quinta-feira, 10 de abril de 2008

pieguices...

O último tango em Paris sempre representou para mim o ápice da crítica de Bernado Bertolucci à moral pequeno burguesa, cristã e católica. Era de dentro da "imoralidade" e da degradação que a personagem de Marlon Brando falava e cuspia em todos os valores e preconceitos de classe com os quais ele bem tinha convivido, os quais ele bem sabia de cor e para os quais se lixava. Mas então aparecia uma mocinha aparentemente querendo fugir destes valores, e na sua virilidade ofensiva, a personagem de Marlon Brando a apresentava à transgressão. Transgressão que a mocinha vivencia e se delicia por um período de tempo, até quando se dá conta de que pode se sujar muito e então resolve voltar para o seio de sua classe “limpinha”, e se casa com o noivo parisiense arrumadinho e de futuro promissor. E a personagem heróica e suja de Brando se entrega à comiseração, volta à ofensa, à solidão, à degradação, mas desta vez mais ofendido ainda porque ousara acreditar que podia ter se limpado de sua sujeira.
Bertolucci neste filme, como em muitos outros, mostra sua lógica marxista, revolucionaria, anti-burguesa. É estranho, até mesmo por este motivo, assistir aos Sonhadores, de 2004. Me lembro que quando vi este filme, apesar da temática ser parecida com a do primeiro, um filme da década de 70, se não me engano, se pensamos que a transgressão nunca é realmente consumada (os jovens sonhadores parisienses não levam a cabo o incesto insinuado e desejado, o que poderia ser a destruição de toda moral que aparentemente rejeitavam), acabamos por acreditar que Bertolucci se manteve fiel a sua lógica de desnudar a classe burguesa, mostrar suas esquizofrenias e culpas e sobretudo sua capacidade de esconder a própria doença. Mesmo assim quando vi Os sonhadores senti como se algo no bom e velho Bertolucci tivesse irremediavelmente mudado: a crítica ferrenha de O ultimo tango não é mais tão cruel em Os sonhadores e parece que hoje em dia ser contra valores de classe é o equivalente a ser “cult”. Até mesmo porque quem ataca a moral e os bons costumes parece sempre vir de dentro das classes feridas. Até mesmo porque o vocabulário marxista caiu em desuso e dizer “pequeno burguês” é anacronismo demais. Além de um pouco piegas.
Como exemplo da vida pragmática, me lembro dos primeiros anos de faculdade, dos muitos e muitos amigos que fiz na “calourada”, muitos e muitos marxistas, socialistas, revolucionários, filhos das classes médias que participavam de passeatas do MST, sem pensar que se realmente a reforma agrária tivesse acontecido, muito de seu capital teria sido entregue às massas proletárias, nem que fosse indiretamente. Acho que um destes personagens “reais” mais ilustrativos foi um colega militante que foi pra Cuba estudar e voltou antes do tempo programado porque a falta de água lá quase o impedia de tomar banho, ou melhor, ele tinha sempre que optar entre tomar banho e pegar água pras tarefas domésticas, e como não podia abrir mão de manter-se “limpo”, tomava banho.
Até minha mãe que não participa nunca do âmbito da discussão política me disse que discurso qualquer um faz. E que de boas intenções, como sabemos, o inferno está mais que lotado.
Conto esse “causo” mesmo que qualquer um me diga quais são os imensos problemas que Cuba vive hoje. Acho que não especifiquei nenhum conceito por trás dos vocábulos que usei e nem me baseei em nenhuma teoria pra afirmar e tornar lícito o que contei.
Talvez hoje tenha acordado um pouco cruel demais, mas não era isso que queria parecer. Há muito tempo estava pensando nestas questões e até pensei em reler Cem anos de solidão pra falar do rolo compressor que é a História para os ofendidos. Sem conhecer direito muitos ofendidos. Sem medo de parecer piegas. Talvez o Pedro risse deste meu pensamento imaturo. É isso que me importa, na verdade.

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