na tentativa de ler um pequeno poema em prosa de Baudelaire, do Spleen de Paris, me deparei com um grande problema: não leio francês, talvez algumas poucas palavras eu entenda; achei na net uma versão do texto em inglês, mas meus inglês é precário, me ajuda com algumas estruturas; por fim uma em espanhol, e pra compreensão do espanhol me faltam apenas algumas conjunções e alguns verbos... nada que um dicionário online de italiano/francês/inglês não resolva... ao fim das leituras, consegui (acho) entender o texto e ainda arrisquei uma tradução, embora eu saiba que com certeza temos uma tradução respeitável em português, em algum lugar deste país...
Anywhere Out of the World
(Não importa onde, fora do mundo)
A vida é um hospital onde cada paciente é possuído pelo desejo de mudar de leito. Um quer padecer em frente a uma estufa e outro acredita que ficará bem, próximo da janela.
Parece-me que eu estarei sempre bem onde não estou, e esta mudança é uma questão que discuto incansavelmente com minha alma.
“Diga-me, alma minha, minha pobre e fria alma, o que achas de morar em Lisboa? Deve ser quente lá, e tu serias capaz de absorver o sol como um lagarto. Aquela cidade é próxima do litoral; dizem que ela é feita de mármore, e que as pessoas de lá têm ódio dos vegetais e arrancam todas as árvores. Esta é uma paisagem que te agradarias, feita de luz e mineral, e água para refleti-los”.
Minha alma não respondeu.
“Já que gostas tanto do repouso, somado ao espetáculo do movimento, queres ir para a Holanda, aquela terra bendita? Talvez te divirtas nesse país cuja imagem admiraste tantas vezes nos museus. Que tal Rotterdam, te agradas os bosques de mastros e os navios ancorados aos pés das casas?”.
Minha alma segue calada.
“Talvez te agradasses mais Batavia? Encontraríamos nela, desde já, o espírito da Europa enlaçado à beleza tropical”.
Nenhuma palavra. Teria morrido minha alma?
"A que ponto de entorpecimento chegaste que somente com teu próprio mal te rejubilas? Se é assim, vamos fugir para países que são a analogia da Morte. Já tenho o que nos convém, pobre alma! Vamos fazer as malas para Bornéo. Vamos ainda mais além, até o último extremo do Báltico, mais longe ainda da vida, se é possível; vamos nos instalar no Pólo. Ali onde o sol não toca mais que obliquamente a terra, e as lentas alternações entre luz e escuridão suprimem a variação e aumentam a monotonia, que é a metade do nada. Ali poderemos tomar longos banhos de trevas, contanto que, para nos divertir, as auroras boreais nos enviem, de tempos em tempos, seus feixes de luz rosados e brilhantes, como reflexos de um fogo artificial do inferno”.
Finalmente minha alma explode e sabiamente me grita: “Não importa para onde! Não importa para onde! Contanto que seja para fora deste mundo!”.
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