sábado, 11 de abril de 2020

Tantos anos que não escrevo por aqui... uma vida inteira pra contar.
mas nem quero...resolvi escrever porque uma pergunta me fez repensar minha vida literária... minhas leituras, minha velha vontade de escrever, vontade que não sentia há tanto tempo e opa...
Meu marido estes dias andava lendo Rubem Fonseca, dos meus. E constatou: nossa, não entendo como você um dia leu Rubem Fonseca. Daí o retorno... esse blog foi criado em uma época que eu lia Rubem Fonseca! ah memória literária!
Lembrei de todas as minhas "fases literárias" num instante. Todas elas passaram num piscar de olhos:
a menina lispectoriana que fui,  mas de Lispecor a Milan Kundera, a gente passa num instante... lembro que eu sonhava a insustentável leveza do ser, enquanto lidava com o peso das palavras...
e então me tornei a estudante de letras, militante, libertária, existencialista, mas que aprendeu a duras penas A idade da razão do Sartre, A mulher desiludida, da Beauvior...  minha filha é fruto desse existencialismo todo, pobre criança. Uma jovem mulher desiludida que entendia mas não entendia a desilusão homem, amor, família... e minha filha cresceu, cresceu assim de uma mãe jovem mulher desiludida... e então veio essa fase desesperançada, niilista, schopenhauriana, relativista, piarandelliana. De Pirandello passei um bom tempo o homem do subsolo, muito tempo até... mas acho que junto com essa fase pirandelliana nasceu também as leituras do Fonseca. Num esforço tremendo de tentar entender a psicologia masculina, e olha, foi esforço vão demais, desnecessário demais... mergulhei nesse abismo por tempo demais... talvez os anos de escrita nesse blog, caso eu releia me tragam de volta essa reflexão sobre o homem, o amor, o desespero, a loucura, a paixão, a desconstrução e por fim, o recomeço.
Esse blog não é todo Rubem Fonseca: marca uma transição, entre duas literaturas, entre dois universos de escrita, masculinas, sim, talvez, entre duas línguas: passei de um escritor brasileiro a um italiano, o Tabucchi. Esse blog faz muitas referências a ele. Tabucchi me acompanhou muitos anos: pegava o metrô comigo, foi meu doutorado e pós-doutorado, ah o tempo passou sim.
Tabucchi marca o fim de minhas fases literárias. Confesso que depois dele nunca mais li nenhum autor com o qual eu conseguisse me identificar tanto. Tabucchi também marca o fim do meu ensimesmar-se literário. Depois dele fiquei realista. Entre um livro e outro a vida aconteceu. Não que antes não acontecesse, aconteceu de um modo menos literário... os antonios se esgotaram. Não criei mais nenhum antonio personagem. Não escrevi mais, li muito pouco, dei muita aula de língua e pouca de literatura.
Ser professor de língua é menos literário que ser professor de literatura.
Não tive mais tempo pra ser literária. Nem pra ler literatura de verdade, como eu lia antes, mergulhando profundamente, sprofondando...
Nesse meio tempo, me casei, minha mãe morreu, meu filho nasceu, minha filha pirou, voltou, me tornei professora universitária... algo muito difícil de gerenciar junto com uma vida literária... 
Escrever é como querer se remembrar já dizia o Rosa, remembrança.
Não sei em quê vão de mim mesma me perdi, talvez num lapso de tempo, de espaço, de criação... mas a gente se reinventa, a escrita sempre volta... com sofreguidão, com força, ligando o fim aos confins...e eis me aqui. por hoje, por hora... quem sabe...

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