Me parece que ele sai pouco de casa, em geral fica lá cercado de livros, lê muita ficção, usa um moleton folgado e uma blusa de lã preta, deixou a barba crescer e agora fuma cachimbo. Nos seus quase trinta anos, às vezes me parece um velhinho.
Sempre que o visito penso que ele é uma espécie de oráculo, pois ele sempre me dá um enigma pra levar pra casa e pensar. Ontem me falou de duas palavras quase contraditórias: do rancor e das nuvens.
Levei a noite toda pensando na relação entre elas. Ainda não sei se decifrei...
Descobri que o rancor é uma mágoa profunda, que permanece, a gente perde muito tempo da vida pensando na dor que sofremos e deixamos de viver coisas melhores.
Talvez porque as nuvens passem, sejam assim o oposto do rancor...
nuvem-esquecimento,
nuvem-alívio...
Acho que ainda não sei, mas prefiro as nuvens...

Nesse tempo sem medida, de coisas que permanecem e outras que se vão, meu amigo eremita me disse que sempre tentou depender pouco das pessoas, mas isso é bastante difícil. Disso entendi também que ele julga pouco as atitudes e os sentimentos de casa um. É difícil ouvir dele um qualificativo pra qualquer pessoa que seja. Enquanto nós, meros mortais, nos desfazemos em julgamentos... acho que passamos um bom tempo pensando sobre nossas próprias razões e esquecemos de tentar compreender a razão dos outros...

Enfim, acho que as duas palavras do meu amigo se multiplicaram e me deram mais duas pra tentar decifrar e aprender para os próximos 10 anos: compreender e perdoar.

"De que coisa se formam os nossos poemas? onde?
Qual sonho envenenado responde a eles,
se o poeta é um ressentido, e o resto são nuvens?"
Antonio Tabucchi.