sábado, 29 de agosto de 2009
a palavra equívoco...
preciso me convencer todos os dias de que as palavras são um mundo a parte, um mundo de equivocos, talvez, e não expressam minha vida...
são, talvez, um modo que uso para representá-la,
a vida, na verdade, é muito maior,
a vida de qualquer ser humano é muito maior,
as palavras são muitas, mas não apreendem tudo,
as palavras são um meio e não um fim,
são uma jaula, nos fixam, nos determinam, nos perturbarm...
tenho que me convencer todos os dias que devo fazer tudo ao contrário do que leio ou escrevo, porque as palavras não podem me encaixar, me aprisionar, me fazer supor que são a derradeira e única verdade possível...
preciso acreditar que escrever é ser um pouco como o poeta fingidor do Pessoa, aliás o único modo de escrever é este, fingindo a dor que de verdade sentimos,
seria ilusão supor que qualquer palavra escrita traga em si a completude do que é uma vida...
tenho que manifestar todos os dias o meu profundo desalento quando uma palavra decide se soprepor a todo e qualquer gesto, a todo e qualquer sentimento, a toda e qualquer vontade...
preciso repetir cem mil vezes que nehuma palavra há de decidir por mim o meu caminho, determinar a minha escolha, gravar sua força em mim e me direcionar conforme os seus caprichos...
preciso acreditar que no labirinto que elas me constroem todos os momentos, há sempre um ponto de fuga, que me leva pra fora deste mundo enclausurado,
que existem túneis que me levam pra fora deste universo sombrio e compacto que é a palavra...
e quando o silêncio não puder me falar por si mesmo,
ou eu não puder restar em silêncio para então ouvi-lo,
que eu aprenda a usar uma única palavra, aquela que me salva de mim,
talvez a palavra perfeita não exista e por isso nenhuma outra deve ser encunciada como perfeição, mas que exista uma palavra que nos salve do abismo,
porque se dizer uma palavra é fazer acontecer,
e se existe algo que não deva acontecer, que não seja, portanto, dito.
são, talvez, um modo que uso para representá-la,
a vida, na verdade, é muito maior,
a vida de qualquer ser humano é muito maior,
as palavras são muitas, mas não apreendem tudo,
as palavras são um meio e não um fim,
são uma jaula, nos fixam, nos determinam, nos perturbarm...
tenho que me convencer todos os dias que devo fazer tudo ao contrário do que leio ou escrevo, porque as palavras não podem me encaixar, me aprisionar, me fazer supor que são a derradeira e única verdade possível...
preciso acreditar que escrever é ser um pouco como o poeta fingidor do Pessoa, aliás o único modo de escrever é este, fingindo a dor que de verdade sentimos,
seria ilusão supor que qualquer palavra escrita traga em si a completude do que é uma vida...
tenho que manifestar todos os dias o meu profundo desalento quando uma palavra decide se soprepor a todo e qualquer gesto, a todo e qualquer sentimento, a toda e qualquer vontade...
preciso repetir cem mil vezes que nehuma palavra há de decidir por mim o meu caminho, determinar a minha escolha, gravar sua força em mim e me direcionar conforme os seus caprichos...
preciso acreditar que no labirinto que elas me constroem todos os momentos, há sempre um ponto de fuga, que me leva pra fora deste mundo enclausurado,
que existem túneis que me levam pra fora deste universo sombrio e compacto que é a palavra...
e quando o silêncio não puder me falar por si mesmo,
ou eu não puder restar em silêncio para então ouvi-lo,
que eu aprenda a usar uma única palavra, aquela que me salva de mim,
talvez a palavra perfeita não exista e por isso nenhuma outra deve ser encunciada como perfeição, mas que exista uma palavra que nos salve do abismo,
porque se dizer uma palavra é fazer acontecer,
e se existe algo que não deva acontecer, que não seja, portanto, dito.
domingo, 23 de agosto de 2009
o vendedor de flores, a filha do vento e o mundo desencantado...
revi Closer hoje e me lembrei porque tinha gostado tanto...
por causa das cenas inicial e final com a Natalie Portman
tudo começa e termina do mesmo jeito?
não, entre o inicío e o fim existe uma mudança de perspectiva que determina todo o caráter da personagem, toda a aprendizagem, inclusive o jeito dela caminhar é já diferente, linda nas duas cenas, filha do vento na cena final...
o mundo é desencanto nos dois relacionamentos: naquele que não se consolida tanto quanto naquele que se consolida... a cena de Julia Roberts aconchegada nos braços do marido lendo é poética, embora o casal seja menos consistente...
quando o personagem de Jude Law reencontra o de Natalie Portman parece que para ele ainda nada mudou e ela não pode aceitá-lo... é aí que se rompe o ciclo que a levará de volta pra casa...
a aprendizagem dos prazeres passa pela aprendizagem da dor...
por isso gosto tanto da Natalie caminhando...
me lembra que o tempo, embora pareça uma linha reta, é cíclico...
que o tempo do desencontro é equivalente ao do encontro...
que a roda do tempo não pára de girar...
também me lembrei de São Paulo, dos meus encontros e desencontros...
continuo buscando a poesia da metrópole que me esmaga a cada momento...
e procurando os vendedores de flores nas esquinas,
sei que existem muitos, basta eu olhar com atenção.
espero ter serenidade no meu olhar.
por fim a última coisa de que gosto é a canção do Damien Rice, principalmente pela ironia do verso final , depois de confessar todo o amor, ele pensa no "até que dure', até que venha outro, no próximo encontro, daí a ciranda volta pro Bauman, sobre quem não vou escrever de novo...
And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off you...
And so it's
The colder water
The blower's daughter...
I can't take my mind off you...
Until I find somebody new.
por causa das cenas inicial e final com a Natalie Portman
tudo começa e termina do mesmo jeito?
não, entre o inicío e o fim existe uma mudança de perspectiva que determina todo o caráter da personagem, toda a aprendizagem, inclusive o jeito dela caminhar é já diferente, linda nas duas cenas, filha do vento na cena final...
o mundo é desencanto nos dois relacionamentos: naquele que não se consolida tanto quanto naquele que se consolida... a cena de Julia Roberts aconchegada nos braços do marido lendo é poética, embora o casal seja menos consistente...
quando o personagem de Jude Law reencontra o de Natalie Portman parece que para ele ainda nada mudou e ela não pode aceitá-lo... é aí que se rompe o ciclo que a levará de volta pra casa...
a aprendizagem dos prazeres passa pela aprendizagem da dor...
por isso gosto tanto da Natalie caminhando...
me lembra que o tempo, embora pareça uma linha reta, é cíclico...
que o tempo do desencontro é equivalente ao do encontro...
que a roda do tempo não pára de girar...
também me lembrei de São Paulo, dos meus encontros e desencontros...
continuo buscando a poesia da metrópole que me esmaga a cada momento...
e procurando os vendedores de flores nas esquinas,
sei que existem muitos, basta eu olhar com atenção.
espero ter serenidade no meu olhar.
por fim a última coisa de que gosto é a canção do Damien Rice, principalmente pela ironia do verso final , depois de confessar todo o amor, ele pensa no "até que dure', até que venha outro, no próximo encontro, daí a ciranda volta pro Bauman, sobre quem não vou escrever de novo...
And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky
I can't take my eyes off you...
And so it's
The colder water
The blower's daughter...
I can't take my mind off you...
Until I find somebody new.
sábado, 22 de agosto de 2009
um vendedor de flores...
É isso ai
Há quem acredita em milagres
Há quem cometa maldade
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso ai
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
(Ana Carolina e Seu Jorge)
Há quem acredita em milagres
Há quem cometa maldade
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso ai
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores
(Ana Carolina e Seu Jorge)
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
paulistanas...
gosto muito da cultura paulistana, que é uma mistura deste país inteiro, sou adepta dos urbanóides de plantão, gosto da velocidade, do caos, das máquinas de espresso em todos os cafés, gosto dos cinemas alternativos, do público cult, da gente que sai falando "bobeira filosófica " depois das mostras, gosto de tudo isso, não tem jeito, por isso aindo vivo aqui, cada dia mais e cada dia menos...
hoje saindo do cinesesc, da mostra de curtas com um casal de amigos, falando dos curtas, claro, chegamos a algumas conclusões inevitáveis: uma delas é que é chato ir ao cinema e não ter com quem falar do filme, embora tenha muita gente solitária nos cinemas, sobretudo no circuito alternativo...
sobre a mostra: vimos uns curtas brasileiros e tecemos opiniões sobre três, dois deles sobre paulistanos, jovens e talentosos: Thiago Mendonça, que falou sobre a boca do lixo, metacinema, que pra mim valeu a sessão, e Caetano Gotardo, que falou sobre a impossibilidade da comunicação em sampa, tema em voga, mas que o fez por dentro de São Paulo mesmo, ruas prédios, de uma maneira poética, principalmente quando falou sobre o agora, o que a gente gosta agora de uma forma, e que não sabe se vai gostar amanhã, mas sabemos que este "agora" vai se inscrever na nossa história... o curta se chama O menino japonês...
sobre paulistanos que vão ao cinema: o terceiro filme é com atores "globais" e o diretor não é estreante, escolheu falar sobre a literatura de João do Rio, até que tinha achado interessante, até um paulistano que saía sozinho da sala se "meter na conversa", de um modo muito bem vindo, deixo muito bem dito, e dizer que sentiu vergonha deste aí: paramos meio abismados: a gente não gostou muito (eu até que gostei pelo resgate da literatura que um cara desconhecido do começo do século!), vergonha porque o cara já fez outros filmes e fez uma coisa super anacrônica, sem novidades, todo mundo já fez... é o velho e o novo convivendo... gostei da opinião do paulistano, que escreve sobre cinema em algum canto da net, ele virou a esquina e não tive tempo de perguntar...
acho que paulistano em geral é tímido, assombrado, de modo que abordam, vão embora, não dão endereço e nem telefone, na maioria das vezes não pedem desculpa, nem licença, por favor, obrigado... mas não me importo com estas formalidades... existe uma formalidade no olhar que diz muita coisa... também tem um trejeito simpático e distante... não sei bem, só paulistano "de convivência" mesmo pra entender.
hoje saindo do cinesesc, da mostra de curtas com um casal de amigos, falando dos curtas, claro, chegamos a algumas conclusões inevitáveis: uma delas é que é chato ir ao cinema e não ter com quem falar do filme, embora tenha muita gente solitária nos cinemas, sobretudo no circuito alternativo...
sobre a mostra: vimos uns curtas brasileiros e tecemos opiniões sobre três, dois deles sobre paulistanos, jovens e talentosos: Thiago Mendonça, que falou sobre a boca do lixo, metacinema, que pra mim valeu a sessão, e Caetano Gotardo, que falou sobre a impossibilidade da comunicação em sampa, tema em voga, mas que o fez por dentro de São Paulo mesmo, ruas prédios, de uma maneira poética, principalmente quando falou sobre o agora, o que a gente gosta agora de uma forma, e que não sabe se vai gostar amanhã, mas sabemos que este "agora" vai se inscrever na nossa história... o curta se chama O menino japonês...
sobre paulistanos que vão ao cinema: o terceiro filme é com atores "globais" e o diretor não é estreante, escolheu falar sobre a literatura de João do Rio, até que tinha achado interessante, até um paulistano que saía sozinho da sala se "meter na conversa", de um modo muito bem vindo, deixo muito bem dito, e dizer que sentiu vergonha deste aí: paramos meio abismados: a gente não gostou muito (eu até que gostei pelo resgate da literatura que um cara desconhecido do começo do século!), vergonha porque o cara já fez outros filmes e fez uma coisa super anacrônica, sem novidades, todo mundo já fez... é o velho e o novo convivendo... gostei da opinião do paulistano, que escreve sobre cinema em algum canto da net, ele virou a esquina e não tive tempo de perguntar...
acho que paulistano em geral é tímido, assombrado, de modo que abordam, vão embora, não dão endereço e nem telefone, na maioria das vezes não pedem desculpa, nem licença, por favor, obrigado... mas não me importo com estas formalidades... existe uma formalidade no olhar que diz muita coisa... também tem um trejeito simpático e distante... não sei bem, só paulistano "de convivência" mesmo pra entender.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
nenhuma historia.
o bater das asas de uma borboleta em Nova York pode provocar um furacão em Pequim?
a gente escolhe às vezes é sem querer...
por querer a gente olha e vê o que não devia...
nenhuma história.
só o silêncio nutriz.
a gente escolhe às vezes é sem querer...
por querer a gente olha e vê o que não devia...
nenhuma história.
só o silêncio nutriz.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
sobre a escrita e a não escrita...
sempre que leio algo que realmente mexe comigo, entro numa espécie de transe, tudo acontece ao meu redor, e nada me alcança, só a escrita... o texto... paranóia de leitor...
posso dizer que desde que comecei a ler Enrique Vila-Matas, sexta passada, estou em transe.
o texto é sobre escritores do Não, escritores que resolveram não escrever... ou então tematizaram a não escirta... se chama Bartleby e companhia.
o primeiro escritor do Não é Robert Walser a quem o narrador atribui a frase: escrever que não se pode escrever também é escrever.
uma outra frase, não atribuída a nenhum escritor mas que é título de um livro de Tabucchi: a escrita é um pequeno equívoco sem importância.
sempre pensei nos equívocos do Tabucchi como sendo os temas, as circunstancias narradas, e eis que agora, me vem esta outra ideia, a de que escrever é que é um equivoco.
de quebra encontrei um escrito do Tabucchi sobre a escrita em Vila-Matas: "Perseguir con pasión vidas ajenas que son la nuestra, interiorizar a los muertos y hacerlos revivir: la escritura revela sus extraños y ocultos poderes, se convierte en práctica mágica. Escribir, ¿qué significa escribir?
¿Cuántas son las razones del silencio? Tantas como las de la vida. O de la muerte. O del suicidio. Porque el silencio es también un suicidio, razona el silencioso protagonista que escribe el diario escrito por Vila-Matas. Pero al suicidio le hace falta una cantidad de valor más reducida: basta una vez. Para el silencio el valor es obstinado, es necesario reunir valor para callar cada mañana, durante todos los días que nos quedan por vivir. El silencio es un suicidio renovado día a día."
posso dizer que desde que comecei a ler Enrique Vila-Matas, sexta passada, estou em transe.
o texto é sobre escritores do Não, escritores que resolveram não escrever... ou então tematizaram a não escirta... se chama Bartleby e companhia.
o primeiro escritor do Não é Robert Walser a quem o narrador atribui a frase: escrever que não se pode escrever também é escrever.
uma outra frase, não atribuída a nenhum escritor mas que é título de um livro de Tabucchi: a escrita é um pequeno equívoco sem importância.
sempre pensei nos equívocos do Tabucchi como sendo os temas, as circunstancias narradas, e eis que agora, me vem esta outra ideia, a de que escrever é que é um equivoco.
de quebra encontrei um escrito do Tabucchi sobre a escrita em Vila-Matas: "Perseguir con pasión vidas ajenas que son la nuestra, interiorizar a los muertos y hacerlos revivir: la escritura revela sus extraños y ocultos poderes, se convierte en práctica mágica. Escribir, ¿qué significa escribir?
¿Cuántas son las razones del silencio? Tantas como las de la vida. O de la muerte. O del suicidio. Porque el silencio es también un suicidio, razona el silencioso protagonista que escribe el diario escrito por Vila-Matas. Pero al suicidio le hace falta una cantidad de valor más reducida: basta una vez. Para el silencio el valor es obstinado, es necesario reunir valor para callar cada mañana, durante todos los días que nos quedan por vivir. El silencio es un suicidio renovado día a día."
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
e pra toda dor o seu prelúdio...
Prelúdio é a palavra que define o ato preliminar, o primeiro passo pra alguma coisa.
Na música é o que se canta ou se toca pra experimentar a voz ou um instrumento, a composição que serve como introdução pra outra mais consistente, ou ainda a peça musical escrita ou improvisada, tocada antes da execução de uma obra...
achei tão bonita esta explicação que postei aqui.
também me fez pensar que minha vida é feita de prelúdios...
e que gosto deles, talvez a obra mais consistente seja feita um dia...
Na música é o que se canta ou se toca pra experimentar a voz ou um instrumento, a composição que serve como introdução pra outra mais consistente, ou ainda a peça musical escrita ou improvisada, tocada antes da execução de uma obra...
achei tão bonita esta explicação que postei aqui.
também me fez pensar que minha vida é feita de prelúdios...
e que gosto deles, talvez a obra mais consistente seja feita um dia...
terça-feira, 11 de agosto de 2009
a permanência da transitoriedade e a durabilidade do transitório...
diz o senhor Bauman:
a líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de aço.
nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante.
essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais ou temporais.
eles não tem necessidade ou uso que possam ser justificados pela líquida racionalidade moderna dos consumidores.
vínculos e liames tornam "impuras" as relações humanas - como o fariam com qualquer ato de consumo que presuma a satisfação instantânea e, de modo semelhante, a instantânea obsolescência do objeto consumido.
diz algúem que entendeu o senhor B.:
O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes.
digo eu, buscando um contraponto entre o peso e a leveza:
não acredito que a culpa deva ser predominante nas relações, mas a ausência de fardos, torna o ser humano insustentavelmente leve, faz com que ele voe e se distancie da terra.
por outro lado, é o despudor que faz com que ele avance, sabe-se lá pra onde, pro mistério, pro descaminho, pro progresso (da própria desilusão?), pro novo, pro belo...
ainda: questão de escolha.
não é de graça, mas cada um paga no caixa o amor que escolheu.
(esta última é do Ligabue).
a líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de aço.
nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante.
essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais ou temporais.
eles não tem necessidade ou uso que possam ser justificados pela líquida racionalidade moderna dos consumidores.
vínculos e liames tornam "impuras" as relações humanas - como o fariam com qualquer ato de consumo que presuma a satisfação instantânea e, de modo semelhante, a instantânea obsolescência do objeto consumido.
diz algúem que entendeu o senhor B.:
O apelo por fazer escolhas que possam num espaço muito curto de tempo serem trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes.
digo eu, buscando um contraponto entre o peso e a leveza:
não acredito que a culpa deva ser predominante nas relações, mas a ausência de fardos, torna o ser humano insustentavelmente leve, faz com que ele voe e se distancie da terra.
por outro lado, é o despudor que faz com que ele avance, sabe-se lá pra onde, pro mistério, pro descaminho, pro progresso (da própria desilusão?), pro novo, pro belo...
ainda: questão de escolha.
não é de graça, mas cada um paga no caixa o amor que escolheu.
(esta última é do Ligabue).
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
labirintos sonoros...
nos meus labirintos sonoros, ouço uma canção que fala de uma mulher,
como a imagino? é uma espécie de psicótica, tem um distúrbio de personalidade,
pensa constantemente na morte, e às vezes tem surtos de felicidade...
nasceu em Praga, mora em qualquer lugar do mundo, se chama ELLE, que é o nome da canção de um grupo de nu-jazz de Praga.... Alvik...
como a imagino? é uma espécie de psicótica, tem um distúrbio de personalidade,
pensa constantemente na morte, e às vezes tem surtos de felicidade...
nasceu em Praga, mora em qualquer lugar do mundo, se chama ELLE, que é o nome da canção de um grupo de nu-jazz de Praga.... Alvik...
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
labirinto de sonhos...
Boderline:
sonhei esta noite que você era meu vizinho,
só que era ainda um menino, parecia meu irmão, mas sabia que era você,
que brincava com a sua irmã e com os cachorros, que eram dóceis e bonitos,
eu tentava atravessar o seu muro que era alto, mas não conseguia e desistia
e então me escondia e te olhava lá de baixo, sua casa era grande e lá em cima,
da minha dava pra ver o seu quintal que era um morro e perto do muro tinha uma espécie de caída pra água da chuva ...
me lembro de ter vivido qualquer coisa assim, acho que era um sonho misturado com lembranças... mas não sei quem é você... no entanto, parece que eu te conheci a vida toda...
Analista:
não costumo interfirir no andamento das coisas a não ser casualmente
e é sempre casualmente que espero encontrar de novo pessoas que se foram
e provavelmente elas vão estar no mesmo lugar em que sempre estiveram
e vou convidá-las pra tomar um café, como sempre faço...
Boderline:
acho que o passado não passa nunca,
mas vem constantemente te despertar nos sonhos,
e o futuro não vai chegar nunca, porque o tempo é ciclíco, a vida é circular,
um dia ela leva e outro dia ela traz, como diz a canção, buscando sua expressão mais simples,
mas não costumamos ficar esperando ela trazer de volta o que levou,
porque temos a impressão que ela está se acabando a cada dia...
até porque pra tudo ser o que era teria que nunca ter deixado de ser e continuar sendo exatamente igual, e isso é impossivel...
porque eu já mudei... e tudo já mudou... e muda sempre e não muda nada... ou talvez pareça que tudo que vivemos é sempre um pouco do mesmo...
sonhei esta noite que você era meu vizinho,
só que era ainda um menino, parecia meu irmão, mas sabia que era você,
que brincava com a sua irmã e com os cachorros, que eram dóceis e bonitos,
eu tentava atravessar o seu muro que era alto, mas não conseguia e desistia
e então me escondia e te olhava lá de baixo, sua casa era grande e lá em cima,
da minha dava pra ver o seu quintal que era um morro e perto do muro tinha uma espécie de caída pra água da chuva ...
me lembro de ter vivido qualquer coisa assim, acho que era um sonho misturado com lembranças... mas não sei quem é você... no entanto, parece que eu te conheci a vida toda...
Analista:
não costumo interfirir no andamento das coisas a não ser casualmente
e é sempre casualmente que espero encontrar de novo pessoas que se foram
e provavelmente elas vão estar no mesmo lugar em que sempre estiveram
e vou convidá-las pra tomar um café, como sempre faço...
Boderline:
acho que o passado não passa nunca,
mas vem constantemente te despertar nos sonhos,
e o futuro não vai chegar nunca, porque o tempo é ciclíco, a vida é circular,
um dia ela leva e outro dia ela traz, como diz a canção, buscando sua expressão mais simples,
mas não costumamos ficar esperando ela trazer de volta o que levou,
porque temos a impressão que ela está se acabando a cada dia...
até porque pra tudo ser o que era teria que nunca ter deixado de ser e continuar sendo exatamente igual, e isso é impossivel...
porque eu já mudei... e tudo já mudou... e muda sempre e não muda nada... ou talvez pareça que tudo que vivemos é sempre um pouco do mesmo...
shakespereanas...
do Hamlet:
Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer, dormir...
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá ventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.
tradução de Milor Fernandes.
Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer, dormir...
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá ventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.
tradução de Milor Fernandes.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
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