segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sem rancor...

E então hoje de manhã encontro as amigas da infância, estamos de volta a nossa cidadezinha do interior, útero, mãe feliz pelo nosso retorno, caminhamos pela avenida única, pra chegar à escola da nossa adolescência, e ele me encontra, de alguma forma, sempre esteve ali, e é então nosso quarto encontro. Eu já sabia que ele viria. Já o esperava. Ele me persegue pelos vãos da minha memória, torna-se eterna lembrança, se disfarça. E então se machuca. O pé, imagino. Mas talvez o braço. Ou quem sabe ainda a boca. Preciso levá-lo ao hospital. Entramos no carro, não sei dirigir, minha amiga nos guia tranqüila, conversamos, estamos alegres, apesar da vontade de querer chegar logo no hospital, socorrê-lo, livrá-lo desta angústia que sangra.

Quando descemos do carro, sou a professorinha e ele meu aluno-menino, um menino lindo, de cabelo escuro, olhos escuros, o nariz sangra, não estamos no hospital, mas na escola de banheiros sujos, os banheiros das escolas são tão sujos, meus pés estão descalços, me angustia percorrer aquele espaço de sujeira, mas o levo ao banheiro, de muitos chuveiros, de água gelada. Dou banho frio no menino, lavo seu nariz com o chuveirinho, não o toco, deixo só a água correr pelo seu corpinho. Sento-o num muro frio, tudo tão frio nesta manhã de reencontro com a escola, envolvo o menino com uma toalha quentinha, ele está limpo agora, pego-o nos braços, e levo-o comigo: ele me pertence...

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