quinta-feira, 14 de junho de 2007

metropolitanas...

lendo o Borges estes dias, acreditei estar lendo o Tabucchi... jardins que se bifurcam: o Borges dizia que o livro é uma extensão da memória e da imaginação, e se perguntava "que é o nosso passado, se não uma série de sonhos? que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado?", Tabucchi me responderia a estas questões dizendo que a memória é uma falsária, que engana a todos, misturando às certezas do vivido, as incertezas do imaginado, do sonhado...

ouvindo quase sem querer a conversa de duas moças jovens e bonitas, no metrô, e tentando jogar um jogo tabucchiano, escrevi o que vem logo abaixo, tomando o cuidado, claro, de situar minhas palavras entre a realidade, a imaginação e o sonho.

Vingança. Coisa de mulher. Mulher é que pensa nos detalhes. Sabe como ela imaginou? De tarde. No café que sempre frequentavam juntos. Porque sabia que ele viria. Ela estava certa. Era uma questão de contrato. Acordo feito e selado. Quando não se cumprem as regras, então, tudo acaba. Estaria então tudo acabado? Quem não cumprira as regras? Ele? Ela chegou atrasada. Havia uma manifestação no caminho. Na Libero Badaró. O centro congestionado. Os olhares sindicais. Sempre vermelhos. Alguns olhos amarelos também. O café esfriara, de tanto esperar. Muita gente entrava e saía àquela hora do dia. O café cheirava longe. A vida é assim, dizia uma jovem, um dia da caça... o outro é da caça também, completava a primeira, eu chorei, por que ele não pode chorar?...
Refrão. Repetidas vezes aquela conversa no ouvido. A loira jovem aconselhava, e a morena, um pouco mais velha, ouvia, contrariamente. As duas com roupas coloridas, conforme o calor da estação. As cores exalavam seus perfumes. Ela olhou para outras mulheres, sempre jovens. Desejou estar usando óculos escuros, pr'os olhos nublados. Desejou ser homem. Pra amar sem pesar. E prender e soltar. E partir e ficar, se quisesse.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar, mas eu vivo, vivo, muito, vivo...
Fizera de novo. Modificara o refrão. Repetidas vezes. A idéia vaga, ilógica, de que alguma coisa deviria retornar e recomeçar o ciclo, com ligeiras modificações. Ou quantas vezes deveria morrer? e em quantos sonhos? No passado, nos sonhos, não poderia dizer onde estava. Teria vivido mesmo tudo aquilo que agora pensava ter vivido? Fazia um esforço para lembrar onde se haviam conhecido. Teriam mesmo se conhecido um dia? Ela afirmara categoricamente que sim, todos os dias. Talvez ele não gostasse de certezas, vivia no condicional. Ela acreditava imperfeitamente que ele precisava de certezas. Muitas vezes as mulheres acreditam no imperativo, no contrato, no chão em que pisam, na força de não se abismar. Seriam os homens o abismo sem fim? e assim sendo, é tudo o que uma mulher poderia desejar?, abismar-se? cair indefinidamente?, é possível cair por todo o sempre? e caindo, não se morre? não se recomeça? o que significa a repetição infindável do fim? tem algum sentido pra você?
eu busco pouco por sentidos assim definidos. Ele havia dito a sentença serena, serenante. Viver as paixões sem palavras, deixar que os sentidos signifiquem sem palavras.
Ela olhou para a própria bolsa sobre a mesa, deixada ali aberta, exposta. Um livro, um casaco, chaves.
Agora não saberia dizer como a história terminaria, nem mesmo se teria um dia começado. Pensou na inútil vingança enquanto bebia o último gole do frio café. Talvez, ele dissera. Ela sempre apostara na sua certeza, que agora, neste exato momento, era a mais incerta possível.
nove entre dez canções de amor me fazem chorar...

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