não é segredo pra ninguém que ler é viver uma outra existência, todo mundo já se viu um dia dentro de uma outra história que não fosse a sua, e quis até mesmo mudar o final.
Rodrigo Fresan, um "Borges pós moderno" conforme a orelha de seu livro "Os jardins de Kensigton" diz que "lendo vivemos muitas vidas" e que um livro é uma espécie de "ponto de fuga", um caminho pra desaparecer, pra fugir de si mesmo, da vida, dos outros, ou então pra se encontrar, quem sabe, no estranho silêncio da nossa leitura podemos deparar sons mágicos, que saem das palavras mesmas, como se cada palavra fosse uma nota musical, como as leituras musicais de uma partitura para um conhecedor de música:
"o silêncio que brota dos livros e nos envolve é um silêncio cheio de sons".
fui apresentada a Fresan, por meio da leitura desses "jardins"...
apesar deste título quase romântico, os jardins tratam da cultura pop, esquisito?, mas é isso, ou quase isso, trata da infância perdida e também do criador dos meninos perdidos mais celebrados pela nossa época cheia de peter pans... é uma análise des-apaixonada do nosso século XX, com críticas ferozes sobre nossa incapacidade de envelhecer, o breve século XX...
engraçado que me lembrei de um filme que não tem nada a ver com as temáticas "aparentes" do livro... nas digressões constantes do narrador sobre o que é escrever (um tema particularmente especial pra mim) o narrador (autor?) diz que escreve pra ser um outro... e isso me fez lembrar um episódio de Histórias Proibidas de Todd Solondz...
o episódio é o primeiro, e se não me engano se chama "Ficção", sobre uma estudante que faz um curso para aprender a escrever em uma universidade norte americana, o professor tem uma teoria bastante particular sobre a escrita, acredita que escrever é potência, virilidade, defloramento... e ensina suas alunas a escrever através de uma relação de subjeição ao sexo viril... enquanto a estudante deve se livrar de todos os seus preconceitos (inclusive raciais) e se entregar de alma (e corpo!) a esse defloramento... a esta escrita que toma conta de todos os poros de sua vida porosa... a relação com a escrita é também representada pela relação que a estudante tem com um "namorado impotente" conforme o audacioso professor...
ao final a escolha recai sobre uma escrita sem comprometimentos, ou em se tratando de Solondz, por um universo cheio de tabus... livre, todavia, de constragimentos...
existem várias formas de se pensar a escrita, João Cabral, por exemplo, acredita que escrever é tirar leite de pedra, os gênios românticos, que é puro processo de inspiração... Solondz que é cineasta acredita que é romper tabus, manifestação do desejo de poder...
não sei em que acredito, sei que quando escrevo não sou sempre eu, que lido com coisas que não sei como chamar, que por vezes expresso sentimentos que não cabem em mim...
é isso que me far querer sempre e a cada vez mais escrever... um não saber o quê, nem porque ou mesmo como...
Nenhum comentário:
Postar um comentário