fiquei pensando e descobri que gosto de algumas coisas no Natal sim, mas são coisas que se pode gostar o ano todo, no Carnaval, na Páscoa, no dia das Crianças, até no dia da Pátria...
gosto no Natal quando as pessoas desejam coisas boas umas pras outras, pode-se fazer isso o ano todo, mas, engraçado, as pessoas fazem com mais entusiasmo no Natal...
será menos verdadeiro?
será que é quando elas têm tempo de fazer isso?
será que é porquê a tv diz pra elas fazerem isso?
será que é porque são religiosas e acreditam nisso?
não sei, acho que o ano vai acabando, talvez isso gere um sentimento de perda nas pessoas, socialmente existem implicações já diagnosticas, contadas nas estatísticas, nas pesquisas, etc etc... psicologicamente também existem diagnosticos, estatisticas, pesquisas...
gosto de desejar coisas boas pras pessoas no fim do ano, gosto de fazer isso todo dia, digo sempre bom dia, bom final de semana, bom trabalho, boa aula, e, ao contrário do que parece, não digo isso artificialmente ou convencionalmente, ou porque pareço uma boba alegre... as pessoas que encaram assim, como cortesia, nem sabem que eu pras cortesias estou me lixando...
gente cortês é bom dentro do ônibus, do metrô, nos postos de saúde, que aliás, são os lugares nos quais mais faltam pessoas corteses...
pras minhas relações pessoais, de amizade principalmente, a cortesia é absolutamente dispensável, prefiro a amizade, o respeito, a dedicação, o carinho, coisas que busco sempre e que procuro oferecer sempre.
posso estar desenganadamente enganada, mas gosto de desejar Bom Natal pras pessoas.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
a representação como pura representação.
tinha um quadro, estava dentro de um sonho, contado dentro de um livro e tinha também uma canção que tocava bem lá no fundo e que começava assim: guardei um pedacinho de mim, que era pra lembrar de você por toda a vida. É a gente que volta para as nossas lembranças e não o contrário. Aquele dia que te vi entrar no mesmo vagão do enorme trem metropolitano foi coincidência. Brincadeira besta do acaso. Tinha pensado em você a tarde inteira, acredita? Não é difícil acreditar mesmo! Olhado fotografias, recados, qualquer coisa que trouxesse você de volta pra mim. E você veio assim, sem que eu esperasse, ou já esperava, tinha feito um elenco de possibilidades e modos de te reencontrar e sabia mesmo sem saber que você entraria naquela estação naquele horário e pegaria o mesmo vagão que eu. Já previa mesmo que não pudesse prever. Esta cidade é tão pequena com seus dez milhões de habitantes!E você estava assim tão bonito com aquela camisa escura que eu não conhecia e aquela bolsa de couro cru que sempre achei que você usaria um dia e os seus óculos escondendo seus olhos que não brilharam quando me viram. Não brilham mais, sei bem. Já brilharam um dia, e tenho saudade deste brilho, você nem sabe o quanto. Meu coração ia saltando pela boca quando o segurei com força pelas mãos. As mãos frias, o olhar quase úmido, mas me esforcei e dei um sorriso e disse tudo bem quando você me perguntou, e passou, e sentou bem distante de mim. Como se fossemos só conhecidos, vizinhos de condomínio. E me senti assim, como se não te conhecesse bem, o que é bem verdade: não te conheço mais, não sei mais quem é você, não sei o que pensa, faz ou diz, não sei mais como é seu olhar feliz ou triste, quais são os seus argumentos, suas escolhas, seus hábitos. Esqueci o seu modo de amar. Você agora ama outra, dorme com outra, cozinha pra outra, tem filhos com outra. Tudo isso em você é tão novo agora. Não me diz respeito mais. Pensei se não tinha ficado um pouco. Em mim, de você, tem muito. Muito do que você foi um dia. Nada do que você é agora. Guardei você naquele pedacinho de mim, aprisionado num passado irreversível, que era pra te ter quando eu precisasse, mas tudo que ficou dói tanto que quando esse pedacinho me chama pra ele, fecho os olhos bem apertados e digo some daqui que eu não posso mais. Mas não tem mais tanta dor assim, tem saudade, tem medo, tem um querer indefinido que não sabe pra onde. Uma esperança de te ver passar. Não assim, como se não me conhecesse, ou como se eu fosse uma louca que te persegue anos e anos...
a canção era uma outra, o quadro era só um enfeite de uma discussão desimportante o sonho virou uma nuvem... o livro era só de um conto, sem final.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
eu escrevo para ser outro...
não é segredo pra ninguém que ler é viver uma outra existência, todo mundo já se viu um dia dentro de uma outra história que não fosse a sua, e quis até mesmo mudar o final.
Rodrigo Fresan, um "Borges pós moderno" conforme a orelha de seu livro "Os jardins de Kensigton" diz que "lendo vivemos muitas vidas" e que um livro é uma espécie de "ponto de fuga", um caminho pra desaparecer, pra fugir de si mesmo, da vida, dos outros, ou então pra se encontrar, quem sabe, no estranho silêncio da nossa leitura podemos deparar sons mágicos, que saem das palavras mesmas, como se cada palavra fosse uma nota musical, como as leituras musicais de uma partitura para um conhecedor de música:
"o silêncio que brota dos livros e nos envolve é um silêncio cheio de sons".
fui apresentada a Fresan, por meio da leitura desses "jardins"...
apesar deste título quase romântico, os jardins tratam da cultura pop, esquisito?, mas é isso, ou quase isso, trata da infância perdida e também do criador dos meninos perdidos mais celebrados pela nossa época cheia de peter pans... é uma análise des-apaixonada do nosso século XX, com críticas ferozes sobre nossa incapacidade de envelhecer, o breve século XX...
engraçado que me lembrei de um filme que não tem nada a ver com as temáticas "aparentes" do livro... nas digressões constantes do narrador sobre o que é escrever (um tema particularmente especial pra mim) o narrador (autor?) diz que escreve pra ser um outro... e isso me fez lembrar um episódio de Histórias Proibidas de Todd Solondz...
o episódio é o primeiro, e se não me engano se chama "Ficção", sobre uma estudante que faz um curso para aprender a escrever em uma universidade norte americana, o professor tem uma teoria bastante particular sobre a escrita, acredita que escrever é potência, virilidade, defloramento... e ensina suas alunas a escrever através de uma relação de subjeição ao sexo viril... enquanto a estudante deve se livrar de todos os seus preconceitos (inclusive raciais) e se entregar de alma (e corpo!) a esse defloramento... a esta escrita que toma conta de todos os poros de sua vida porosa... a relação com a escrita é também representada pela relação que a estudante tem com um "namorado impotente" conforme o audacioso professor...
ao final a escolha recai sobre uma escrita sem comprometimentos, ou em se tratando de Solondz, por um universo cheio de tabus... livre, todavia, de constragimentos...
existem várias formas de se pensar a escrita, João Cabral, por exemplo, acredita que escrever é tirar leite de pedra, os gênios românticos, que é puro processo de inspiração... Solondz que é cineasta acredita que é romper tabus, manifestação do desejo de poder...
não sei em que acredito, sei que quando escrevo não sou sempre eu, que lido com coisas que não sei como chamar, que por vezes expresso sentimentos que não cabem em mim...
é isso que me far querer sempre e a cada vez mais escrever... um não saber o quê, nem porque ou mesmo como...
Rodrigo Fresan, um "Borges pós moderno" conforme a orelha de seu livro "Os jardins de Kensigton" diz que "lendo vivemos muitas vidas" e que um livro é uma espécie de "ponto de fuga", um caminho pra desaparecer, pra fugir de si mesmo, da vida, dos outros, ou então pra se encontrar, quem sabe, no estranho silêncio da nossa leitura podemos deparar sons mágicos, que saem das palavras mesmas, como se cada palavra fosse uma nota musical, como as leituras musicais de uma partitura para um conhecedor de música:
"o silêncio que brota dos livros e nos envolve é um silêncio cheio de sons".
fui apresentada a Fresan, por meio da leitura desses "jardins"...
apesar deste título quase romântico, os jardins tratam da cultura pop, esquisito?, mas é isso, ou quase isso, trata da infância perdida e também do criador dos meninos perdidos mais celebrados pela nossa época cheia de peter pans... é uma análise des-apaixonada do nosso século XX, com críticas ferozes sobre nossa incapacidade de envelhecer, o breve século XX...
engraçado que me lembrei de um filme que não tem nada a ver com as temáticas "aparentes" do livro... nas digressões constantes do narrador sobre o que é escrever (um tema particularmente especial pra mim) o narrador (autor?) diz que escreve pra ser um outro... e isso me fez lembrar um episódio de Histórias Proibidas de Todd Solondz...
o episódio é o primeiro, e se não me engano se chama "Ficção", sobre uma estudante que faz um curso para aprender a escrever em uma universidade norte americana, o professor tem uma teoria bastante particular sobre a escrita, acredita que escrever é potência, virilidade, defloramento... e ensina suas alunas a escrever através de uma relação de subjeição ao sexo viril... enquanto a estudante deve se livrar de todos os seus preconceitos (inclusive raciais) e se entregar de alma (e corpo!) a esse defloramento... a esta escrita que toma conta de todos os poros de sua vida porosa... a relação com a escrita é também representada pela relação que a estudante tem com um "namorado impotente" conforme o audacioso professor...
ao final a escolha recai sobre uma escrita sem comprometimentos, ou em se tratando de Solondz, por um universo cheio de tabus... livre, todavia, de constragimentos...
existem várias formas de se pensar a escrita, João Cabral, por exemplo, acredita que escrever é tirar leite de pedra, os gênios românticos, que é puro processo de inspiração... Solondz que é cineasta acredita que é romper tabus, manifestação do desejo de poder...
não sei em que acredito, sei que quando escrevo não sou sempre eu, que lido com coisas que não sei como chamar, que por vezes expresso sentimentos que não cabem em mim...
é isso que me far querer sempre e a cada vez mais escrever... um não saber o quê, nem porque ou mesmo como...
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
contra a hierarquia das paixões ou a favor do acaso que se apresenta...
há dois anos atrás o prof. Alfonso Berardinelli me disse que Marcello Mastroiani era um ator perfeito justamente porque era desprovido de interioridade, era vazio, oco, sem paixões ou idiossincrasias, e que por isso podia absorver tão perfeitamente a psicologia de todos os personagens que interpretava, moldando-se conforme a "paixão" deste personagem...
talvez só agora consiga concordar que para ser ator é preciso ser desprovido de vaidades advindas do eu... (toda vaidade advém do eu? toda vaidade é uma paixão?)
gostaria de ser desprovida de mim, um oco, um vazio de paixões, de pensamentos tristes, de preconceitos, sem dor, nem medo, nem lembranças do que eu sou determinando o que devo ser...
gostaria de a cada dia ser um outro eu, assumindo personalidades diferentes todos os dias, sem me fixar jamais numa forma moldada pro resto da vida... (mesmo que ás vezes eu sinta muita saudade de mim...)
o que diferencia as paixões? esta foi a pergunta que me veio esta madrugada...
possível resposta: a única coisa que diferencia uma paixão de outra é o objeto de desejo...
tem gente que gosta de bichos, tem gente que gosta de planta, outros gostam de futebol, há quem goste de sapatos, alguns de máquinas e outros, ainda, gostam de livros...
uma pessoa que gosta de máquina, por exemplo, se diverte montando e desmontando mecanismos, tentando entender o funcionamentos de cada peça, imaginando meios de fazer a máquina funcionar melhor... buscando, enfim, o sentido daquela engrenagem...
quem gosta de livro também se diverte montando e desmontando só que frases, tentando entender como as palavras estão organizadas, qual o mecanismo de coerência entre as "peças" do texto... enfim, buscando um sentido ulterior, que pode estar entre as linhas...
acho que nosso grande pecado é achar que uma paixão é mais nobre que outra...
taí de onde vem nossos erros e preconceitos: cada um acha que sua paixão é melhor que a do outro.
quero me despir das minhas paixões todos os dias e ganhar outras todos os dias, porque, seja qual for a paixão, o bom é se deixar envolver por elas.
quem sabe sejam elas o que nos move... o que guia as coisas...
talvez só agora consiga concordar que para ser ator é preciso ser desprovido de vaidades advindas do eu... (toda vaidade advém do eu? toda vaidade é uma paixão?)
gostaria de ser desprovida de mim, um oco, um vazio de paixões, de pensamentos tristes, de preconceitos, sem dor, nem medo, nem lembranças do que eu sou determinando o que devo ser...
gostaria de a cada dia ser um outro eu, assumindo personalidades diferentes todos os dias, sem me fixar jamais numa forma moldada pro resto da vida... (mesmo que ás vezes eu sinta muita saudade de mim...)
o que diferencia as paixões? esta foi a pergunta que me veio esta madrugada...
possível resposta: a única coisa que diferencia uma paixão de outra é o objeto de desejo...
tem gente que gosta de bichos, tem gente que gosta de planta, outros gostam de futebol, há quem goste de sapatos, alguns de máquinas e outros, ainda, gostam de livros...
uma pessoa que gosta de máquina, por exemplo, se diverte montando e desmontando mecanismos, tentando entender o funcionamentos de cada peça, imaginando meios de fazer a máquina funcionar melhor... buscando, enfim, o sentido daquela engrenagem...
quem gosta de livro também se diverte montando e desmontando só que frases, tentando entender como as palavras estão organizadas, qual o mecanismo de coerência entre as "peças" do texto... enfim, buscando um sentido ulterior, que pode estar entre as linhas...
acho que nosso grande pecado é achar que uma paixão é mais nobre que outra...
taí de onde vem nossos erros e preconceitos: cada um acha que sua paixão é melhor que a do outro.
quero me despir das minhas paixões todos os dias e ganhar outras todos os dias, porque, seja qual for a paixão, o bom é se deixar envolver por elas.
quem sabe sejam elas o que nos move... o que guia as coisas...
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
november rain, quer dizer, ruim...
acho que ando criando uma cisma muito forte com meus novembros... deve ser porque o mês começa com o dia de todos os santos, em que as pessoas fazem promessas pra um futuro melhor, mas o segundo dia do mês é já o dia dos mortos, ou seja, fantasmas e assombrações, coisas que já passaram e que continuam a assombrar, a mim pelo menos me assombram...
lembro quando minha vó me levava ao cemiterio pra levar flores mortas para os mortos, quase sempre chovia uma chuvinha fininha que parecia choro...
quem sabe novembro seja uma elegia ao passado...
comecei o meu vendo "O Passado" do Babenco, confesso que tive dificuldade em gostar das personagens protagonistas, mesmo que uma delas fosse o irresistível Bernal, personagens aprisionadas num tempo ido sem perpectivas de um futuro, tornando o presente insuportável... tudo por causa dos benditos fantasmas... a sensação (ruim) é de que o tempo passa por nós e nem percebemos... só vemos os estragos como num temporal...
lembro quando minha vó me levava ao cemiterio pra levar flores mortas para os mortos, quase sempre chovia uma chuvinha fininha que parecia choro...
quem sabe novembro seja uma elegia ao passado...
comecei o meu vendo "O Passado" do Babenco, confesso que tive dificuldade em gostar das personagens protagonistas, mesmo que uma delas fosse o irresistível Bernal, personagens aprisionadas num tempo ido sem perpectivas de um futuro, tornando o presente insuportável... tudo por causa dos benditos fantasmas... a sensação (ruim) é de que o tempo passa por nós e nem percebemos... só vemos os estragos como num temporal...
sempre penso naquela frase de consolo que dizemos quando alguém está sofrendo: vai passar, vai passar... tudo passa, eu diria, quase tudo, ou talvez nem tudo... o drummond diz que de tudo fica um pouco...
meu horóscopo de hoje: "marte começa a retrogradar em seu signo hoje - e isso significa energia e vontade para trás, no sentido contrario a ação direta no mundo. Como se você se arrependesse, ou se sentisse inseguro, preso por duvidas, emoções conflitantes".
retrogradar? não sabia que este verbo existia, mas talvez minha vida esteja, este mês, meio retrogradando... (eita verbo besta!)segunda-feira, 5 de novembro de 2007
contra o mau-humor e as portas que se fecham...
Chocolate!!!
O chocolate é um alimento muito nutritivo. Contém proteínas, gorduras, cálcio, magnésio, ferro, zinco, caroteno, vitaminas E, B1, B2, B3, B6, B12 e C. Estudos recentes sugerem a possibilidade de o consumo moderado de chocolate preto e amargo trazer benefícios para a saúde humana, nomeadamente devido à presença de ácido gálico e epicatecina, flavonóides com função cardioprotectora. Sabe-se que o cacau tem propriedades antioxidantes. O chocolate constitui ainda um estimulante devido à teobromina, embora de fraca capacidade. O chocolate também possui endorfina e cafeína.
fonte: Wikipedia.
as janelas se abrem quando as portas de fecham...
fonte: minha mãe.
O chocolate é um alimento muito nutritivo. Contém proteínas, gorduras, cálcio, magnésio, ferro, zinco, caroteno, vitaminas E, B1, B2, B3, B6, B12 e C. Estudos recentes sugerem a possibilidade de o consumo moderado de chocolate preto e amargo trazer benefícios para a saúde humana, nomeadamente devido à presença de ácido gálico e epicatecina, flavonóides com função cardioprotectora. Sabe-se que o cacau tem propriedades antioxidantes. O chocolate constitui ainda um estimulante devido à teobromina, embora de fraca capacidade. O chocolate também possui endorfina e cafeína.
fonte: Wikipedia.
as janelas se abrem quando as portas de fecham...
fonte: minha mãe.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
arte do fim do mundo...

apocaliptico, essa pra mim é a palavra que descreve o show da Bjork de ontem em sampa... arte do fim do mundo, o contraste entre as cores das mulheres islandesas e o som quase funebre que saiu daqueles instrumentos esquisistos... cores e marcha e sons e magica e sonoridade impressionante, mas a sensação era um pouco de filme de terror... ainda não sei dizer o que foi tudo aquilo, sei que fiquei impressionada e aterrorizada pela beleza e o transe daquela mulher fantástica...
a musica que faz a minha cabeça hoje:
eu não quero mais mentir
usar espinhos que só causam dor
eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
dos cegos do castelo me despeço e vou
a pé até encontrar um caminho, um lugar
pro que eu sou...
Nando Reis.
a pergunta que está na minha cabeça hoje:
quando a gente chega aos trinta a vida começa a ficar mais tranquila, nos sentimos mais seguros ou é só uma mentira que a gente conta pra poder se lamentar menos porque começamos a envelhecer?
dos cegos do castelo me despeço e vou... sem olhar pra trás? o Nando esqueceu de dizer, mas é óbvio.
a musica que faz a minha cabeça hoje:
eu não quero mais mentir
usar espinhos que só causam dor
eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
dos cegos do castelo me despeço e vou
a pé até encontrar um caminho, um lugar
pro que eu sou...
Nando Reis.
a pergunta que está na minha cabeça hoje:
quando a gente chega aos trinta a vida começa a ficar mais tranquila, nos sentimos mais seguros ou é só uma mentira que a gente conta pra poder se lamentar menos porque começamos a envelhecer?
dos cegos do castelo me despeço e vou... sem olhar pra trás? o Nando esqueceu de dizer, mas é óbvio.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
sobre a necessidade de não ser esquecido...
sabe a necessidade que temos de não ser esquecidos e ser importante pra alguém? pois é, todos temos um pouco disso,
e quando escrevo é uma tentativa de não sucumbir à morte, que virà...
ler, por sua vez, é sempre uma forma de ser solidária com um outro alguém que escreve e que também quer ser lembrado,
é uma forma de encostar a cabeça de um outro no meu ombro, como acontece comigo quando leio, sinto que por um tempo breve, o da leitura, posso me tranquilizar, porque encosto a cabeça no ombro de um outro alguém e me deixo estar...
a leitura pra mim é assim, um lugar de repouso, às vezes dolorido e catártico, às vezes tranquilizador, porque sinto que alguém sente algo parecido e nesse minuto parece que a vida não vai passar, que não vou morrer ou ser esquecida...
uma coisa pessoal: meu ex namorado, depois de tantas coisas que vivemos juntos me esqueceu em menos de um mês e eu, dois anos depois do fim ainda sonho com ele e quando acordo chorando de noite, nem posso ligar para dizer que tive um sonho ruim e acordei chorando, porque não tem mais nenhum sentido sonhar com ele e acordar chorando e querer que ele me abrace forte... e isso o quanto dói, ninguém pode saber a não se que também acorde chorando e precisando abraçar alguém que não existe mais, ao menos no horizonte da nossa vida...
brilho eterno de uma mente sem lembranças: este filme para mim é um hino contra essa sociedade de "relacionamentos de/em massa"... não sei ainda se nos relacionamos em massa e não percebemos mais o que é ser um indivíduo ou se os relacionamentos são de massa, que é talvez uma qualidade dos relacionamentos... preciso consultar uma gramática...
sei bem de onde vem essa melancolica, é da chuva que cai hoje em São Paulo, que molhou meus pés, e detesto sentir meus pés úmidos...
e quando escrevo é uma tentativa de não sucumbir à morte, que virà...
ler, por sua vez, é sempre uma forma de ser solidária com um outro alguém que escreve e que também quer ser lembrado,
é uma forma de encostar a cabeça de um outro no meu ombro, como acontece comigo quando leio, sinto que por um tempo breve, o da leitura, posso me tranquilizar, porque encosto a cabeça no ombro de um outro alguém e me deixo estar...
a leitura pra mim é assim, um lugar de repouso, às vezes dolorido e catártico, às vezes tranquilizador, porque sinto que alguém sente algo parecido e nesse minuto parece que a vida não vai passar, que não vou morrer ou ser esquecida...
uma coisa pessoal: meu ex namorado, depois de tantas coisas que vivemos juntos me esqueceu em menos de um mês e eu, dois anos depois do fim ainda sonho com ele e quando acordo chorando de noite, nem posso ligar para dizer que tive um sonho ruim e acordei chorando, porque não tem mais nenhum sentido sonhar com ele e acordar chorando e querer que ele me abrace forte... e isso o quanto dói, ninguém pode saber a não se que também acorde chorando e precisando abraçar alguém que não existe mais, ao menos no horizonte da nossa vida...
brilho eterno de uma mente sem lembranças: este filme para mim é um hino contra essa sociedade de "relacionamentos de/em massa"... não sei ainda se nos relacionamos em massa e não percebemos mais o que é ser um indivíduo ou se os relacionamentos são de massa, que é talvez uma qualidade dos relacionamentos... preciso consultar uma gramática...
sei bem de onde vem essa melancolica, é da chuva que cai hoje em São Paulo, que molhou meus pés, e detesto sentir meus pés úmidos...
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
gonzaguinha...
tem uma música do Gonzaguinha que eu sempre espero ouvir de alguém
alguém cantando pra mim um dia qualquer na minha vida
mas esse alguém teria que ser alguém que me conhece há muito tempo ou então que saiba de mim alguma coisa a mais do que aquilo que eu digo...
entre o que eu digo e o que eu faço existe um abismo tão grande...
talvez esse alguém fosse um amigo,
talvez fosse minha mãe ou minha filha, por que me amam e me odeiam todos os dias...
ou então eu mesma poderia cantar pra mim um dia quando essa canção enfim fosse verdade...
quando todas as dúvidas enfim cedessem e eu pudesse enfim ter noção do que sou, dos caminhos que ando, das coisas que quero ou daquelas que não quero pra mim.
versos do Neruda:
não quero pra mim tantas desgraças
mas acontece que me canso de ser homem.
ah, a música do Gonzaguinha, é essa aqui: (não lembro toda, só lembro as partes que me interessam...)
eu apenas queria que você soubesse
que aquela alegria ainda está comigo
que a minha ternura não ficou na estrada
não ficou no tempo presa na poeira
eu apenas queria que você soubesse
que aquela menina hoje é uma mulher
que esta mulher é uma menina
que colheu seu fruto flor do seu carinho
eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
que hoje eu me gosto muito mais
porque me entendo muito mais também
que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
é se respeitar na sua força e fé
se olhar bem fundo até o dedão do pé
a letra é quase essa... a voz do Gonzaguinha vem junto quando eu leio os versos...
até o assobio vem junto...
alguém cantando pra mim um dia qualquer na minha vida
mas esse alguém teria que ser alguém que me conhece há muito tempo ou então que saiba de mim alguma coisa a mais do que aquilo que eu digo...
entre o que eu digo e o que eu faço existe um abismo tão grande...
talvez esse alguém fosse um amigo,
talvez fosse minha mãe ou minha filha, por que me amam e me odeiam todos os dias...
ou então eu mesma poderia cantar pra mim um dia quando essa canção enfim fosse verdade...
quando todas as dúvidas enfim cedessem e eu pudesse enfim ter noção do que sou, dos caminhos que ando, das coisas que quero ou daquelas que não quero pra mim.
versos do Neruda:
não quero pra mim tantas desgraças
mas acontece que me canso de ser homem.
ah, a música do Gonzaguinha, é essa aqui: (não lembro toda, só lembro as partes que me interessam...)
eu apenas queria que você soubesse
que aquela alegria ainda está comigo
que a minha ternura não ficou na estrada
não ficou no tempo presa na poeira
eu apenas queria que você soubesse
que aquela menina hoje é uma mulher
que esta mulher é uma menina
que colheu seu fruto flor do seu carinho
eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
que hoje eu me gosto muito mais
porque me entendo muito mais também
que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
é se respeitar na sua força e fé
se olhar bem fundo até o dedão do pé
a letra é quase essa... a voz do Gonzaguinha vem junto quando eu leio os versos...
até o assobio vem junto...
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
a vida, como se sabe, não dá receita...
mas como bem canta Walter Franco...
tudo é uma questão de manter a mente quieta a espinha ereta e o coração tranquilo....
tudo de uma vez só, com o mesmo fôlego...
tudo é uma questão de manter a mente quieta a espinha ereta e o coração tranquilo....
tudo de uma vez só, com o mesmo fôlego...
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
quando o amor acaba...
sentimentos?
coisas!
coisas?
sentimentoss!!
o sentimento das coisas
as coisas do sentimento.
coisas!
coisas?
sentimentoss!!
o sentimento das coisas
as coisas do sentimento.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
do insólito e outras coisas...
A vida não está em ordem alfabética como acreditamos. Aparece... um pouco aqui e um pouco ali, como ela achar melhor, como migalhas, o problema é recolhe-las depois;
talvez seja um punhado de areia, mas qual é o grão que sustenta o outro?
Às vezes aquele que está no topo e que parece estar amparado por todo o punhado, é aquele mesmo que mantém junto todos os outros, porque aquele punhado não obedece às leis da física; tire o grão que você acreditava que não sustentava nada e todos caem, a areia desliza, se aplana e não te sobra outra coisa a não ser fazer rabiscos com o dedo, vai-e-vem, trilhas que não conduzem a parte alguma, e passo a passo, você está ali, traçando vai-e-vem, mas onde estará aquele bendito grão que mantinha tudo junto... e depois, um dia, sobre a areia, um traço estranho, um desenho sem lógica e sem base, e te vem uma suspeita, que o senso de tudo aquilo ali eram os rabiscos.
do silêncio das leituras tabucchianas, quase como um haikai, imagens que se constróem e vão e vem, sem resposta, sem sentido preciso, só imagens, paixões que se esboçam, estranha paixão pelas palavras...
talvez seja um punhado de areia, mas qual é o grão que sustenta o outro?
Às vezes aquele que está no topo e que parece estar amparado por todo o punhado, é aquele mesmo que mantém junto todos os outros, porque aquele punhado não obedece às leis da física; tire o grão que você acreditava que não sustentava nada e todos caem, a areia desliza, se aplana e não te sobra outra coisa a não ser fazer rabiscos com o dedo, vai-e-vem, trilhas que não conduzem a parte alguma, e passo a passo, você está ali, traçando vai-e-vem, mas onde estará aquele bendito grão que mantinha tudo junto... e depois, um dia, sobre a areia, um traço estranho, um desenho sem lógica e sem base, e te vem uma suspeita, que o senso de tudo aquilo ali eram os rabiscos.
do silêncio das leituras tabucchianas, quase como um haikai, imagens que se constróem e vão e vem, sem resposta, sem sentido preciso, só imagens, paixões que se esboçam, estranha paixão pelas palavras...
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
bichos estranhos...
um escritor...
sempre se relaciona com palavras, às vezes gosta de pessoas, às vezes sai de casa à procura de alguém ou de alguma coisa, quem sabe o quê?
muita gente gostaria de ter um bichinho deste, porque ele pode sempre revelar a essência da vida... assim, sem ninguém pedir...
um leitor...
bicho muito curioso também... passa horas lendo pra ver se entende alguma coisa e de repente acha que entendeu, mas isso dura só até o próximo livro, a próxima idéia... daí ele pensa que não entendeu nada, mas que está já se aproximando...
sempre se relaciona com palavras, às vezes gosta de pessoas, às vezes sai de casa à procura de alguém ou de alguma coisa, quem sabe o quê?
muita gente gostaria de ter um bichinho deste, porque ele pode sempre revelar a essência da vida... assim, sem ninguém pedir...
um leitor...
bicho muito curioso também... passa horas lendo pra ver se entende alguma coisa e de repente acha que entendeu, mas isso dura só até o próximo livro, a próxima idéia... daí ele pensa que não entendeu nada, mas que está já se aproximando...
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
o universo não tem confins...
quem disse isso sobre o universo foi um personagem do Tabucchi... por que eu deveria ter?
me lembrei de algumas pessoas hoje... que são importantes e que às vezes eu esqueço de propósito só pra memória não desgastar e eu poder lembrar, de repente, num susto, lembrar que elas existem e que é tão bom...
mas isso porque o universo não tem confins, e eu também não preciso ter, mesmo que seja quase quase sem querer que eu tenha...
me lembrei de algumas pessoas hoje... que são importantes e que às vezes eu esqueço de propósito só pra memória não desgastar e eu poder lembrar, de repente, num susto, lembrar que elas existem e que é tão bom...
mas isso porque o universo não tem confins, e eu também não preciso ter, mesmo que seja quase quase sem querer que eu tenha...
terça-feira, 21 de agosto de 2007
where is my mind?
li ontem em algum canto do Tabucchi que o imáginário tem leis tão rígidas que nos parecem o próprio real... (mas acho que já citei isso em algum canto!) depois sonhei um sonho que se parecia com uma canção surreal do pixies que ouvi muitas e muitas vezes...
I was swimming in the Caribbean,
Animals were hiding behind the rocks,
Except the little fish,
But they told me this is where it’s gonna talk to me to me to me:
“Where is my mind?”
por último minha amiga me leu de madrugada, após ligeira perturbação por causa do sonho, uma frase do Mia Couto: qualquer coisa como a gente esquece pra ter passado e mente pra ter futuro... ela achou que eu estava precisando refletir sobre isso...
I was swimming in the Caribbean,
Animals were hiding behind the rocks,
Except the little fish,
But they told me this is where it’s gonna talk to me to me to me:
“Where is my mind?”
por último minha amiga me leu de madrugada, após ligeira perturbação por causa do sonho, uma frase do Mia Couto: qualquer coisa como a gente esquece pra ter passado e mente pra ter futuro... ela achou que eu estava precisando refletir sobre isso...
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
sem leveza...
não consegui ainda saber o que pesa mais... permaneço assim, sob o peso do mundo, buscando a leveza, que quando encontrar, vai ser eterna... ao menos é o que espero...
das leituras tabucchianas:
a idéia de que o suícidio é só um gesto, muito mais fácil, porque é só um gesto (do qual diria eu, não temos a possibilidade de nos arrepender depois, a vida não é um rascunho, como disse outro escritor que escreveu sobre o peso e a leveza), mais difícil é suportar o peso do dia-a-dia, é suportar o silêncio de viver cada dia, com paciência, teimosia...
diz Tabucchi sobre os dias que devemos viver, "um depois do outro, realmente longos com suas pequenas horas, é como uma promessa, é de vidro, pode se quebrar com um nada, e o seu inimigo é o tempo. Como vão as coisas. E o que as guia: um nada".
Está ficando tarde demais... é só o título do livro.
das leituras tabucchianas:
a idéia de que o suícidio é só um gesto, muito mais fácil, porque é só um gesto (do qual diria eu, não temos a possibilidade de nos arrepender depois, a vida não é um rascunho, como disse outro escritor que escreveu sobre o peso e a leveza), mais difícil é suportar o peso do dia-a-dia, é suportar o silêncio de viver cada dia, com paciência, teimosia...
diz Tabucchi sobre os dias que devemos viver, "um depois do outro, realmente longos com suas pequenas horas, é como uma promessa, é de vidro, pode se quebrar com um nada, e o seu inimigo é o tempo. Como vão as coisas. E o que as guia: um nada".
Está ficando tarde demais... é só o título do livro.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
ainda a leveza...
a leveza:
come vanno le cose. e che cosa le guida? un niente. Tabucchi.
como vão as coisas. e o que as guia? um nada.
a filosofia tenta colocar como verdade um sistema que por vezes nos parece fictício.
a literatura coloca como fictício a fantasia, o que muitas vezes nos parece verdade.
das leituras tabucchianas.
o peso:
me contaram uma história engraçada: que um jogador de futebol não tinha sido contratado por um grande time só porque era homossexual... e que um juiz tinha sido favorável à direção do grande time... também me disseram que o Cansei, movimento contrário ao presidente Lula, tem grande participação da OAB, que, pelo que sabemos, tem como presidente um advogado que defendeu certos pastores numa certa confusão com doláres num outro incidente áereo, sem mortos e feridos, e só pra pesar mais um pouqinho, os mortos e feridos de São Paulo, diariamente são muito mais que 300... estejam eles a pé, de carro, de moto, ou de navio... eita mundo pesado! é por isso que o real, pra mim, é a mais pura ficção, mas na maioria das vezes tão mal escrito...
come vanno le cose. e che cosa le guida? un niente. Tabucchi.
como vão as coisas. e o que as guia? um nada.
a filosofia tenta colocar como verdade um sistema que por vezes nos parece fictício.
a literatura coloca como fictício a fantasia, o que muitas vezes nos parece verdade.
das leituras tabucchianas.
o peso:
me contaram uma história engraçada: que um jogador de futebol não tinha sido contratado por um grande time só porque era homossexual... e que um juiz tinha sido favorável à direção do grande time... também me disseram que o Cansei, movimento contrário ao presidente Lula, tem grande participação da OAB, que, pelo que sabemos, tem como presidente um advogado que defendeu certos pastores numa certa confusão com doláres num outro incidente áereo, sem mortos e feridos, e só pra pesar mais um pouqinho, os mortos e feridos de São Paulo, diariamente são muito mais que 300... estejam eles a pé, de carro, de moto, ou de navio... eita mundo pesado! é por isso que o real, pra mim, é a mais pura ficção, mas na maioria das vezes tão mal escrito...
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
insustentável leveza...
tudo o que quer me dar
é demais, é pesado
não há paz
tudo o que quer de mim
irreais expectativas desleais...
Vanessa da Mata.
encontros ideais e estranhas abordagens no meio do caminho:
"o que faz aqui? veio bisbilhotar o quê?"
expectativa do retorno:
não há paz, é pesado demais...
é demais, é pesado
não há paz
tudo o que quer de mim
irreais expectativas desleais...
Vanessa da Mata.
encontros ideais e estranhas abordagens no meio do caminho:
"o que faz aqui? veio bisbilhotar o quê?"
expectativa do retorno:
não há paz, é pesado demais...
segunda-feira, 2 de julho de 2007
o imáginario e o real da leitura...
a pergunta sobre o que é um leitor me surgiu a partir de Ricardo Piglia. lendo Piglia comecei a pensar em que tipo de leitor eu era...
talvez um leitor viciado, insone, que não consegue parar de ler, que encara a leitura como uma forma mesmo de vida... vivo neste mundo paralelo que às vezes toma conta da minha realidade...
alguns dias atrás, vivendo minha realidade, me deparei com uma lembrança de infância insistente, de quando eu tinha talvez cinco ou seis anos, me lembrei que pedia sempre à minha mãe pra enrolar minhas bonecas como se fossem bebês... não sei o que tinha de especial neste modo de enrolar as bonecas, sei que só minha mãe sabia fazer, e me veio um carinho singelo por este momento vivido...
revivendo nesta lembrança, perdida em qualquer abismo espaço-temporal, encontrei uma colega de trabalho, e ela me dizia realisticamente qualquer coisa sobre alguém e ainda de dentro da minha lembrança eu não conseguia precisar quem era a moça, nem saber sobre que realidade ela me dizia... não sabia a quanto tempo ela estava ali e nunca havia experimentado essa sensação de alheamento...
não sei se posso explicar esta sensação, mas a idéia do Piglia (que é talvez borgeana) de que não existe tensão entre o real e o imaginário, ou melhor, de que tudo é real é que me fez pensar no sentido desta interposição de realidades... nem tudo é ficção, mas tudo pode ser lido como ficção, diz ainda o Piglia, não lemos a ficção como mais real do que o real, mas o real é que se deixa perturbar e contaminar pela ficção...
em mim então está tudo tão perpassado pela ficção que nem sei qual parte de qual citação faço parte... em qual leitura me perdi e em qual delas me posso achar...
talvez um leitor viciado, insone, que não consegue parar de ler, que encara a leitura como uma forma mesmo de vida... vivo neste mundo paralelo que às vezes toma conta da minha realidade...
alguns dias atrás, vivendo minha realidade, me deparei com uma lembrança de infância insistente, de quando eu tinha talvez cinco ou seis anos, me lembrei que pedia sempre à minha mãe pra enrolar minhas bonecas como se fossem bebês... não sei o que tinha de especial neste modo de enrolar as bonecas, sei que só minha mãe sabia fazer, e me veio um carinho singelo por este momento vivido...
revivendo nesta lembrança, perdida em qualquer abismo espaço-temporal, encontrei uma colega de trabalho, e ela me dizia realisticamente qualquer coisa sobre alguém e ainda de dentro da minha lembrança eu não conseguia precisar quem era a moça, nem saber sobre que realidade ela me dizia... não sabia a quanto tempo ela estava ali e nunca havia experimentado essa sensação de alheamento...
não sei se posso explicar esta sensação, mas a idéia do Piglia (que é talvez borgeana) de que não existe tensão entre o real e o imaginário, ou melhor, de que tudo é real é que me fez pensar no sentido desta interposição de realidades... nem tudo é ficção, mas tudo pode ser lido como ficção, diz ainda o Piglia, não lemos a ficção como mais real do que o real, mas o real é que se deixa perturbar e contaminar pela ficção...
em mim então está tudo tão perpassado pela ficção que nem sei qual parte de qual citação faço parte... em qual leitura me perdi e em qual delas me posso achar...
sexta-feira, 29 de junho de 2007
aos pedaços...
uma canção:
Ah... Felicità
su quale treno della notte viaggerai
lo so che passerai
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai...
Lucio Dalla.
um sonho:
caminhando ao lado de alguém que muito amei, de repente pergunto se ele sabia que eu era a mulher de sua vida, ele me responde que sim, e quando chegamos em sua casa, sua cama preparada, com muitas flores ao redor, como se assim posto, esperasse sua morte, que em breve viria...
um leitor:
aquele viciado, insone, que procura sem fim citações e referências, de livro em livro, não se cansa nunca..
Mas o que é mesmo um leitor?
Ah... Felicità
su quale treno della notte viaggerai
lo so che passerai
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai...
Lucio Dalla.
um sonho:
caminhando ao lado de alguém que muito amei, de repente pergunto se ele sabia que eu era a mulher de sua vida, ele me responde que sim, e quando chegamos em sua casa, sua cama preparada, com muitas flores ao redor, como se assim posto, esperasse sua morte, que em breve viria...
um leitor:
aquele viciado, insone, que procura sem fim citações e referências, de livro em livro, não se cansa nunca..
Mas o que é mesmo um leitor?
quinta-feira, 14 de junho de 2007
metropolitanas...
lendo o Borges estes dias, acreditei estar lendo o Tabucchi... jardins que se bifurcam: o Borges dizia que o livro é uma extensão da memória e da imaginação, e se perguntava "que é o nosso passado, se não uma série de sonhos? que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado?", Tabucchi me responderia a estas questões dizendo que a memória é uma falsária, que engana a todos, misturando às certezas do vivido, as incertezas do imaginado, do sonhado...
ouvindo quase sem querer a conversa de duas moças jovens e bonitas, no metrô, e tentando jogar um jogo tabucchiano, escrevi o que vem logo abaixo, tomando o cuidado, claro, de situar minhas palavras entre a realidade, a imaginação e o sonho.
Vingança. Coisa de mulher. Mulher é que pensa nos detalhes. Sabe como ela imaginou? De tarde. No café que sempre frequentavam juntos. Porque sabia que ele viria. Ela estava certa. Era uma questão de contrato. Acordo feito e selado. Quando não se cumprem as regras, então, tudo acaba. Estaria então tudo acabado? Quem não cumprira as regras? Ele? Ela chegou atrasada. Havia uma manifestação no caminho. Na Libero Badaró. O centro congestionado. Os olhares sindicais. Sempre vermelhos. Alguns olhos amarelos também. O café esfriara, de tanto esperar. Muita gente entrava e saía àquela hora do dia. O café cheirava longe. A vida é assim, dizia uma jovem, um dia da caça... o outro é da caça também, completava a primeira, eu chorei, por que ele não pode chorar?...
Refrão. Repetidas vezes aquela conversa no ouvido. A loira jovem aconselhava, e a morena, um pouco mais velha, ouvia, contrariamente. As duas com roupas coloridas, conforme o calor da estação. As cores exalavam seus perfumes. Ela olhou para outras mulheres, sempre jovens. Desejou estar usando óculos escuros, pr'os olhos nublados. Desejou ser homem. Pra amar sem pesar. E prender e soltar. E partir e ficar, se quisesse.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar, mas eu vivo, vivo, muito, vivo...
Fizera de novo. Modificara o refrão. Repetidas vezes. A idéia vaga, ilógica, de que alguma coisa deviria retornar e recomeçar o ciclo, com ligeiras modificações. Ou quantas vezes deveria morrer? e em quantos sonhos? No passado, nos sonhos, não poderia dizer onde estava. Teria vivido mesmo tudo aquilo que agora pensava ter vivido? Fazia um esforço para lembrar onde se haviam conhecido. Teriam mesmo se conhecido um dia? Ela afirmara categoricamente que sim, todos os dias. Talvez ele não gostasse de certezas, vivia no condicional. Ela acreditava imperfeitamente que ele precisava de certezas. Muitas vezes as mulheres acreditam no imperativo, no contrato, no chão em que pisam, na força de não se abismar. Seriam os homens o abismo sem fim? e assim sendo, é tudo o que uma mulher poderia desejar?, abismar-se? cair indefinidamente?, é possível cair por todo o sempre? e caindo, não se morre? não se recomeça? o que significa a repetição infindável do fim? tem algum sentido pra você?
eu busco pouco por sentidos assim definidos. Ele havia dito a sentença serena, serenante. Viver as paixões sem palavras, deixar que os sentidos signifiquem sem palavras.
Ela olhou para a própria bolsa sobre a mesa, deixada ali aberta, exposta. Um livro, um casaco, chaves.
Agora não saberia dizer como a história terminaria, nem mesmo se teria um dia começado. Pensou na inútil vingança enquanto bebia o último gole do frio café. Talvez, ele dissera. Ela sempre apostara na sua certeza, que agora, neste exato momento, era a mais incerta possível.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar...
ouvindo quase sem querer a conversa de duas moças jovens e bonitas, no metrô, e tentando jogar um jogo tabucchiano, escrevi o que vem logo abaixo, tomando o cuidado, claro, de situar minhas palavras entre a realidade, a imaginação e o sonho.
Vingança. Coisa de mulher. Mulher é que pensa nos detalhes. Sabe como ela imaginou? De tarde. No café que sempre frequentavam juntos. Porque sabia que ele viria. Ela estava certa. Era uma questão de contrato. Acordo feito e selado. Quando não se cumprem as regras, então, tudo acaba. Estaria então tudo acabado? Quem não cumprira as regras? Ele? Ela chegou atrasada. Havia uma manifestação no caminho. Na Libero Badaró. O centro congestionado. Os olhares sindicais. Sempre vermelhos. Alguns olhos amarelos também. O café esfriara, de tanto esperar. Muita gente entrava e saía àquela hora do dia. O café cheirava longe. A vida é assim, dizia uma jovem, um dia da caça... o outro é da caça também, completava a primeira, eu chorei, por que ele não pode chorar?...
Refrão. Repetidas vezes aquela conversa no ouvido. A loira jovem aconselhava, e a morena, um pouco mais velha, ouvia, contrariamente. As duas com roupas coloridas, conforme o calor da estação. As cores exalavam seus perfumes. Ela olhou para outras mulheres, sempre jovens. Desejou estar usando óculos escuros, pr'os olhos nublados. Desejou ser homem. Pra amar sem pesar. E prender e soltar. E partir e ficar, se quisesse.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar, mas eu vivo, vivo, muito, vivo...
Fizera de novo. Modificara o refrão. Repetidas vezes. A idéia vaga, ilógica, de que alguma coisa deviria retornar e recomeçar o ciclo, com ligeiras modificações. Ou quantas vezes deveria morrer? e em quantos sonhos? No passado, nos sonhos, não poderia dizer onde estava. Teria vivido mesmo tudo aquilo que agora pensava ter vivido? Fazia um esforço para lembrar onde se haviam conhecido. Teriam mesmo se conhecido um dia? Ela afirmara categoricamente que sim, todos os dias. Talvez ele não gostasse de certezas, vivia no condicional. Ela acreditava imperfeitamente que ele precisava de certezas. Muitas vezes as mulheres acreditam no imperativo, no contrato, no chão em que pisam, na força de não se abismar. Seriam os homens o abismo sem fim? e assim sendo, é tudo o que uma mulher poderia desejar?, abismar-se? cair indefinidamente?, é possível cair por todo o sempre? e caindo, não se morre? não se recomeça? o que significa a repetição infindável do fim? tem algum sentido pra você?
eu busco pouco por sentidos assim definidos. Ele havia dito a sentença serena, serenante. Viver as paixões sem palavras, deixar que os sentidos signifiquem sem palavras.
Ela olhou para a própria bolsa sobre a mesa, deixada ali aberta, exposta. Um livro, um casaco, chaves.
Agora não saberia dizer como a história terminaria, nem mesmo se teria um dia começado. Pensou na inútil vingança enquanto bebia o último gole do frio café. Talvez, ele dissera. Ela sempre apostara na sua certeza, que agora, neste exato momento, era a mais incerta possível.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar...
sexta-feira, 8 de junho de 2007
notas italianas...
in bilico
tra santi e falsi dei
sorretto da un’insensata voglia di equilibrio
Negramaro.
Sou um poeta,
sou um ator,
mas de manhã desperto, me visto,
enfio os sapatos,
saio para a rua e sou como todos,
e na rua passam os passantes,
e eu os olho, e sorrio porque passam,
e também eu passo e ninguém me nota.
O senhor Pirandello é esperado ao telefone.
A. Tabucchi.
tra santi e falsi dei
sorretto da un’insensata voglia di equilibrio
Negramaro.
Sou um poeta,
sou um ator,
mas de manhã desperto, me visto,
enfio os sapatos,
saio para a rua e sou como todos,
e na rua passam os passantes,
e eu os olho, e sorrio porque passam,
e também eu passo e ninguém me nota.
O senhor Pirandello é esperado ao telefone.
A. Tabucchi.
domingo, 3 de junho de 2007
entre línguas...
na tentativa de ler um pequeno poema em prosa de Baudelaire, do Spleen de Paris, me deparei com um grande problema: não leio francês, talvez algumas poucas palavras eu entenda; achei na net uma versão do texto em inglês, mas meus inglês é precário, me ajuda com algumas estruturas; por fim uma em espanhol, e pra compreensão do espanhol me faltam apenas algumas conjunções e alguns verbos... nada que um dicionário online de italiano/francês/inglês não resolva... ao fim das leituras, consegui (acho) entender o texto e ainda arrisquei uma tradução, embora eu saiba que com certeza temos uma tradução respeitável em português, em algum lugar deste país...
Anywhere Out of the World
(Não importa onde, fora do mundo)
A vida é um hospital onde cada paciente é possuído pelo desejo de mudar de leito. Um quer padecer em frente a uma estufa e outro acredita que ficará bem, próximo da janela.
Parece-me que eu estarei sempre bem onde não estou, e esta mudança é uma questão que discuto incansavelmente com minha alma.
“Diga-me, alma minha, minha pobre e fria alma, o que achas de morar em Lisboa? Deve ser quente lá, e tu serias capaz de absorver o sol como um lagarto. Aquela cidade é próxima do litoral; dizem que ela é feita de mármore, e que as pessoas de lá têm ódio dos vegetais e arrancam todas as árvores. Esta é uma paisagem que te agradarias, feita de luz e mineral, e água para refleti-los”.
Minha alma não respondeu.
“Já que gostas tanto do repouso, somado ao espetáculo do movimento, queres ir para a Holanda, aquela terra bendita? Talvez te divirtas nesse país cuja imagem admiraste tantas vezes nos museus. Que tal Rotterdam, te agradas os bosques de mastros e os navios ancorados aos pés das casas?”.
Minha alma segue calada.
“Talvez te agradasses mais Batavia? Encontraríamos nela, desde já, o espírito da Europa enlaçado à beleza tropical”.
Nenhuma palavra. Teria morrido minha alma?
"A que ponto de entorpecimento chegaste que somente com teu próprio mal te rejubilas? Se é assim, vamos fugir para países que são a analogia da Morte. Já tenho o que nos convém, pobre alma! Vamos fazer as malas para Bornéo. Vamos ainda mais além, até o último extremo do Báltico, mais longe ainda da vida, se é possível; vamos nos instalar no Pólo. Ali onde o sol não toca mais que obliquamente a terra, e as lentas alternações entre luz e escuridão suprimem a variação e aumentam a monotonia, que é a metade do nada. Ali poderemos tomar longos banhos de trevas, contanto que, para nos divertir, as auroras boreais nos enviem, de tempos em tempos, seus feixes de luz rosados e brilhantes, como reflexos de um fogo artificial do inferno”.
Finalmente minha alma explode e sabiamente me grita: “Não importa para onde! Não importa para onde! Contanto que seja para fora deste mundo!”.
Anywhere Out of the World
(Não importa onde, fora do mundo)
A vida é um hospital onde cada paciente é possuído pelo desejo de mudar de leito. Um quer padecer em frente a uma estufa e outro acredita que ficará bem, próximo da janela.
Parece-me que eu estarei sempre bem onde não estou, e esta mudança é uma questão que discuto incansavelmente com minha alma.
“Diga-me, alma minha, minha pobre e fria alma, o que achas de morar em Lisboa? Deve ser quente lá, e tu serias capaz de absorver o sol como um lagarto. Aquela cidade é próxima do litoral; dizem que ela é feita de mármore, e que as pessoas de lá têm ódio dos vegetais e arrancam todas as árvores. Esta é uma paisagem que te agradarias, feita de luz e mineral, e água para refleti-los”.
Minha alma não respondeu.
“Já que gostas tanto do repouso, somado ao espetáculo do movimento, queres ir para a Holanda, aquela terra bendita? Talvez te divirtas nesse país cuja imagem admiraste tantas vezes nos museus. Que tal Rotterdam, te agradas os bosques de mastros e os navios ancorados aos pés das casas?”.
Minha alma segue calada.
“Talvez te agradasses mais Batavia? Encontraríamos nela, desde já, o espírito da Europa enlaçado à beleza tropical”.
Nenhuma palavra. Teria morrido minha alma?
"A que ponto de entorpecimento chegaste que somente com teu próprio mal te rejubilas? Se é assim, vamos fugir para países que são a analogia da Morte. Já tenho o que nos convém, pobre alma! Vamos fazer as malas para Bornéo. Vamos ainda mais além, até o último extremo do Báltico, mais longe ainda da vida, se é possível; vamos nos instalar no Pólo. Ali onde o sol não toca mais que obliquamente a terra, e as lentas alternações entre luz e escuridão suprimem a variação e aumentam a monotonia, que é a metade do nada. Ali poderemos tomar longos banhos de trevas, contanto que, para nos divertir, as auroras boreais nos enviem, de tempos em tempos, seus feixes de luz rosados e brilhantes, como reflexos de um fogo artificial do inferno”.
Finalmente minha alma explode e sabiamente me grita: “Não importa para onde! Não importa para onde! Contanto que seja para fora deste mundo!”.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
objetos para os cenários que virão...
na China, o elefante é considerado um animal de altíssimas qualidades morais. dizem que o ato sexual entre elefantes ocorre somente na água, pois os elefantes, assim como os humanos, apreciam a privacidade. o efefante simboliza também a gratidão, a força e a astúcia; andar de elefante (qi-xiang), principalmente se for uma criança sobre o animal, simboliza felicidade (ji-xiang) e boa fortuna.
na Índia, o deus Ganesha possui corpo humano e a cabeça de um elefante, é o símbolo das soluções lógicas, da prosperidade, é considerado mestre do intelecto e da sabedoria; é o Deus da Boa Fortuna que proporciona prosperidade e fortuna e também o Destruidor de Obstáculos, sejam estes de ordem material ou espiritual, e é por este motivo que sua graça é invocada antes de se iniciar qualquer tarefa.
devem existir muitos outros cultos deste animal espalhados pelo mundo, não sei se em todas as mitologias ele é um símbolo positivo como nestas duas, sei que nos EUA ele é o símbolo do Partido Republicano, e talvez isso tenha algo que ver com o filme Elephant, de Gus Van Sant, que vi há tempos atrás e sempre fiquei tecendo considerações sobre, uma delas, talvez a mais recente, era um paralelo deste filme com High School Music, da Disney, que, não tendo nada em comum, têm tudo a ver...
bom, mas o elefantes que pensei hoje vieram de um guardanapo indiano que vi numa loja de artesanato, usado pra enfeitar tampas de caixinhas de madeira, pra guardar cacarecos (eu colocaria várias coisinhas, pedrinhas, sementes, palavras, moedas novas e antigas, achadas e ganhadas)... fiquei horas ali olhando os elefantinhos delicados, as cores das jóias que enfeitavam o animal, pensei o que poderia significar todos aqueles símbolos para esta cultura tão distante da minha... e nada mais... gostei do elefantinho, era só isso...
na Índia, o deus Ganesha possui corpo humano e a cabeça de um elefante, é o símbolo das soluções lógicas, da prosperidade, é considerado mestre do intelecto e da sabedoria; é o Deus da Boa Fortuna que proporciona prosperidade e fortuna e também o Destruidor de Obstáculos, sejam estes de ordem material ou espiritual, e é por este motivo que sua graça é invocada antes de se iniciar qualquer tarefa.
devem existir muitos outros cultos deste animal espalhados pelo mundo, não sei se em todas as mitologias ele é um símbolo positivo como nestas duas, sei que nos EUA ele é o símbolo do Partido Republicano, e talvez isso tenha algo que ver com o filme Elephant, de Gus Van Sant, que vi há tempos atrás e sempre fiquei tecendo considerações sobre, uma delas, talvez a mais recente, era um paralelo deste filme com High School Music, da Disney, que, não tendo nada em comum, têm tudo a ver...
bom, mas o elefantes que pensei hoje vieram de um guardanapo indiano que vi numa loja de artesanato, usado pra enfeitar tampas de caixinhas de madeira, pra guardar cacarecos (eu colocaria várias coisinhas, pedrinhas, sementes, palavras, moedas novas e antigas, achadas e ganhadas)... fiquei horas ali olhando os elefantinhos delicados, as cores das jóias que enfeitavam o animal, pensei o que poderia significar todos aqueles símbolos para esta cultura tão distante da minha... e nada mais... gostei do elefantinho, era só isso...
quarta-feira, 30 de maio de 2007
cenário...
andei procurando destinações... e também cenários pra compor um jogo literário...
eis o primeiro:
cenário: rua São Bento, destino: metrô São Bento,
tempo: cinco da tarde, dia nublado...
personagens: muitos, desde o começo da rua até a entrada do mosteiro...
a primeira, uma mulher jovem, olhos muito verdes debaixo de um cabelo vermelho furioso... distribuindo panfletos a favor da legalização do aborto. olhou pra minha roupa, que nesse dia era preta, como se ela me colocasse necessariamente a favor de seu discurso... peguei o panfleto debaixo da fúria dos seus olhos, sorri e disse "obrigada"...
em meio aos passantes me veio um coro estranho, algo parecido com "olhaotica, olhaotica", que aos poucos se confirmou: um olheiro que dizia a emblemática frase a um outro mais adiante que a transmitia a um próximo, até o café Girondino, (que exala um perfume maravilhoso em meio à correria dos meus dias cinzentos...), atenta ao rumoroso coro, procurando a destinação da frase, uma mulher tropeça em uma grade de cds deixada deitada ali no chão, xinga qualquer coisa que não entendo e o vendedor amavelmente responde que da próxima vez construiria uma passarela cheia de flores pra ela passar sossegadamente...
no fim da rua, em frente ou ao lado do café, muito moços com camisetas vermelhas por cima das roupas multicoloridas me convidavam a fazer um teste grátis de visão...
não sei bem se meus olhos enxergam bem, mas continuo meu caminho sem tropeços...
eis o primeiro:
cenário: rua São Bento, destino: metrô São Bento,
tempo: cinco da tarde, dia nublado...
personagens: muitos, desde o começo da rua até a entrada do mosteiro...
a primeira, uma mulher jovem, olhos muito verdes debaixo de um cabelo vermelho furioso... distribuindo panfletos a favor da legalização do aborto. olhou pra minha roupa, que nesse dia era preta, como se ela me colocasse necessariamente a favor de seu discurso... peguei o panfleto debaixo da fúria dos seus olhos, sorri e disse "obrigada"...
em meio aos passantes me veio um coro estranho, algo parecido com "olhaotica, olhaotica", que aos poucos se confirmou: um olheiro que dizia a emblemática frase a um outro mais adiante que a transmitia a um próximo, até o café Girondino, (que exala um perfume maravilhoso em meio à correria dos meus dias cinzentos...), atenta ao rumoroso coro, procurando a destinação da frase, uma mulher tropeça em uma grade de cds deixada deitada ali no chão, xinga qualquer coisa que não entendo e o vendedor amavelmente responde que da próxima vez construiria uma passarela cheia de flores pra ela passar sossegadamente...
no fim da rua, em frente ou ao lado do café, muito moços com camisetas vermelhas por cima das roupas multicoloridas me convidavam a fazer um teste grátis de visão...
não sei bem se meus olhos enxergam bem, mas continuo meu caminho sem tropeços...
domingo, 27 de maio de 2007
entre as palavras e as pessoas...
estava pensando nas esquisitices que costumo elogiar sempre por meio de palavras...
uma amiga me disse assim que não gosta quando uso palavras esquisitas pra exprimir uma inútil opinião forçosamente intelectualizada sobre uma coisa assim tão banal como um comentário sobre a vitrine de uma loja de noivas... o mesmo se uso palavras demasiadamente literárias pra dizer que gostei de um filme que vi ou uma canção que ouvi...
um outro amigo me tornou sua fã incondicional ao me escrever palavras doces e sedutoras, mágicas e confortáveis num dia de tão inesperada tristeza...
outro dia um moço me disse que as palavras são coisas do diabo, nada de manifestação divina... e sempre trazem consigo um equívoco, qualquer equívoco... e me fez triste com tantas outras palvras, que ainda não entendi...
um amigo poeta sempre usa palavras bonitas, às vezes díficeis, às vezes agressivas, às vezes sangrentas, pra exprimir qualquer doce encanto cotidiano, e quando fala usa todos os palavrões que dispõe no seu vasto vocabulário pra se pronunciar sobre qualquer coisa, por mais culta que seja...
outro dia usei dois palavrões se referindo a uma atitude bestial do meu irmão e e ele me respondeu despejando muitas palavras ofensivas, mas nenhum palavrão...
Manu vive me perguntando sobre palavras, aquelas que ela não sabe, aquelas que eu não sei, aquelas que querem dizer coisas diferentes do que parecem, aquelas que aparentemente não querem dizer nada...
vai entender que ciranda necessária é esta... vai pensar sem palavras pra ver... neste momento não encontro nenhuma palavra pra expressar minha imensa confusão diante das tão (des)necessárias palavras...
uma amiga me disse assim que não gosta quando uso palavras esquisitas pra exprimir uma inútil opinião forçosamente intelectualizada sobre uma coisa assim tão banal como um comentário sobre a vitrine de uma loja de noivas... o mesmo se uso palavras demasiadamente literárias pra dizer que gostei de um filme que vi ou uma canção que ouvi...
um outro amigo me tornou sua fã incondicional ao me escrever palavras doces e sedutoras, mágicas e confortáveis num dia de tão inesperada tristeza...
outro dia um moço me disse que as palavras são coisas do diabo, nada de manifestação divina... e sempre trazem consigo um equívoco, qualquer equívoco... e me fez triste com tantas outras palvras, que ainda não entendi...
um amigo poeta sempre usa palavras bonitas, às vezes díficeis, às vezes agressivas, às vezes sangrentas, pra exprimir qualquer doce encanto cotidiano, e quando fala usa todos os palavrões que dispõe no seu vasto vocabulário pra se pronunciar sobre qualquer coisa, por mais culta que seja...
outro dia usei dois palavrões se referindo a uma atitude bestial do meu irmão e e ele me respondeu despejando muitas palavras ofensivas, mas nenhum palavrão...
Manu vive me perguntando sobre palavras, aquelas que ela não sabe, aquelas que eu não sei, aquelas que querem dizer coisas diferentes do que parecem, aquelas que aparentemente não querem dizer nada...
vai entender que ciranda necessária é esta... vai pensar sem palavras pra ver... neste momento não encontro nenhuma palavra pra expressar minha imensa confusão diante das tão (des)necessárias palavras...
terça-feira, 22 de maio de 2007
primeira resposta à minha busca das coisas simples...
"observando o mar infinito, já me estava a abandonar ao mal-estar que o desengano provoca, quando uma nuvem azul desceu sobre mim e arrebatou-me para um sonho: e sonhei que te escrevia esta carta, e que eu não era o grego que partiu em busca do Ocidente e não voltou mais, mas que estava apenas a sonhá-lo". A. Tabucchi.minha euforia passou. não acabou, mas passou, confesso.
não quero mais estar confinada em mim, por isso, ao menos por hoje, preciso pensar um novo título pra este blog...
quem sabe abrir para as respostas singelas que me vêm bater à porta (quase) todos os dias...
uma delas, numa suave melodia, enquanto estava pensando na mulher de Porto Pim, qualquer localidade (desconhecida por mim) na Ilha dos Açores...
"Bom dia Senhorita, minha Roma a seduzir os Bárbaros.
Se ao invés de batalhas sangrentas esses povos tivessem feito amor, usaríamos a língua para coisas muito mais excitantes e prazerosas, além disso, eu teria menos resfriados.
Na verdade, os meus resfriados já passaram, agora sou um homem grego em formação, saudável como água de chuva no espírito.
Olha, não se engane, não sou confuso, nunca fui confuso, apenas, o modo como comunico minhas certezas é constituído de poesia concentrada, sabor frutas do norte, graviola, cupuaçu, açaí...
Estou tranqüilo, um monge tibetano no alto da montanha a observar o universo e a meditar sobre as possibilidades da carne.
Na quinta, aparentemente, estarei livre, estarei livre todos os dias, pois necessito disso para sobreviver, mas prefiro os fins de semana nos quais há
ócio e minha mente fica mais tranqüila - não a ponto de eu confundir isso
com normalidade.
não quero mais estar confinada em mim, por isso, ao menos por hoje, preciso pensar um novo título pra este blog...
quem sabe abrir para as respostas singelas que me vêm bater à porta (quase) todos os dias...
uma delas, numa suave melodia, enquanto estava pensando na mulher de Porto Pim, qualquer localidade (desconhecida por mim) na Ilha dos Açores...
"Bom dia Senhorita, minha Roma a seduzir os Bárbaros.
Se ao invés de batalhas sangrentas esses povos tivessem feito amor, usaríamos a língua para coisas muito mais excitantes e prazerosas, além disso, eu teria menos resfriados.
Na verdade, os meus resfriados já passaram, agora sou um homem grego em formação, saudável como água de chuva no espírito.
Olha, não se engane, não sou confuso, nunca fui confuso, apenas, o modo como comunico minhas certezas é constituído de poesia concentrada, sabor frutas do norte, graviola, cupuaçu, açaí...
Estou tranqüilo, um monge tibetano no alto da montanha a observar o universo e a meditar sobre as possibilidades da carne.
Na quinta, aparentemente, estarei livre, estarei livre todos os dias, pois necessito disso para sobreviver, mas prefiro os fins de semana nos quais há
ócio e minha mente fica mais tranqüila - não a ponto de eu confundir isso
com normalidade.
Ser normal é a condição básica de uma vida inexpressiva e previsível. Prefiro o novo, perigosamente desconhecido e inadaptável.
Prefiro a linguagem própria e indefinível da inadequação."
Prefiro a linguagem própria e indefinível da inadequação."
sábado, 19 de maio de 2007
trilha sonora...
ouvir seu jorge cantando bowie dentro de um filme do wes andersen... isso faz muito a minha cabeça... queen bitch e life on mars? além de rebel rebel...
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY&mode=related&search==
o primeiro filme que vi do andersen foi os tenenbauns, depois de muitas e muitas exibições pra mim mesma, sempre gostando muito da trilha sonora, vi o steve zissou. dentre as esquisitices e bizarrices em cenário kitsch, gosto mais dos ratinhos do primeiro... embora as versões pro bowie sejam da melhor qualidade possível e toquem a minha imaginação...
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY&mode=related&search==
o primeiro filme que vi do andersen foi os tenenbauns, depois de muitas e muitas exibições pra mim mesma, sempre gostando muito da trilha sonora, vi o steve zissou. dentre as esquisitices e bizarrices em cenário kitsch, gosto mais dos ratinhos do primeiro... embora as versões pro bowie sejam da melhor qualidade possível e toquem a minha imaginação...
sexta-feira, 18 de maio de 2007
beckettianas...
IMPROVISO DE OHIO.
SAMUEL BECKETT
O - Ouvinte
L - Leitor
Tão semelhantes quanto possível.Única parte iluminada, no centro do palco: uma mesa comum de pinho, de dois metros por um, aproximadamente.Duas cadeiras do mesmo tipo,de pinho, sem apoio para os braços.
O: sentado de frente na extremidade do lado comprido da mesa, à direita (com relação à sala). Cabeça inclinada, apoiada na mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.
L: sentado de perfil no meio do lado curto, à direita. Cabeça inclinada apoiada sobre a mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Diante dele, sobre a mesa, um livro aberto nas últimas páginas. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.No centro da mesa, um chapéu grande de feltro negro com abas largas.Aumentar lentamente a iluminação.Dez segundos.L vira a página.
Pausa.L: (lendo). Resta pouco a dizer. Numa última _
O bate com a mão esquerda sobre a mesa (Batida).
Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos por tanto tempo e se instalou num único cômodo, na outra margem. Pela única janela ele avistava rio abaixo a extremidade da Ilha dos Cisnes.
Pausa. Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Pausa. Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Em seus sonhos _
Batida. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Batida. Em seus sonhos ele tinha sido prevenido contra essa mudança. Tinha visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Podia ele _
Batida. Visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Batida. Podia ele agora voltar atrás? Reconhecer seu erro e voltar para onde outrora por tanto tempo eles foram dois a sós? Dois a sós tudo partilharam. Não. O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia nunca ser desfeito. Por ele a sós.
Pausa. Nesse extremo seu velho terror da noite voltou. Tanto tempo depois, como se nunca fora. (Pausa. Ele olha de mais perto.) Sim, tanto tempo depois, como se nunca fora. Redobrados agora os terríveis sintomas descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro. (Ele quer buscar o trecho. Com a mão esquerda, O o detém. Ele retoma a página abandonada.) Noites em claro doravante seu quinhão. Como quando seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do _(Ele vira a página) raiar do dia.
Pausa. Resta pouco a dizer. Uma noite _Batida. Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Uma noite em que estava sentado tremendo com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e lhe disse, Fui mandado por _e nomeou o nome querido_ a fim de te consolar. Depois, do bolso de seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até o raiar do dia. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Algum tempo depois ele reapareceu à mesma hora com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo sentou-se e leu-o até o fim durante toda a longa noite. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Assim de tempo em tempo de improviso ele reaparecia para reler até o fim a triste história e adormecer a longa noite. Depois desaparecia sem uma palavra.
Pausa. Sem jamais trocar uma única palavra eles se tornaram como que um só.
Pausa. Veio enfim a noite em que fechado o livro aos primeiros raios de luz ele não desapareceu mas ficou sentado sem uma palavra.
Pausa. Finalmente ele disse, Fui avisado _e nomeou o nome querido_ de que não voltaria mais. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Assim a triste _
Batida. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Batida. Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos não, não pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar. Nenhum ruído. Assim ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história uma última vez redita.
Pausa. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele quer fechar o livro.Batida. Livro ainda entreaberto. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele fecha o livro.Batida.Silêncio. Cinco segundos.Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham. Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação.
Tradução de LEYLA PERRONE-MOISÉS.
A primeira vez que li este texto tinha 19 anos... de lá pra cá já foram muitas e muitas releituras, mas sempre consigo encontrar algo de novo. Não é só um texto sobre a morte, é um texto sobre todos os fins e todos os começos. Sobre a impossibilidade de esquecer. sobre aquilo que sentimos ir e queremos manter... Acho que não temos muito tempo na vida pra permanecer apegados a algo, porque não permancemos... mas algumas coisão vão sempre estar conosco... e ouso dizer isso nesse tempo efêmero que vivemos, tempo sem um sempre... o meu sempre, o seu, o nosso...
além disso tem os abismos de consciência... e de inconsciência... meu estado permanente, meu ser abismado diante do nada profundo... esta sensação existia em mim antes desta leitura de Beckett, mas esta sempre me pareceu a expressão mais eficaz pra traduzir o meu vago existir...
SAMUEL BECKETT
O - Ouvinte
L - Leitor
Tão semelhantes quanto possível.Única parte iluminada, no centro do palco: uma mesa comum de pinho, de dois metros por um, aproximadamente.Duas cadeiras do mesmo tipo,de pinho, sem apoio para os braços.
O: sentado de frente na extremidade do lado comprido da mesa, à direita (com relação à sala). Cabeça inclinada, apoiada na mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.
L: sentado de perfil no meio do lado curto, à direita. Cabeça inclinada apoiada sobre a mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Diante dele, sobre a mesa, um livro aberto nas últimas páginas. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.No centro da mesa, um chapéu grande de feltro negro com abas largas.Aumentar lentamente a iluminação.Dez segundos.L vira a página.
Pausa.L: (lendo). Resta pouco a dizer. Numa última _
O bate com a mão esquerda sobre a mesa (Batida).
Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos por tanto tempo e se instalou num único cômodo, na outra margem. Pela única janela ele avistava rio abaixo a extremidade da Ilha dos Cisnes.
Pausa. Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Pausa. Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Em seus sonhos _
Batida. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Batida. Em seus sonhos ele tinha sido prevenido contra essa mudança. Tinha visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Podia ele _
Batida. Visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Batida. Podia ele agora voltar atrás? Reconhecer seu erro e voltar para onde outrora por tanto tempo eles foram dois a sós? Dois a sós tudo partilharam. Não. O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia nunca ser desfeito. Por ele a sós.
Pausa. Nesse extremo seu velho terror da noite voltou. Tanto tempo depois, como se nunca fora. (Pausa. Ele olha de mais perto.) Sim, tanto tempo depois, como se nunca fora. Redobrados agora os terríveis sintomas descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro. (Ele quer buscar o trecho. Com a mão esquerda, O o detém. Ele retoma a página abandonada.) Noites em claro doravante seu quinhão. Como quando seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do _(Ele vira a página) raiar do dia.
Pausa. Resta pouco a dizer. Uma noite _Batida. Resta pouco a dizer.Pausa. Batida. Uma noite em que estava sentado tremendo com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e lhe disse, Fui mandado por _e nomeou o nome querido_ a fim de te consolar. Depois, do bolso de seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até o raiar do dia. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Algum tempo depois ele reapareceu à mesma hora com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo sentou-se e leu-o até o fim durante toda a longa noite. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa. Assim de tempo em tempo de improviso ele reaparecia para reler até o fim a triste história e adormecer a longa noite. Depois desaparecia sem uma palavra.
Pausa. Sem jamais trocar uma única palavra eles se tornaram como que um só.
Pausa. Veio enfim a noite em que fechado o livro aos primeiros raios de luz ele não desapareceu mas ficou sentado sem uma palavra.
Pausa. Finalmente ele disse, Fui avisado _e nomeou o nome querido_ de que não voltaria mais. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Assim a triste _
Batida. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Batida. Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos não, não pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar. Nenhum ruído. Assim ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história uma última vez redita.
Pausa. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele quer fechar o livro.Batida. Livro ainda entreaberto. Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele fecha o livro.Batida.Silêncio. Cinco segundos.Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham. Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação.
Tradução de LEYLA PERRONE-MOISÉS.
A primeira vez que li este texto tinha 19 anos... de lá pra cá já foram muitas e muitas releituras, mas sempre consigo encontrar algo de novo. Não é só um texto sobre a morte, é um texto sobre todos os fins e todos os começos. Sobre a impossibilidade de esquecer. sobre aquilo que sentimos ir e queremos manter... Acho que não temos muito tempo na vida pra permanecer apegados a algo, porque não permancemos... mas algumas coisão vão sempre estar conosco... e ouso dizer isso nesse tempo efêmero que vivemos, tempo sem um sempre... o meu sempre, o seu, o nosso...
além disso tem os abismos de consciência... e de inconsciência... meu estado permanente, meu ser abismado diante do nada profundo... esta sensação existia em mim antes desta leitura de Beckett, mas esta sempre me pareceu a expressão mais eficaz pra traduzir o meu vago existir...
terça-feira, 15 de maio de 2007
jogo do reverso...
“O leitor de contos policiais é alguém que lê com incredulidade, com desconfiança, uma desconfiança especial”. J. L. Borges.
Borges afirma, em um estudo sobre o conto policial, que o gênero policial nasce com E. A. Poe, que postulando a idéia de literatura como um fato intelectual, cria uma tradição do conto policial, em que um mistério é desvendado por obra da inteligência, através de uma operação de inteligência.
De acordo com Borges, Poe não queria que o gênero policial fosse algo realista, mas sim que fosse um gênero intelectual associado ao elemento fantástico. Assim o próprio Poe, segundo Borges, deveria ser considerado um escritor de contos fantásticos. O conto policial enquanto gênero intelectual, seria baseado em algo totalmente fictício. Neste tipo de conto, um crime é desvendado por alguém que raciocina de forma totalmente abstrata e não com base em delações, ou em descuidos cometidos pelos criminosos. Há ainda a idéia de se esconder algo de forma visível, de fazer com que algo se torne tão visível que ninguém o encontre, presente, por exemplo, na novela A carta roubada de Poe.
O que mais me atrai no gênero policial é a brincadeira com enigmas. A lógica destes enigmas é sempre a chave para a compreensão de toda a narrativa. É também um exercício do leitor, de adentrar a narrativa tentando achar respostas. Embora esta lógica, para Borges, acabe por destruir mesmo aquilo que o Poe pensou quando "inventou" o gênero, é ela que aprisiona o leitor, que faz com que ele busque saídas, como se a leitura fosse sempre um quebra-cabeça. Talvez nós, leitores contemporâneos, tenhamos mesmo um pouco de dificuldade em abrir mão desta lógica que rege o universo literário. Herança do positivismo. Mas ao mesmo tempo, há quem busque neste tipo de leitura "racionalística", uma descontrução da própria "verossimilhança". Como se fôssemos mais personagens que leitores. Afirmando, por exemplo, aquilo que o Borges diz, na sua idéia meio ao contrário que os leitores dos contos policiais é que são a criação de Poe.
Borges afirma, em um estudo sobre o conto policial, que o gênero policial nasce com E. A. Poe, que postulando a idéia de literatura como um fato intelectual, cria uma tradição do conto policial, em que um mistério é desvendado por obra da inteligência, através de uma operação de inteligência.
De acordo com Borges, Poe não queria que o gênero policial fosse algo realista, mas sim que fosse um gênero intelectual associado ao elemento fantástico. Assim o próprio Poe, segundo Borges, deveria ser considerado um escritor de contos fantásticos. O conto policial enquanto gênero intelectual, seria baseado em algo totalmente fictício. Neste tipo de conto, um crime é desvendado por alguém que raciocina de forma totalmente abstrata e não com base em delações, ou em descuidos cometidos pelos criminosos. Há ainda a idéia de se esconder algo de forma visível, de fazer com que algo se torne tão visível que ninguém o encontre, presente, por exemplo, na novela A carta roubada de Poe.
O que mais me atrai no gênero policial é a brincadeira com enigmas. A lógica destes enigmas é sempre a chave para a compreensão de toda a narrativa. É também um exercício do leitor, de adentrar a narrativa tentando achar respostas. Embora esta lógica, para Borges, acabe por destruir mesmo aquilo que o Poe pensou quando "inventou" o gênero, é ela que aprisiona o leitor, que faz com que ele busque saídas, como se a leitura fosse sempre um quebra-cabeça. Talvez nós, leitores contemporâneos, tenhamos mesmo um pouco de dificuldade em abrir mão desta lógica que rege o universo literário. Herança do positivismo. Mas ao mesmo tempo, há quem busque neste tipo de leitura "racionalística", uma descontrução da própria "verossimilhança". Como se fôssemos mais personagens que leitores. Afirmando, por exemplo, aquilo que o Borges diz, na sua idéia meio ao contrário que os leitores dos contos policiais é que são a criação de Poe.
domingo, 13 de maio de 2007
não tem por onde e nem tem porquê, mas precisa?
desculpas nem sempre são sinceras, quase nunca são... obrigação, convenção. isso me vem sempre a cabeça cada vez que um amigo por qualquer motivo me diz essa palavra: desculpa, penso: é mesmo necessário?...
quanto tempo temos antes de chegarem aquelas ondas...
mas será que a sorte virá? mágico teatro.
qualquer canção... entre as muitas ouvidas e reouvidas nesta última semana. o teatro mágico. realejo. os versos todos com muita doçura, talvez já na simples doçura que evoca a palavra realejo, entre as coisas singelas, entre os acordes melódicos que necessitamos... nenhum medo que possa contar...
ando com dificuldades em não fragmentar todo e qualquer pensamento. toda e qualquer canção. o mundo me chega em muitas partes.
quanto tempo temos antes de chegarem aquelas ondas...
mas será que a sorte virá? mágico teatro.
qualquer canção... entre as muitas ouvidas e reouvidas nesta última semana. o teatro mágico. realejo. os versos todos com muita doçura, talvez já na simples doçura que evoca a palavra realejo, entre as coisas singelas, entre os acordes melódicos que necessitamos... nenhum medo que possa contar...
ando com dificuldades em não fragmentar todo e qualquer pensamento. toda e qualquer canção. o mundo me chega em muitas partes.
domingo, 6 de maio de 2007
entre linhas...
meu amigo poeta me escreveu estes versos delicados... resolvi colocar na minha coleção de pensamentos singelos... é a vida toda.
uma
gota d'agua
caída no alçar da rede de um pescador...
é toda a vida.
domingo, 29 de abril de 2007
da arrogância e outros prazeres...
andando pela avenida paulista com um amigo e falando sobre coisas amenas ele me diz assim num susto que eu era arrogante, mas que entendia afinal a inteligência me autorizava... me senti muito ofendida e um pouco triste, afinal faço todo dia exercícios pra me desapegar de mim, e me torno cada dia mais "eu"?!
um moço que escreve muito bem e é muito inteligente escreveu assim que ser interessante autoriza certas escolhas...por exemplo, a exclusão da mediocridade...
ao final das contas pensei então que a arrogância é a mediocridade da inteligência, principalmente dessa nossa inteligência social e artificialmente construída... um pensamento ruim pra um começo de domingo outonal...
um moço que escreve muito bem e é muito inteligente escreveu assim que ser interessante autoriza certas escolhas...por exemplo, a exclusão da mediocridade...
ao final das contas pensei então que a arrogância é a mediocridade da inteligência, principalmente dessa nossa inteligência social e artificialmente construída... um pensamento ruim pra um começo de domingo outonal...
quinta-feira, 26 de abril de 2007
duas aprendizagens...entre idas e vindas...
duas aprendizagens: a dos prazeres violentos e a dos prazeres singelos.
dois estilos masculinos de escrita: o primeiro violento, cruel, sanguinário, irônico, malandro, homem; a escolha tem a ver com o fato de que eu estava tentando entender o que é um homem, passei o ano todo lendo Rubem Fonseca, não descobri o que era um homem, mas ri muito, e sentia que odiava e amava todos os homens de Fonseca ao mesmo tempo...
depois descobri um certo Antonio, o Tabucchi: sutil, irônico, às vezes; violento, às vezes; homem, inconfundível; me faz chorar muito, me faz rir com certa ternura no coração.
a busca da expressão mais simples: depois do turbilhão sem cura Rubem Fonseca, gosto quando o Antonio, o Tabucchi, me mostra o caos, e aponta para uma portinha.
Antonio della Rosa: sempre quis saber se você tinha olhos para ouvir...me diga...e sempre quis saber se você tinha ouvidos para ver...sente? não durmo não como não toco não sinto e não pego... o que foi que você fez? e por que fez isso? por que foi passar por ali, naquele beco sem rua, naquela noite sem gato?
"o mundo é um moinho, vai triturar os teus sonhos tão mesquinhos".
dois estilos masculinos de escrita: o primeiro violento, cruel, sanguinário, irônico, malandro, homem; a escolha tem a ver com o fato de que eu estava tentando entender o que é um homem, passei o ano todo lendo Rubem Fonseca, não descobri o que era um homem, mas ri muito, e sentia que odiava e amava todos os homens de Fonseca ao mesmo tempo...
depois descobri um certo Antonio, o Tabucchi: sutil, irônico, às vezes; violento, às vezes; homem, inconfundível; me faz chorar muito, me faz rir com certa ternura no coração.
a busca da expressão mais simples: depois do turbilhão sem cura Rubem Fonseca, gosto quando o Antonio, o Tabucchi, me mostra o caos, e aponta para uma portinha.
Antonio della Rosa: sempre quis saber se você tinha olhos para ouvir...me diga...e sempre quis saber se você tinha ouvidos para ver...sente? não durmo não como não toco não sinto e não pego... o que foi que você fez? e por que fez isso? por que foi passar por ali, naquele beco sem rua, naquela noite sem gato?
"o mundo é um moinho, vai triturar os teus sonhos tão mesquinhos".
domingo, 22 de abril de 2007
fim de domingo...
fim de domingo é bom pra ir ao cinema, ao teatro, pra ver os amigos... domingo passado quando voltava do teatro com um amigo, ele me contava dos motivos porque havia terminado com fulana, que era tão doce e meiga, e pegava na mão dele assim, sem querer cruzar os dedos, isso era muito obsceno... ele dizia que terminara com a ex-mulher por uma série x de motivos, uma certa atitude que, com o passar de anos, tornaram-se neuras de casal, então, porque vira nessa moça meiga certo gesto e a mesma fala, terminou, assim, de uma maneira meio abjeta...triste, por isso briguei com ele, me senti agredida, lembrei de um ex que terminara do mesmo jeito comigo... cumplicidade feminina, e disse pior, que ele agia como um daqueles homens que aos cinquenta começam a procurar meninas de vinte. então o furioso foi ele: por que precisamos nós dar nomes aos bois?, rotular, encaixar uma pessoa num perfil genérico?, ele, como eu, daí concordamos, odeia as pessoas que têm certeza de tudo que dizem ou fazem... e me disse que essa era uma das atitudes que o levaram a deixar a mulher... estive lendo em algum lugar, certo menino que escreveu assim que a inteligência dá o direito de se exigir mais, de se esperar mais do outro e de se escolher melhor, a mediocridade, ao invés, conforma.
acho que não entendo de homens e nem de mulheres, só que no meu desejo de simplificação, no ano do meu desejo de simplificação, gostaria que a palavra arrogância fosse superada, e que a minha inteligência me ajudasse a encontrar palavras mais simples, um querer mais simples, um viver mais simples... e que a minha simplificação da coisas não soasse nunca como mediocridade, mas como o primeiro passo para se ter uma vida melhor vivida, porque não quero viver de erros, de equivocos, mas eles estão em mim por toda parte, e ao redor de mim, me perguntam sem fim se eu fosse inteligente, se eu fosse mulher, se eu fosse forte, se eu fosse... acho que eu quero, como naquela canção, ter sorte na vida, e aprender com cada partida, cada despedida, e cada chegada... ter vinte e nove amigos outra vez...
acho que não entendo de homens e nem de mulheres, só que no meu desejo de simplificação, no ano do meu desejo de simplificação, gostaria que a palavra arrogância fosse superada, e que a minha inteligência me ajudasse a encontrar palavras mais simples, um querer mais simples, um viver mais simples... e que a minha simplificação da coisas não soasse nunca como mediocridade, mas como o primeiro passo para se ter uma vida melhor vivida, porque não quero viver de erros, de equivocos, mas eles estão em mim por toda parte, e ao redor de mim, me perguntam sem fim se eu fosse inteligente, se eu fosse mulher, se eu fosse forte, se eu fosse... acho que eu quero, como naquela canção, ter sorte na vida, e aprender com cada partida, cada despedida, e cada chegada... ter vinte e nove amigos outra vez...
quarta-feira, 18 de abril de 2007
brincadeira de roda...
se eu fosse um escritor agora queria ser Antonio Tabucchi, pra dizer com todas as suas letras que meu maior desejo agora é aquele de Simplificação, um pouco mais abaixo... é que minha vida ainda está tentando encontrar uma expressão mais simples, como diz, não o escritor, mas o professor-compositor. Acontece que também queria ser Beckett, e dizer em meio ao des-espero de suas-minhas personagens, que algo ou alguém há de vir, vai chegar e que juntos, poderão visitar algumas das cidades invisíveis de Calvino, e que diante da imprecisão das curvas e modos estranhos de se olhar e se viver, poderão sentir-se um pouco como as personagens pirandellianas, abismadas e sem saber onde como quando e porquê, mas que sim, que existem, fixadas ali, imunes ao tempo. O tempo é o sempre da Simplificação. Acontece que se eu escrevesse poesia, isso seria bem menos provável, queria ser também um leitor, paradoxalmente, para escrever, como Pessoa, que não tenho certeza de nada, sendo talvez menos certo ou mais errado, ou mais certo e menos errado, ou nem certo nem errado, e me ler, inadivertidamente. Então preferiria ser uma personagem, como aquela de Tabucchi que é um ator que interpreta dentro de um hospício Pessoa esperando uma ligação de Pirandello. Que não vem... porque Pirandello está procurando no universo calviniano um ponto seguro, não infernal, porque os infernos, ele bem sabe, estão por toda parte, e ele, como qualquer escritor, leitor, ou personagem, precisa descobrir, em meio ao caos, sendo dele filho, o que não é inferno... e então é o fim, o ator é sempre um fingidor, finge que é um poeta que finge que espera uma ligação que não vem... como numa brincadeira de roda... em que giram leitores, escritores, personagens, vida, ficção, ficção vida...
segunda-feira, 16 de abril de 2007
sobre um poema que não entendi...
"Passei horas pensando um verso que a pena não quer escrever..." C.D. Andrade.
mas não é esse o poema que não entendi... este é um daqueles que se imortalizaram no meu repertório de leitor... o poema que não entendi ainda não foi inteiramente escrito... está em processo, diz alguma coisa sobre nunca perder em si mesmo a "qualidade do afago", e o poeta ainda não se fez, está se fazendo...mas cada dia se faz melhor, entre durezas e afagos... mescla de dor à moda de Plínio Marcos e segredos especulares borgianos, alguma coisa assim, cada poeta é um leitor e traz naquilo que escreve marcas daquilo que leu, bem lido, mas só se as leituras, sejam de livros, sejam de vida, tenham ficado arraigadas na pele e na alma...assim é o meu poeta, ainda cambaleante, ainda fugindo, ainda dizendo eu sou, pra depois não ser, ou ser mais ainda...
mas não perdendo nunca, em meio a dureza das pedras que rolam, a qualidade doce do afago...
"o verso está cá vivo"
há de sair, eu sei...
eu hei de entender um dia...
mas não é esse o poema que não entendi... este é um daqueles que se imortalizaram no meu repertório de leitor... o poema que não entendi ainda não foi inteiramente escrito... está em processo, diz alguma coisa sobre nunca perder em si mesmo a "qualidade do afago", e o poeta ainda não se fez, está se fazendo...mas cada dia se faz melhor, entre durezas e afagos... mescla de dor à moda de Plínio Marcos e segredos especulares borgianos, alguma coisa assim, cada poeta é um leitor e traz naquilo que escreve marcas daquilo que leu, bem lido, mas só se as leituras, sejam de livros, sejam de vida, tenham ficado arraigadas na pele e na alma...assim é o meu poeta, ainda cambaleante, ainda fugindo, ainda dizendo eu sou, pra depois não ser, ou ser mais ainda...
mas não perdendo nunca, em meio a dureza das pedras que rolam, a qualidade doce do afago...
"o verso está cá vivo"
há de sair, eu sei...
eu hei de entender um dia...
sexta-feira, 6 de abril de 2007
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Schiele por Rubem Fonseca

As imagens de Schiele me foram apresentadas por Rubem Fonseca. Lendo A Santa de Schöneberg, um de meus contos preferidos, deparei com a descrição da figura de Edith: "Na parede uma enorme reprodução de uma pintura a óleo de uma mulher de pernas abertas e meias grossas escuras e blusa escura. Reconheci o quadro. Sitzende Frau mit hochgezogen Knie."
depois vi as pinturas em sites da net, e a paixão de Schiele me dominou também. Foi um pintor ousado e sua vida bastante instigante e insólita.
Suas figuras me tocam profundamente mas a primeira e a preferida ,esta que li em Fonseca, se fixou em mim e me vem quase como se fosse a própria face do pintor.
depois vi as pinturas em sites da net, e a paixão de Schiele me dominou também. Foi um pintor ousado e sua vida bastante instigante e insólita.
Suas figuras me tocam profundamente mas a primeira e a preferida ,esta que li em Fonseca, se fixou em mim e me vem quase como se fosse a própria face do pintor.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
leituras tabucchianas - pra começo de conversa...
"Più che un rammarico per quanto ho scritto è un rimpianto per ciò che non potrò mai leggere". A. Tabuchi.
Mais do que um lamento por aquilo que escrevi é uma nostalgia por aquilo que não poderei nunca ler...
saudade do que nunca vivi? Tabucchi conhece bem o significado da palavra saudade, disse em algum lugar que sente como realidade aquilo que escreve, viver não é o importante, o importante é o que escreve, porque, de certa forma também é vida...
engraçado como um autor entra na nossa vida e se instala e a muda completamente....Tabucchi entrou na minha faz uns três ou quatro meses... entrou como se fosse um pequeno engano sem importância...
"Mas o que poderia dizer-lhes, que se tratava de um pequeno engano sem remédio? porque enquanto pensava nisso, pensei também que tudo era realmente un enorme pequeno engano sem remédio que a vida estava levando embora, agora as partes estavam decididas e era impossível não recitá-las; e eu também, que tinha vindo com meu bloquinho de notas e também o meu simples olhar voltado àqueles que recitavam suas partes, também a minha era uma parte, e nisso consistia a minha culpa, no estar no jogo, porque não se pode subtrair-se a nada e se tem culpa de tudo, cada um a seu modo. E então me veio um grande cansaço e uma espécie de vergonha, e junto me veio uma idéia que tomou posse de mim e que eu não soube decifrar; algo que poderia chamar o desejo de Simplificação. Em um segundo, seguindo um novelo que estava se desenrolando com a velocidade de uma vertigem, entendi que estávamos ali devido a uma coisa que se chama Complicação, e que por séculos, por milênios, per milhões de anos ela condensou, camada sobre camada, circuitos sempre mais complexos, sistemas sempre mais complexos, até formar isto que agora somos e isto que estamos vivendo. E me veio a nostalgia da Simplificação, como se os milhões de anos que produziram os seres... estes milhões de anos por sortilégio se dissolvessem em um cisco de tempo feito de nada..."
de: "Piccoli equivoci senza importanza" (tradução minha).
é o jogo das partes, que cada um recita ao seu modo... pirandelliano, não? é também a busca da expressão mais simples... é também o mito de eterno retorno... são as fagulhas de pensamento que me vêm quando leio e escrevo...
há dias que tenho pensado no título de um filme que gosto muito: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e há dias que tenho pensado que minha memória das coisas é que me faz sentir que vivo... não sei porque, não é o presente que me angustia ou a incerteza de um futuro, mas é o desprender-se sem fim da vida a cada segundo, a impossibilidade de reter um segundo que acabou de passar... novamente a possibilidade da perda, que me assalta, me faz refém, não me deixa viver o que tenho... seja lá o que for...
Mais do que um lamento por aquilo que escrevi é uma nostalgia por aquilo que não poderei nunca ler...
saudade do que nunca vivi? Tabucchi conhece bem o significado da palavra saudade, disse em algum lugar que sente como realidade aquilo que escreve, viver não é o importante, o importante é o que escreve, porque, de certa forma também é vida...
engraçado como um autor entra na nossa vida e se instala e a muda completamente....Tabucchi entrou na minha faz uns três ou quatro meses... entrou como se fosse um pequeno engano sem importância...
"Mas o que poderia dizer-lhes, que se tratava de um pequeno engano sem remédio? porque enquanto pensava nisso, pensei também que tudo era realmente un enorme pequeno engano sem remédio que a vida estava levando embora, agora as partes estavam decididas e era impossível não recitá-las; e eu também, que tinha vindo com meu bloquinho de notas e também o meu simples olhar voltado àqueles que recitavam suas partes, também a minha era uma parte, e nisso consistia a minha culpa, no estar no jogo, porque não se pode subtrair-se a nada e se tem culpa de tudo, cada um a seu modo. E então me veio um grande cansaço e uma espécie de vergonha, e junto me veio uma idéia que tomou posse de mim e que eu não soube decifrar; algo que poderia chamar o desejo de Simplificação. Em um segundo, seguindo um novelo que estava se desenrolando com a velocidade de uma vertigem, entendi que estávamos ali devido a uma coisa que se chama Complicação, e que por séculos, por milênios, per milhões de anos ela condensou, camada sobre camada, circuitos sempre mais complexos, sistemas sempre mais complexos, até formar isto que agora somos e isto que estamos vivendo. E me veio a nostalgia da Simplificação, como se os milhões de anos que produziram os seres... estes milhões de anos por sortilégio se dissolvessem em um cisco de tempo feito de nada..."
de: "Piccoli equivoci senza importanza" (tradução minha).
é o jogo das partes, que cada um recita ao seu modo... pirandelliano, não? é também a busca da expressão mais simples... é também o mito de eterno retorno... são as fagulhas de pensamento que me vêm quando leio e escrevo...
há dias que tenho pensado no título de um filme que gosto muito: "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e há dias que tenho pensado que minha memória das coisas é que me faz sentir que vivo... não sei porque, não é o presente que me angustia ou a incerteza de um futuro, mas é o desprender-se sem fim da vida a cada segundo, a impossibilidade de reter um segundo que acabou de passar... novamente a possibilidade da perda, que me assalta, me faz refém, não me deixa viver o que tenho... seja lá o que for...
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