preciso me convencer todos os dias de que as palavras são um mundo a parte, um mundo de equivocos, talvez, e não expressam minha vida...
são, talvez, um modo que uso para representá-la,
a vida, na verdade, é muito maior,
a vida de qualquer ser humano é muito maior,
as palavras são muitas, mas não apreendem tudo,
as palavras são um meio e não um fim,
são uma jaula, nos fixam, nos determinam, nos perturbarm...
tenho que me convencer todos os dias que devo fazer tudo ao contrário do que leio ou escrevo, porque as palavras não podem me encaixar, me aprisionar, me fazer supor que são a derradeira e única verdade possível...
preciso acreditar que escrever é ser um pouco como o poeta fingidor do Pessoa, aliás o único modo de escrever é este, fingindo a dor que de verdade sentimos,
seria ilusão supor que qualquer palavra escrita traga em si a completude do que é uma vida...
tenho que manifestar todos os dias o meu profundo desalento quando uma palavra decide se soprepor a todo e qualquer gesto, a todo e qualquer sentimento, a toda e qualquer vontade...
preciso repetir cem mil vezes que nehuma palavra há de decidir por mim o meu caminho, determinar a minha escolha, gravar sua força em mim e me direcionar conforme os seus caprichos...
preciso acreditar que no labirinto que elas me constroem todos os momentos, há sempre um ponto de fuga, que me leva pra fora deste mundo enclausurado,
que existem túneis que me levam pra fora deste universo sombrio e compacto que é a palavra...
e quando o silêncio não puder me falar por si mesmo,
ou eu não puder restar em silêncio para então ouvi-lo,
que eu aprenda a usar uma única palavra, aquela que me salva de mim,
talvez a palavra perfeita não exista e por isso nenhuma outra deve ser encunciada como perfeição, mas que exista uma palavra que nos salve do abismo,
porque se dizer uma palavra é fazer acontecer,
e se existe algo que não deva acontecer, que não seja, portanto, dito.
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